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Não há comprovação de que dormir perto do celular e usar desodorantes com alumínio causem câncer

VÍDEO LISTA SEIS HÁBITOS QUE AUMENTARIAM CHANCE DE DESENVOLVER TUMORES, MAS AFIRMAÇÕES CARECEM DE EVIDÊNCIAS CIENTÍFICAS

2 fev 2026 - 17h10
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O que estão compartilhando: vídeo na internet lista seis hábitos que aumentariam as chances de desenvolver câncer antes dos 50 anos de idade. Seriam eles: esquentar comida no micro-ondas em potes de plástico, comer carne queimada, usar desodorante com alumínio todos os dias, dormir muito perto do celular, beber água em garrafa plástica quente e ingerir açúcar todos os dias.

Nenhum desses hábitos causa câncer de forma comprovada pela ciência atual.
Nenhum desses hábitos causa câncer de forma comprovada pela ciência atual.
Foto: Reprodução/Facebook / Estadão

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. Com exceção ao consumo frequente de carnes bem-passadas, ainda faltam estudos que comprovem existir conexão entre os hábitos citados no vídeo e o desenvolvimento de câncer. O Verifica tentou contato com o autor do vídeo, mas não teve resposta. Confira abaixo a verificação de cada uma das alegações.

Micro-ondas e garrafas plásticas não alteram a segurança dos alimentos

O primeiro hábito que o vídeo cita é o de esquentar comida no micro-ondas usando potes de plástico. De acordo com a gravação, os plásticos aquecidos liberariam substâncias que interfeririam nos hormônios e levariam ao aumento das chances de desenvolvimento do câncer.

Mais adiante, o conteúdo diz que beber água em garrafas plásticas quentes, "esquecidas no carro", também seria um risco, com justificativa semelhante à do micro-ondas. No entanto, nada disso tem comprovação.

O Verifica analisou anteriormente boatos ligados ao uso de fornos de micro-ondas e concluiu que aquecer alimentos no eletrodoméstico é seguro e não apresenta riscos à saúde.

O Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) garante que não há qualquer contraindicação no uso desses aparelhos, "desde que sejam adquiridos no mercado formal, sigam a portaria do Inmetro e que os consumidores sigam as orientações de uso dos fornecedores".

Alimentos e bebidas armazenados em garrafas e recipientes de plástico não causam câncer, de acordo com a oncologista e chefe da Divisão de Pesquisa Clínica e Desenvolvimento Tecnológico (Dipetec) do Instituto Nacional de Câncer (Inca), Andreia Melo.

A médica explicou que pequenas quantidades de substâncias químicas podem passar para os alimentos e bebidas através das embalagens plásticas. "Mas isso ocorre em níveis tão baixos que não são considerados prejudiciais à saúde", disse.

De acordo com a oncologista, alguns estudos sugeriram que certas substâncias químicas encontradas em alguns plásticos podem ter efeitos cancerígenos. No entanto, esses experimentos foram realizados em animais ou modelos de células em laboratório, e não em humanos.

Um exemplo de susbstância desse tipo é o Bisfenol A (ou BPA). É um tipo de material de alta transparência e resistências térmica e mecânica, comumente utilizado em embalagens. A substância pode migrar para alimentos ou bebidas a partir do revestimento interno dos produtos.

Experimentos laboratoriais em tubos de ensaio e em camundongos demonstraram que o BPA pode estimular o crescimento de células cancerígenas. No entanto, ainda não há pesquisas suficientes para vincular o BPA de forma definitiva ao câncer em humanos.

Em 2012, o Brasil proibiu a importação e fabricação de mamadeiras que contenham BPA, após dúvidas sobre a segurança desse material serem levantadas na Organização Mundial de Saúde (OMS).

De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o BPA ainda é permitido para as demais aplicações, mas a legislação estabelece limite máximo de migração específica desta substância para o alimento.

No dia 14 de janeiro deste ano, a Justiça obrigou a Anvisa a alertar sobre a presença de bisfenol-A em produtos plásticos de uso humano. A sentença exige que a agência revise normas internas e inclua um alerta claro, visível e em língua portuguesa nas embalagens de todos os plásticos fabricados, importados ou postos em circulação que se destinem ao contato oral ou consumo humano.

Carnes vermelhas 'bem passadas' podem estar associadas ao surgimento de câncer

O vídeo afirma que carnes preparadas em altas temperaturas, com crostas escurecidas, teriam substâncias ligadas ao desenvolvimento de diferentes tipos de câncer. De fato, há estudos indicando os riscos à saúde de consumir muita carne bem passada.

Em 2017, uma pesquisa da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da Universidade Federal de São Paulo (USP) mostrou que o preparo da carne em altas temperaturas causa a formação de compostos carcinogênicos (indutores das mutações que causam o câncer).

O estudo mostrou que essas substâncias se formam nas partes mais escuras da carne, ou seja, nos pontos onde ela esquenta até quase queimar. Assim, quanto mais bem passada a carne, maior o teor desses compostos.

A oncologista do Inca Andreia Melo reforçou que assar carnes em altas temperaturas pode aumentar o risco de câncer, devido à formação dessas substâncias químicas. Melo lembrou que há estudos epidemiológicos confirmando os riscos do consumo frequente e em porções maiores de carne bem passada, cozida em altas temperaturas.

"Mas fazer um churrasco ocasionalmente, com carnes grelhadas ao ponto, não aumenta o risco de câncer", afirmou a médica.

Não há evidência forte relacionando o uso de desodorantes com alumínio e o desenvolvimento de câncer de mama

O conteúdo analisado afirma que estudos levantam preocupações sobre a absorção do alumínio através da pele e possíveis associações com o câncer de mama.

O alumínio, comprovadamente, apresenta efeitos tóxicos ao organismo humano em determinadas quantidades e cumulativamente. Alguns desodorantes têm na composição complexos de alumínio, que funcionam como inibidores da transpiração.

De acordo com Andreia Melo, "não há evidência forte que relacione esse uso ao desenvolvimento de tumores, como o câncer de mama."

A Anvisa afirmou em parecer técnico de 2014 que não há dados capazes de inferir a relação dos sais de alumínio e a incidência de câncer de mama.

Especialistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) afirmaram naquele ano que havia estudos demonstrando que o alumínio contido nos antitranspirantes fica depositado no tecido mamário. Mas também existiam evidências de que os ativos presentes em formulações de antitranspirantes ou desodorantes não são os responsáveis pelo surgimento do câncer de mama. Portanto, não se pode dizer que existe embasamento científico para dizer que o produto causa a doença.

Ondas emitidas por celulares não provocam câncer

Um dos supostos hábitos de risco, segundo o vídeo, seria dormir com o celular debaixo do travesseiro, devido à "radiação eletromagnética" dos aparelhos. No entanto, a médica do Inca Andreia Melo esclarece que a onda emitida pelos celulares não provoca ionização, ou seja, não possui energia suficiente para causar dano ao DNA. Portanto, não provoca câncer.

Em 2024, a Organização Mundial da Saúde (OMS) descartou a ligação entre uso do celular e câncer no cérebro. Isso se deu após a revisão de dados de 63 estudos conduzidos entre 1994 e 2022. Apesar do grande aumento no uso da tecnologia sem fio, o estudo observou que não houve um crescimento correspondente na incidência de câncer no cérebro.

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Pesquisadores investigam se o sono ruim pode estar ligado ao desenvolvimento de câncer

O vídeo diz que dormir com o celular embaixo do travesseiro atrapalha o sono, e "sono ruim está ligado a maior risco de câncer".

O Instituto do Sono explica que há uma relação bidirecional entre o sistema imunológico e o sono: da mesma forma que a ativação da imunidade pode transformar a qualidade de sono, quem dorme mal tende a sofrer redução das defesas do organismo. O Instituto informa que dormir bem é um hábito importante para controlar fatores de risco para o câncer, como obesidade e sedentarismo.

Ainda estão sendo investigadas as possíveis funções da melatonina (comumente conhecida como hormônio do sono) na redução do crescimento de tumores e da proliferação das células cancerígenas.

Em 2020, por exemplo, um estudo realizado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) revelou que os baixos níveis de melatonina, hormônio regulador do sono, podem estar associados ao desenvolvimento de tumores.

A oncologista Andréia Melo afirma que dormir com o celular próximo, com certeza, pode interferir na saúde do sono. "Porém, não existem estudos que claramente relacionem alterações no sono com risco aumentado de câncer", afirma.

Açúcar não é cancerígeno

O último hábito, apresentado pelo vídeo como "o pior deles", seria comer açúcar todos os dias. O conteúdo afirma que "o açúcar alimentaria células cancerígenas". Mas não é bem assim.

Dietas ricas em açúcares adicionados podem aumentar o risco de câncer ao longo da vida. No entanto, não há evidências de que o açúcar em si cause câncer.

De um modo geral, especialistas afirmam que não há problema em consumir um pouco de açúcar adicionado, mesmo diariamente, desde que a pessoa esteja obtendo nutrientes essenciais no restante de sua dieta.

De acordo com a médica do Inca Andreia Melo, para se evitar o câncer, é recomendada uma alimentação rica em frutas, verduras, legumes e com pouca carne vermelha. Também é importante a prática de atividade física, além de evitar fumar, consumir bebida alcoólica e se expor a radiação ultravioleta do sol de maneira inapropriada. Outras recomendações incluem seguir o calendário vacinal, fazer exame periódico de saúde e exames de rastreamento quando indicados.

Estadão
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