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"Como premissa de vida é preciso seguir a vocação", diz vidente

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Ele queria ser pianista. Tinha gosto desde bem pequeno. As mãos eram de uma elegância feminina, dedos longos, movimentos suaves. A família não aceitou. O pai, convicto de fazer o melhor, foi impositivo ao negar. Precisou, forçado, seguir as exigências: estudou administração de empresas e, logo formado, com contatos da família, encontrou trabalho numa companhia de grande porte, poderosa.

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Quando nos encontramos, ele, com expressão devastada, disse: "meu espírito está surrado. Trago cicatrizes colecionadas ao longo dos cinco anos macabros que enfrentei todos os dias das 8h às 16h".

Desajustado naquele escritório grande como um transatlântico, explicou-me, não conseguia aprumar, investir corretamente a energia e o tempo que era ali exigido. Sob pressão, sua consciência flutuava, voava longe.

Ele dizia que trabalhava para viver. Os colegas, condenava, iam além, para eles trabalhar era viver. O passar do tempo apenas piorava o desajuste: não acertava a mão, viu o relacionamento com os colegas degradar, não aceitava a dinâmica muito artificial, sarcástica como ele a classificava.

O pior, completava, era que todos tinham um nome-senha, tratamento carinhoso. Geralmente um diminutivo simbólico - Dó, Fê, Pá, Ân. Ele, fora da patota, era sempre chamado pelo nome completo, não entrando na comunidade.

Tudo ali começou a ganhar ares terríveis. Não conseguia desfrutar de um momento de tranquilidade, incomodava-se com as reuniões e encontros da equipe. Para terminar, explicou, precisava suportar a sede de promoção que arrasava a todos: desejos de poder, cobiça, ódio e raiva.

Pois então, como é difícil estar assim tão desajustado, desamparado, né? Uma violência para o espírito do pianista esse utilitarismo. Sua vida era poesia, não a prática. Percebi ali o perigo de se calar uma vocação, soterrar uma paixão de vida inteira. O pai, com boa intenção, tinha errado feio.

Como premissa de vida devemos eleger o que a nossa vocação indica. Quem quer pilotar avião deve batalhar para isso. Quem quer ser comediante idem. Tornar-se médico, advogado, engenheiro - abraçar qualquer dessas consagradas carreiras -, por imposição, é desastroso.

O melhor é dizer não, correr os riscos e buscar ser, simplesmente, feliz. A boa notícia é que nunca é tarde para sermos que devemos ser. Meu cliente hoje, após longa orientação, toca e está equilibrado e sorridente.

Quer saber mais sobre o trabalho de Marina Gold, ou entrar em contato com ela, clique aqui.

Foto: Getty Images
Fonte: Marina Gold
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