Técnicos do IBGE não foram demitidos por 'se recusarem a maquiar PIB'; sindicato nega interferência
POSTAGEM NO INSTAGRAM TIRA DE CONTEXTO REPORTAGEM DA BAND SOBRE CRISE INSTITUCIONAL ENTRE FUNCIONÁRIOS E PRESIDÊNCIA DO ÓRGÃO; SINDICATO AFIRMA NÃO TER HAVIDO PRESSÃO PARA MUDAR METODOLOGIA DO CÁLCULO DO PIB
O que estão compartilhando: que técnicos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estariam sendo demitidos por se recusarem a maquiar números do Produto Interno Bruto (PIB) para favorecer o governo Lula. A alegação circula junto de trecho de uma reportagem do Jornal da Band que cita a exoneração da coordenadora do setor que calcula o indicador econômico.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. A reportagem da Band não fala em uma suposta ordem para maquiar resultados.
Na verdade, a notícia é sobre a existência de um clima de insatisfação entre o corpo técnico do instituto, em decorrência da exoneração de servidores que não concordam com mudanças propostas pela presidência do órgão.
O Sindicato Nacional dos Trabalhadores do IBGE (ASSIBGE-SN) informou que "em momento algum acolheu denúncias de interferências técnicas na metodologia das pesquisas ou em seus resultados". A entidade assegura que "os dados produzidos pelo IBGE não perderam sua confiabilidade".
Ao Verifica, a entidade acrescentou que não "há nenhuma pressão para alteração da metodologia do Sistema de Contas que possa impactar os agregados resultantes do sistema, como o PIB".
A crise interna do órgão não é novidade. Desde 2024, o presidente, Marcio Pochmann, e técnicos do instituto vêm protagonizando embates que são noticiados pela imprensa.
Saiba mais: Posts no Instagram e no Facebook distorcem uma reportagem veiculada na edição de 28 de janeiro do Jornal da Band. Ao longo da notícia, o repórter Alex Gusmão afirma que o clima no IBGE não é bom entre os servidores das áreas técnicas.
O motivo é a discordância de servidores com projetos da presidência. Segundo a reportagem, há um "sentimento de caça às bruxas" porque "quem não concorda com projetos de mudanças propostas pela direção está fora". O repórter não cita haver uma suposta pressão sobre os resultados do PIB.
Para o sindicato de servidores do IBGE, "desde que foram explicitadas divergências entre a direção e servidores do órgão, grupos políticos têm se aproveitado para difundir falsas notícias e criar um ambiente de dúvidas sobre a credibilidade dos dados do IBGE".
Mas o sindicato esclarece que o que os servidores têm denunciado são "ações antissindicais, exonerações arbitrárias, usos políticos das publicações do órgão e divergências quanto às mudanças realizadas pela atual Direção". Exemplos de discordâncias incluem a criação da Fundação IBGE+ e a proposta de mudança no Estatuto do órgão.
"Os dados do IBGE são bússolas para políticas públicas, estudos acadêmicos e investimentos privados", afirma a nota do ASSIBGE-SN. "Essa confiança só existe porque as pesquisas do IBGE são sustentadas por metodologias internacionais e pela ética de servidores que não se curvam a conveniências conjunturais".
Exoneração da coordenadora de Contas Nacionais
O primeiro caso citado na reportagem da Band é o de Rebeca Palis, exonerada da Coordenação de Contas Nacionais em 19 de janeiro. A área que Rebeca coordenava é responsável pelo setor que calcula o PIB.
Em nota, o sindicato do IBGE afirmou que o posto deixado por Rebeca está diretamente envolvido na implementação do Novo Ano Base do Sistema de Contas Nacionais, que envolve revisão de metodologias de cálculo, incorporação de novas bases de dados e atualização de bases históricas.
Esse sistema gera os grandes agregados macroeconômicos, incluindo o PIB, cujo consolidado de 2025 está previsto para ser divulgado em menos de um mês, no dia 3 de março. Por isso, avalia o sindicato, uma mudança de coordenação nesse momento "deveria ter sido conduzida de forma mais cuidadosa".
O sindicato diz não ter havido pressão por alteração desses números. A demissão da servidora, para a entidade, "se soma a críticas mais amplas à gestão atual do IBGE".
Entre as discordâncias dos funcionários, estão, segundo o sindicato, "a falta de respeito e diálogo institucional; a inexistência de processos de transição adequados; e desvalorização do acúmulo técnico histórico da instituição em favor de ações de caráter predominantemente midiático".
De acordo com a reportagem do Jornal da Band, colegas de Palis veem a exoneração da servidora como retaliação por ela ter assinado cartas contrárias às propostas da direção.
Palis assinou manifestações públicas contestando medidas da administração de Pochmann, como a alteração do Estatuto do órgão e a tentativa de criação da Fundação IBGE+.
Em solidariedade à coordenadora, gerentes do setor pediram exoneração dos cargos. Como noticiado pelo Estadão, três gerentes da área pediram para sair, mas as exonerações ainda não foram oficializadas. Eles continuarão trabalhando nos postos até a divulgação do PIB.
Ao Estadão, Clician do Couto Oliveira, integrante da executiva nacional do Assibge-SN, afirmou que as exonerações não devem prejudicar os cálculos do PIB.
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Outros servidores foram exonerados após divulgar críticas
A reportagem da Band também cita o caso de Ana Raquel Gomes da Silva, exonerada do cargo de gerente da Gerência de Sistematização de Conteúdos Informacionais (Gecoi) em 28 de janeiro.
Em nota, o sindicato do IBGE afirmou se tratar "de mais uma medida retaliatória", porque Ana Raquel e sua equipe protagonizaram embates públicos com a gestão de Pochmann. Um deles foi uma denúncia de "uso político da publicação 'Brasil em Números 2024'".
Em janeiro de 2025, Ana Raquel assinou uma carta aberta criticando o fato de a publicação ter um prefácio escrito pelo governo de Pernambuco. No entender dela, o texto poderia caracterizar "propaganda política" e "campanha eleitoral" da governadora Raquel Lyra. Isso é explicado na reportagem completa da Band.
A reportagem também cita a situação de Dione de Oliveira, que entregou o cargo de coordenadora de Planejamento e Gestão da Gerência de Estruturas e Modelos Organizacionais (CPG/GMO) durante uma tentativa de mudança no estatuto do IBGE.
Em setembro de 2025, a servidora assinou nota técnica criticando a proposta de revisão. O documento alega que a minuta da revisão foi elaborada sem a participação da área técnica formalmente responsável pelo tema e sem a apresentação de elementos técnicos e legais indispensáveis ao debate institucional. O pedido para sair do cargo foi feito em seguida.
Pochmann afirma que todos os cargos estão sujeitos à rotatividade
Pochmann vem fazendo uma série de posts no X (antigo Twitter) defendendo os atos da administração. Na quarta-feira, 4, afirmou que "a gestão atual tem respeito e valoriza a representação coletiva de todos os servidores da instituição". O presidente do IBGE disse que "detém reuniões frequentes e sistemáticas" com os funcionários, "buscando atender os interesses coletivos e específicos de todos".
Em outro post, do dia 31, afirmou que todos os cargos e funções comissionados do órgão estão sujeitos à rotatividade. Segundo ele, entre os 40 cargos de coordenação, todos foram substituídos pelo menos uma vez nos últimos 10 anos.
Embate entre técnicos e Pochmann ocorre desde 2024
A crise entre funcionários e presidência não é de agora. Diversos episódios de conflitos entre a gestão de Pochmann e servidores técnicos vieram à tona a partir de 2024. Ele assumiu o cargo em agosto do ano anterior.
Como informado pelo Estadão, a crise se intensificou em setembro de 2024, principalmente devido à proposta de criação da Fundação IBGE+. Posteriormente, esse projeto foi suspenso. A fundação seria uma entidade privada que servidores apelidaram de "IBGE paralela". Na ocasião, também havia reclamações sobre alterações no regime de trabalho e no estatuto do órgão.
Em janeiro de 2025, o Estadão noticiou diversos episódios sobre a crise interna do IBGE (aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui). Em março do mesmo ano, servidores acusaram Pochmann de assédio moral. Em maio, criticaram novos atos da presidência (aqui e aqui). Em novembro, repudiaram trocas de cargos.