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Kiko Loureiro: "guitarrista americano é muito rock star"

Kiko, Steve Vai e Steve Morse: diferentes
personalidades. (Fotos: Terra/AP/Div.)

Sexta, 28 de fevereiro de 2003, 17h26

Os brasileiros que conheceram pessoalmente o guitarrista Steve Vai, ex-David Lee Roth, Whitesnake e mito no instrumento, acharam o músico um pouco "blasé". Kiko Loureiro, integrante do Angra e um dos instrumentistas virtuosos que fazem parte do restrito grupo de ídolos da guitarra no Brasil, também concorda com essa impressão. Ele conheceu Vai em entrevista para uma revista brasileira. "Americano tem essa coisa de rock star", diz o músico à reportagem do Terra. Kiko vê o métier por dentro e um exemplo disso é que esta semana está indo a França e Itália para workshops. Ele gosta dessas situações que chama de "roubadas", quando tem de falar em inglês, ser traduzido para o francês ou japonês e perceber que nem sempre a jornada lingüística dessas aulas está sendo bem-sucedida.

Aos 30 anos, 19 como guitarrista, separado, e morando sozinho com seus dois cachorros fila, ele está lançando mais duas videoaulas, em que ensina "macetes" do instrumento para um público ávido por informações: Melhores Solos e Riffs do Angra e Técnica e Versatilidade. "O público do rock mais pesado cresceu. Percebo isso pela venda de discos e público pagante nos shows. O estilo tem um consumidor fiel e no rock'n'roll a globalização já existia há muito tempo", acrescenta o músico, que no ano passado não deu muitas aulas por falta de tempo. Ah! Ele prefere bons alunos na hora de dedicar seu tempo para o ato de lecionar. Já o Angra parou com os shows neste começo de ano e está lançando somente um CD e DVD ao vivo da antiga turnê. Kiko e turma voltam aos palcos em junho, antes do novo disco, no Sweeden Rock, Suécia, e o Gods of Metal, na Itália, na mesma noite que Whitesnake, Queensryche, Metallica e Motorhead. E quem pensa que a troca de figurinhas no meio heavy é fácil, está enganado.

As bandas americanas estão em um esquema que é quase impossível tomar contato com elas, mesmo que toquem no mesmo local, na mesma noite, com horas de diferença. "Os caras chegam de helicóptero minutos antes de entrar no palco. A produção prepara um supercamarote e eles nem usam", explica Kiko, citando o caso do Metallica e Kiss, que já estiveram em festivais com o Angra. O contato com as bandas européias como a Stratovarius é mais fácil, porém elas pouco falam sobre música quando estão no backstage, descontraídas: querem saber é do "business". Quanto faturam por show, se vendem muito no Brasil - essas são as perguntas que o Angra teve de responder aos europeus. "Não são muito interessados em música, vêem tudo como negócio", atesta Kiko.

Confira entrevista:

Você entrevistou o Steve Vai quando ele esteve aqui no Brasil. Como foi a experiência?
Fui ajudar em uma entrevista para uma revista brasileira especializada. Perguntei coisas técnicas e ele foi meio chato.

Como assim ele foi "meio chato"?
Na verdade fiz umas perguntas picantes e ele não gostou. Era véspera de show, estava no camarim esparramado no sofá, com camisa cintilante e óculos escuros. Perguntei o que ele usava de equipamento no palco e ele disse que não ia responder, pois era muito complicado. Aí perguntei se achava que os artistas que tem mais espaço na mídia são os que têm melhores contratos de marketing. Respondeu que não, então citei uma experiência própria, com a Young Guitar japonesa - era patrocinado por uma empresa de guitarras internacional e apareci na revista. Ele então resolveu me dar uma lição de moral, perguntando quantos anos eu tinha, essa coisa. Aí continuei e perguntei que equipamento ele usava para gravar. Citou mais de 30 amplificadores. Quando questionei que guitarras usava, me disse que somente a Ibanez modelo Steve Vai. Ah, chaveco! Um cara que experimenta tantos amplificadores vai usar uma guitarra só? Aí ele ficou bravo e quis me ferrar. Quando perguntei o que fazia para se aquecer antes de tocar, mandou de volta que fazia cooper em volta do quarteirão, pois tinha um problema na coluna desde criança e era muito alto. Acho que disse isso para tirar uma com a minha cara.

Com o Steve Morse foi diferente, não?
Sim. Ele me recebeu no quarto do hotel. Eu também estava ajudando em uma entrevista, mas não disse que eu era guitarrista, nem nada. Depois ele até me elogiou na coluna que escrevia para a Guitar Player, dizendo que foi entrevistado por um guitarrista brasileiro famoso no país e que não deu uma de rock star. Ele ficou o tempo todo com a guitarra na mão, brincando, tocando até jazz. Não queria parar de falar. Só me gozou quando eu perguntei qual era o "background" dele. Eu quis dizer "musical backround" e ele fingiu que levou ao pé da letra e disse que o "background" (n.r.: "fundo") era a parede atrás dele.

O Angra faz um heavy melódico. Mas pegando um gancho mais amplo, você acha que o gênero rock'n'roll está estagnado?
Acho que o gênero esgota, sim. Para não esgotar, tem de misturar. Como foi o mangue beat que misturou o maracatu ao rock, ou bandas como o Barão Vermelho ou Jota Quest que misturaram o gênero com o pop. Precisa ter uma brasilidade para se fazer um rock genuinamente brasileiro. Quando viajamos percebemos que existe o rock francês, que vem da mistura do rock básico com elementos da música local. Para o americano é difícil, pois acabam não misturando e quando o fazem é com a própria música americana, e vira R&B, soul, etc. Para nós soa como uma coisa batida. O caminho é a mistura.

A relação com os fãs do Angra é uma coisa mais amena, não? Não rola um "esquema Beatles".
Na verdade não é bem assim. Tem cara que chega nervoso no camarim, depois do show. Tem fã que até chora. Aí tentamos deixar ele à vontade. Para o fã é algo diferente. Ele vê o artista naquela fotinho e conhecer pessoalmente se torna uma coisa grandiosa. Na minha época era diferente. Os ídolos eram somente os estrangeiros, inalcançáveis. Hoje eles tratam um Angra, um Raimundos como a banda que mais gostam. Tudo melhorou, inclusive o nível dos grupos. Acabou um pouco do preconceito com banda nacional. Hoje tem uma coisa de nacionalidade forte e o fã acredita que somos melhores e não temos de "pagar pau" para os estrangeiros.

As segmentações em rock pop, heavy, hard, new metal, funk metal não dispersaram o estilo?
A segmentação existe para o consumidor achar o CD na loja, para a gravadora poder diferenciar um produto. O público que consome U2 não é o mesmo que consome heavy metal - ou pode até ser, não tem problema. Mas é para eles acertarem o marketing do disco, pois não dá para fazer uma campanha que abranja todas as pessoas.

Você percebe a garotada se interessando pelo rock da mesma maneira que você se interessava na sua época de adolescente? Ou o lado comercial fala mais alto hoje?
É tudo meio parecido, mas agora nós temos a internet. Agora as pessoas trocam muitas músicas, bandas, em MP3. Antigamente tinha aquela coisa de você ir à casa do seu amigo, ouvir um disco legal e pedir para ele gravar uma fita. Hoje é mais ou menos a mesma coisa, só que com mais agilidade. A necessidade de contato humano sempre vai existir, mas o cara pode ouvir uma banda que ele ainda não adora em MP3.

A indústria fonográfica está em crise. No segmento do Angra, o mercado piorou?
O público do rock mais pesado cresceu. Percebo isso pela venda de discos e público pagante nos shows. O estilo tem um consumidor fiel. No rock'n'roll a globalização já existia faz muito tempo, antes de inventarem o rótulo. Existiam os fanzines, pessoas trocando fitas pelo mundo inteiro, por carta. O Angra mesmo respondeu muita carta no começo da carreira. As pessoas se esforçavam. Até bandas estrangeiras pequenas vem ao Brasil e lotam as casas de shows. Um Nightwish, por exemplo. Vem aqui, coloca seis mil pessoas nos show e volta para a casa com o maior público de sua carreira. Quem ama o rock compra camiseta, quer ter o CD oficial, vai no show - o cara se vira para arranjar dinheiro. Não é como um cara que gosta de Pixote, por exemplo, que ouve a música no rádio e fala "ah, vou comprar o CD daquela música" e compra um pirata na esquina. Por isso os CDs de heavy metal têm capinhas caprichadas, estilo Senhor dos Anéis, dragões, que é bem do estilo, pois as pessoas cultuam isso.

O que você ouvia na sua adolescência, e dava vergonha, e o que ouve atualmente?
Na verdade não ouço nada que me envergonhe. Ouço de Cartola a Metallica. Gosto muito de MPB.

Nunca chegou a ouvir coisas como Cinderela, na década de 80?
Ah, tinha isso, sim. Eles usavam umas roupas que pelo amor de Deus. Mas todos nessa época estavam nessa. Pode ver, até o Pantera. O Motley Crue: naqueles tempos era foda. De batom! Os caras tinham as manhas. Vestiam roupas de mulher. Hoje você vai ver: eles estão todos tatuados, jeito de mau. Mas nunca ouvi coisas como Menudo, essas coisas. Apesar de já ter tocado no começo da carreira com o Dominó - mas me pagavam e eu tocava.

Qual foi sua maior lição no instrumento? Algo que no início do aprendizado achava uma coisa e depois passou a achar outra?
Difícil dizer. Nós vamos mudando com o tempo. A técnica, por exemplo, é importante. Quando você chega a um nível começa a reparar que agora o que precisa fazer mesmo é compor, aprender harmonia. Tentei sempre balancear bastante isso. Por sorte estudei com bons professores que me orientavam. Eu deveria saber mais leitura, mas aí acabo não usando. Todo dia aprendemos uma lição. Situações "roubadas" são ideais. Shows, workshops em outros países, por exemplo. Você chega na França ou Japão, não fala a língua, sente um clima totalmente diferente, dependente de um intérprete para traduzir seu inglês para a língua nativa. É um fogueira. Ou vai em um show e o som está ruim, ou a platéia está com uma cara que não está gostando. É uma vivência. Você aprende até que tocar ao vivo é muito diferente de tocar no quarto - até hoje não me habituei perfeitamente a isso.

Você já fez teste audiométrico (n.r.: que avalia as condições auditivas) ?
Sim. No teste deu tudo bem. Eu fiquei encanado, pois tenho problemas na família relacionados à perda auditiva. No teste a mulher me colocou para ouvir umas coisinhas bem lá no fundo, bem agudas. Mas como temos ouvido de músico, acho que até compensa qualquer vestígio de surdez. O teste é aquela coisa que parece aquele jogo do Silvio Santos, em que o cara fica na cabine e fala "sim", "não". No palco ficamos muito expostos ao barulho. Eu uso "ear plug" para os 110 decibéis que temos circulando ao vivo. Mas tem dia que eu quero ouvir tudo alto mesmo.

Ricardo Ivanov / Redação Terra

            

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