Veja quatro mentiras sobre protetor solar que circulam nas redes e entenda por que são perigosas
DERMATOLOGISTA EXPLICA QUE FILTROS NÃO FAZEM MAL E PROTEGEM PELE DO CÂNCER E DO ENVELHECIMENTO PRECOCE
Publicações com desinformação sobre o uso de protetores solares são uma tendência nas redes sociais, o que tem causado preocupação em dermatologistas. Conteúdos analisados pelo Estadão Verifica amplificam uma teoria da conspiração de que a indústria farmacêutica teria inventado que o sol faz mal para a pele e estaria escondendo a verdade de que os filtros solares são os verdadeiros causadores de câncer.
Essas postagens repassam orientações consideradas perigosas por especialistas, como substituir o protetor solar por óleos vegetais e se expor sem proteção à luz solar no meio do dia. A pedido do Estadão Verifica, o presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Carlos Barcaui, desmistificou quatro mentiras sobre os filtros que estão sendo espalhadas no Instagram, Facebook e TikTok.
'Óleo de coco substitui o protetor solar' - FALSO
Uma das principais mentiras que circulam em relação aos filtros solares é a de que eles poderiam ser substituídos por óleo de coco e outros óleos vegetais. Mas a prática não apenas é ineficaz para proteger a pele do sol, como também é perigosa. Passar óleo aumenta a chance de queimaduras e de câncer em longo prazo.
"Por mais que alguns óleos possam, eventualmente, filtrar ultravioleta em algumas condições, como em laboratório, na vida real, quando aplicados na pele, eles são facilitadores da penetração do ultravioleta", disse Barcaui.
Segundo o dermatologista, o óleo diminui a refração do raio ultravioleta, permitindo que ele penetre ainda mais fundo na pela. A radiação ultravioleta é um dos principais fatores de risco de desenvolvimento de câncer de pele.
"É um perigo achar que passou óleo e está protegido: é o contrário", alertou.
O Verifica encontrou recomendações de uso de óleo de coco como protetor solar em diversas postagens. Em uma delas, um coach que se apresenta como "mestre em jejum e oração" afirma que o óleo de coco tem "FPS natural 4-8" e que protege de dois raios (UVA e UVB) sem bloqueá-los completamente. Mas nada disso é verdade.
'Protetor bloqueia raios solares bons e deixa passar raios ruins' - FALSO
Outra alegação frequente em postagens contra o uso de protetor solar é a de que o produto filtraria raios solares "bons" e deixaria passar os raios "ruins" para a saúde. Mas isso também não é verdadeiro, de acordo com Barcaui.
Segundo o presidente da SBD, existes os raios Ultravioleta A (UVA) e Ultravioleta B (UVB). Eles são diferentes, mas ambos estão associados ao câncer de pele. Dessa forma, simplificar a questão em raios "bons" e "ruins" é perigoso.
O raio UVB tem um papel importante na produção de vitamina D, mas também causa dano ao DNA e está ligado à queimadura solar, explicou Barcaui. Já o UVA está mais relacionado com o fotoenvelhecimento e a pigmentação, principalmente o aparecimento de manchas.
"Tanto o UVA quanto o UVB tem uma participação na carcinogênese, na formação do câncer", destacou. "Não dá para separar em 'um é bom e outro é mal'. A moderação é sempre boa e qualquer excesso é ruim".
O dermatologista explicou que a maioria dos filtros solares presentes hoje no mercado são de amplo espectro, ou seja, protegem contra ambos os raios.
O Verifica encontrou postagens que afirmam que os protetores solares filtram "raios bons" de diferentes autores. Um deles, o "coach de jejum" que vende produtos de emagrecimento, afirma o protetor solar é o "produto perfeito para a indústria: te adoece vendendo 'proteção'". Outro que espalha desinformação é um médico desmentido em várias outras checagens (aqui, aqui, aqui, aqui e aqui).
Não, protetores solares não causam câncer; na verdade, produto previne a doença
Protetor solar faz mal? Médicos rebatem tendência perigosa que domina as redes sociais
'Sol não causa câncer, mas protetor solar sim' - FALSO
A ciência sabe que o sol é um fator desencadeante para o desenvolvimento de câncer de pele. Usar protetor solar é uma das principais estratégias recomendadas por dermatologistas para evitar problemas de saúde. Mesmo assim, diferentes postagens afirmam que não é o sol que causa câncer, e sim o filtro solar.
Barcaui relatou que frequentemente pacientes questionam em consultório se as substâncias químicas dos protetores solares podem causar câncer. Mas ele explicou que as evidências mais robustas existentes hoje descartam isso.
Também não existe prova científica de que a absorção sistêmica desses produtos possa, a longo prazo, causar algum tipo de câncer.
"Ao contrário, há evidências de que o filtro solar reduz o dano cumulativo, protege o DNA e evita o câncer de pele", afirmou o dermatologista.
O Verifica encontrou diferentes vídeos falando que protetores causam câncer. Um deles é de uma mulher que se apresenta como "doutora" e "especialista em saúde integrativa", com quase 700 mil seguidores no Instagram. A influenciadora já foi desmentida ao desinformar sobre vacinas.
Ela afirma que quanto mais protetor solar uma pessoa usar maior a chance de desenvolver câncer, inclusive o de pele. Segundo ela, isso teria sido comunicado pela Food and Drug Administration (FDA), que teria identificado que produtos químicos presentes em protetores solares penetram na corrente sanguínea em níveis não tolerados pelo organismo. Mas isso não é verdadeiro.
De fato, um estudo da FDA constatou que alguns produtos químicos presentes nos filtros solares podem ser absorvidos pela corrente sanguínea, mas não apontou que eles causam câncer.
A agência determinou a necessidade de pesquisas adicionais para verificar se a absorção desses ingredientes tem algum efeito adverso à saúde e ressaltou que o uso de protetores solares é fundamental para a saúde pública.
No mesmo vídeo, a influenciadora afirma que os protetores possuem xenoestrogênios -compostos que imitam o hormônio estrogênio, mas não são produzidos pelo corpo. Para ela, isso quer dizer que os filtros engordam e causam alterações hormonais, o que já foi desmentido antes pelo Verifica.
Alguns ingredientes de filtros solares apresentaram possível relação com desequilíbrio hormonal, mas apenas em estudos com modelos animais. Com base nisso, não é possível afirmar que o filtro solar engorde ou cause alteração hormonal no uso habitual em seres humanos.
"Não tem nenhuma evidência que indique isso", concluiu Barcaui.
'Pegar sol é bom para melasma' - FALSO
O melasma é caracterizado por manchas escuras na pele. Não existe uma causa definida, mas a condição pode estar relacionada ao uso de anticoncepcionais, gravidez e, principalmente, à exposição solar. O fator desencadeante de melasma, segundo a SBD, é a exposição à luz ultravioleta e à luz visível.
Mesmo essa informação sendo amplamente conhecida, há postagens que afirmam que "o protetor solar é um mito" e que a exposição ao sol cura o melasma, e não o contrário.
"Está tudo errado nessa afirmação", disse o presidente da SBD. "O melasma piora com a exposição solar e a luz visível".
O Verifica achou a recomendação de tratar o melasma com exposição ao sol no perfil de uma mulher que se apresenta como cosmetóloga de "beleza natural", com 184 mil seguidores no Instagram.
Uma modelo e apresentadora que é cliente da cosmetóloga repercutiu essas alegações em um podcast, onde recomendou se expor ao sol do meio-dia para combater o melasma. A entrevista tem mais de 22 mil visualizações no YouTube e cortes do trecho que trata sobre melasma viralizaram em outras redes sociais.
'Protetor solar protege contra câncer de pele' - VERDADEIRO
A principal recomendação de dermatologistas é evitar ao máximo a exposição solar, principalmente no período de maior radiação, entre 10 e 16 horas.
Barcaui também recomenda usar barreiras físicas contra o sol. Lugares com sombra, roupas adequadas e acessórios como chapéus de aba larga e óculos escuros são aliados.
Além disso, é recomendado usar filtro solar de amplo espectro, que proteja tanto de raios UVA quanto UVB.
O produto deve ter Fator de Proteção Solar (FPS) acima de 30 e precisa ser aplicado entre 20 e 30 minutos antes da exposição solar. É preciso reaplicar o protetor a cada duas horas, principalmente se a pessoa entrar na água, se estiver suando ou se secou ou se limpou com uma toalha.
"O melhor protetor é aquele que é usado sempre, não adianta proteger um dia e não proteger três. Essas medidas têm que ser constantes ao longo de todo o ano, principalmente em um país tropical como o Brasil", observou Barcaui.