Arquivos de Epstein não contêm provas de 'simulação de pandemia' nem de canibalismo
VÍDEO DISTORCE CONTEÚDO DOS ARQUIVOS SOBRE INVESTIGAÇÕES DE CRIMES DO FINANCISTA
Nota: a reportagem contém descrições de violência.
O que estão compartilhando: vídeo alega que os milhões de arquivos relacionados ao bilionário Jeffrey Epstein provam que "famosos do mundo todo estavam comendo bebês". O conteúdo ainda afirma que a elite teria planejado a "simulação da pandemia" com o empresário Bill Gates. "Tudo isso foi confirmado", diz o vídeo.
O Estadão Verifica checou e concluiu que: é enganoso. Não há provas nos arquivos de Epstein de canibalismo ou de planejamento da pandemia de covid.
Entre os documentos da investigação sobre o financista, há o testemunho de um homem não identificado sobre assassinato de crianças e cenas de violência. Contudo, o Serviço de Inteligência dos EUA, o FBI, não investigou a acusação por falta de provas.
Também não há comprovação de que a pandemia de covid-19 tenha sido criada por uma elite global. A teoria da conspiração circula há anos nas redes sociais. A hipótese mais aceita pela comunidade científica mundial é de que o vírus surgiu na natureza, como mostrou o Verifica.
Quais documentos foram liberados pelos EUA?
O Departamento de Justiça dos Estados Unidos divulgou, no dia 30 de janeiro, com base na Lei de Transparência dos Arquivos Epstein, três milhões de páginas, 180 mil imagens e dois mil vídeos relacionados a investigações contra o criminoso sexual. Os documentos estão disponíveis no site do departamento americano.
Nomes e rostos de famosos aparecem nos arquivos que foram tornados públicos. Há citações ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao empresário Elon Musk, ao ex-príncipe do Reino Unido Andrew, ao ex-presidente Bill Clinton e outros. A menção ou imagem incluída nos arquivos não necessariamente indicam relação com crimes. Personalidades como Trump negam envolvimento com o caso.
Como publicou o Estadão, a partir de informações da Associated Press, os investigadores do FBI concluíram que Epstein abusou sexualmente de menores de idade, mas encontraram poucas evidências de que o financista liderava uma rede de tráfico sexual destinada a atender homens poderosos.
Qual o relato sobre canibalismo com bebês nos arquivos?
As alegações de graves violências contra bebês estão registradas na transcrição de uma entrevista entre agentes de inteligência e um homem anônimo em 2019. O indivíduo é apontado, segundo os arquivos, como uma vítima dos crimes de Epstein nos anos 2000.
O documento (registrado aqui) relata que o homem testemunhou um "sacrifício ritualístico", "bebês sendo desmembrados" e "outros atos de canibalismo" em um iate do financista. Segundo o relato, ex-presidentes estariam presentes no barco "enquanto todos os atos de violência mencionados estavam ocorrendo".
Outro registro do Departamento de Justiça (aqui) cita a entrevista com a suposta vítima em uma troca de e-mail entre um aparente agente do FBI e um detetive da polícia de Nova York. Neste arquivo, um funcionário do serviço de inteligência concluiu que: "não é recomendável que sejam gastos recursos adicionais de investigação em relação à alegação".
Em ambos os arquivos, a investigação aponta que o homem não forneceu provas que corroborassem as acusações.
Uma busca na biblioteca dos arquivos Epstein resulta em 51 ocorrências da palavra "canibal" e em seis para "canibalismo", sendo que alguns registros são duplicados. As menções incluem resumos de notícias, um programa acadêmico e e-mails sobre "um restaurante chamado Canibal".
O site de checagem de fatos americano Snopes, signatário da International Fact-Checking Network (IFCN), verificou a alegação sobre canibalismo com bebês e apontou que não há ligação comprovada nos arquivos de Epstein de que o crime tenha sido cometido pelo financista e aliados.
Documentos não provam criação da pandemia
A teoria de que a pandemia de covid-19 foi criada por uma elite global circula há anos em conteúdos conspiracionistas nas redes sociais, mas nunca foi provada. A hipótese de origem natural do vírus é a mais aceita na comunidade científica internacional, devido a dados publicados em estudos revisados por pares.
Não há nos arquivos de Epstein nenhum documento que comprove a criação do vírus por uma elite global.
O que existe é uma troca de e-mails nos quais o financista e Bill Gates, dono da Microsoft, são convidados para uma conferência em Genebra, na Suíça. O título do painel é: "Preparando-se para pandemias: lições aprendidas para respostas mais eficazes". Os convites foram enviados pelo diplomata norueguês Terje Rod-Larsen, ex-presidente do Instituto Internacional da Paz, em 2015 (aqui).
O site do instituto registrou, na época, que o evento discutiu sobre como se preparar para futuros surtos, a partir de experiências passadas como cólera, gripe espanhola e Ebola. O artigo cita que especialistas, representantes da sociedade civil e instituições participaram do encontro. A Fundação Bill e Melinda Gates, de Bill Gates, é mencionada como um parceiro de "cooperação".
Não há qualquer evidência de que a palestra tenha servido como uma simulação para a pandemia de covid.
Em 2015, o dono da Microsoft havia alertado em outra palestra que o maior risco para a humanidade não era uma guerra nuclear, mas um vírus infeccioso que viria ameaçar milhões de pessoas. O vídeo dessa palestra foi usado em teorias da conspiração sobre o surgimento do coronavírus.
A fundação de Gates é conhecida por investir em pesquisas sobre vírus e apoiar a assistência médica no mundo. Especulações sobre a relação da instituição ou do empresário com a pandemia de covid-19 nunca foram comprovadas.
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