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Tolerância: devemos separar o cultural do espiritual

3 nov 2017
08h00
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É pela tolerância que escrevo. É pela tolerância que devemos separar o espiritual do cultural. É pela tolerância que precisamos distinguir o medular do acessório. É pela tolerância que necessitamos colocar em lugares diferentes o essencial e o complementar, o definitivo e o acompanhante, o importante e o dependente, o protagonista e o coadjuvante.

Foto: william87 / iStock

Vamos entender melhor? Seguir o caminho inquieto e curioso da cultura é bastante proveitoso. Inclusive porque o outro, o caminho da espiritualidade, de lições mais sutis e discretas, sombreadas e elusivas, não se revela fácil, com tamanha abertura e racionalidade.

Vejamos então: o que a cultura mostra? O múltiplo, o fértil, o plural – marcas do diverso e da diferença, das alteridades e outridades que apontam e justificam a tolerância.

Em algumas culturas não se come carne (em geral ou de determinado animal), em outras se come ratos e insetos. Em certas culturas as crianças aprendem a cantar desde cedo, em outras se reforça a importância da meditação e do silêncio. Em determinadas culturas o espaço individual (pessoal) não existe – ficar colado aos outros, inclusive desconhecidos, é a regra –, em outras mesmo o pai não abraça seu filho porque é de mau gosto qualquer toque.

Tem culturas que comem abacate com açúcar (podendo acrescentar, se for do agrado, cachaça), em outras ele é temperado com sal e limão (também tem culturas que nunca viram um abacate). Tem culturas nas quais os casamentos são arranjados, em outras as mulheres podem se relacionar tranquilamente (inclusive com outras mulheres). Tem culturas que abrigam os forasteiros, em outras os estrangeiros são suspeitos e rechaçados.

Há culturas em que se usam talheres, em outras as mãos. Há culturas em que as pessoas deixam os dentes ficarem escuros, em outras se gastam fortunas na tentativa de deixá-los mais claros. Há culturas em que as pessoas se vestem de preto quando morre alguém, em outras o luto é branco. Há outras em que mulheres vão à praia sem a parte de cima do biquíni (ou menos ainda), em as que elas sequer podem mostrar o rosto em público. Há culturas em que os cabelos são tingidos (mesmo de verde ou azul), em outras eles são rapados.

Tudo isso pede e justifica a tolerância. Essas (tantas) diferenças pouco significam para pessoas generosas e instruídas, capazes de compreender nosso alicerce comum: somos todos seres humanos, maravilhas dotadas de centelha espiritual universal.

Uma centelha (é preciso mesmo dizer?) que não tem nada a ver com uso de papel higiênico ou escova de dente, turbante ou gravata, automóvel ou bicicleta.

Essa compreensão favorece, inicialmente, a nós mesmos. Claro, porque somos, no âmago, dotados de identidade espiritualizada comum (somos todos iguais!). E pela tolerância, gostemos ou não, devemos notar que nossa identidade espiritualizada comum é envolvida, apenas, por uma fina casca de determinantes culturais aleatórios, tênues e móveis, desimportantes.

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Fonte: Marina Gold

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