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Tomar café da manhã não faz mal à saúde nem impede autofagia das células

ESPECIALISTAS RESSALTAM QUE PULAR REFEIÇÃO NO COMEÇO DO DIA PODE TRAZER RISCOS; PRÁTICA DE JEJUM DEVE SER FEITA SOB ORIENTAÇÃO MÉDICA

10 fev 2026 - 13h17
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O que estão compartilhando: que o café da manhã é uma refeição desnecessária que impede a autofagia, um processo que eliminaria células doentes e inflamação. Para a autofagia acontecer no corpo, o estômago precisaria ficar vazio por 16 horas.

Postagem engana ao sugerir que café da manhã é maléfico à saúde; jejum deve ser feito sob orientação
Postagem engana ao sugerir que café da manhã é maléfico à saúde; jejum deve ser feito sob orientação
Foto: Reprodução/Facebook / Estadão

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. Tomar café da manhã não faz mal, nem impede a "limpeza" das células. Especialistas consultados pela reportagem explicam que o jejum pode ser benéfico, mas não é recomendado para todas as pessoas e deve ser feito sob orientação médica.

Em 2016, o prêmio Nobel reconheceu o trabalho do pesquisador Yoshinori Ohsumi por identificar os genes que controlam a autofagia - um processo similar a uma "limpeza" e "reciclagem" das células. No entanto, esses estudos foram feitos principalmente com leveduras (fungos). O trabalho não mencionou café da manhã, nem estabeleceu como regra 16 horas de jejum para seres humanos.

O que é autofagia?

Segundo o médico Carlos Minanni, endocrinologista do Einstein Hospital Israelita, a autofagia é um processo de "reciclagem celular". A célula degrada e reaproveita seus próprios componentes danificados ou velhos.

Em 2016, o Prêmio Nobel de Medicina foi concedido ao cientista japonês Yoshinori Ohsumi por descobertas sobre os mecanismos da autofagia. O comitê do prêmio informou que as descobertas do japonês "levaram a um novo paradigma o conhecimento sobre como as células reciclam seu conteúdo".

Segundo o Nobel, a pesquisa abriu caminho para a compreensão da importância da autofagia em diversos processos fisiológicos, como a adaptação ao jejum ou a resposta a infecções.

Minanni ressalta, porém, que o estudo de Ohsumi usou principalmente leveduras (fungos).

"O estudo de Ohsumi não mencionou café da manhã, nem estabeleceu a regra de '16 horas' para humanos", explicou o médico. "A afirmação de que o Nobel provou que o café da manhã 'não é necessário' é uma conclusão falsa tirada por quem interpreta o estudo de forma leiga".

O nutrólogo Durval Ribas Filho, membro da The Obesity Society (TOS) e presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), destaca que a autofagia é um mecanismo essencial de proteção contra doenças e adaptação ao estresse fisiológico. Apesar disso, os efeitos podem variar em contextos específicos.

"Há situações em que a autofagia pode ser insuficiente, excessiva ou inadequadamente ativada, trazendo prejuízos à saúde", exemplificou.

Não há provas de que expor o organismo ao estresse de não se alimentar aumente a autofagia de forma benéfica. O presidente da Abran destacou que estratégias de estímulo da autofagia, como pular o café da manhã, devem ser individualizadas e feitas sob orientação e monitoramento de profissionais da saúde.

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O jejum é benéfico?

Os especialistas entrevistados pelo Verifica concordam que o jejum pode, sim, trazer benefícios à saúde. Porém, ele é recomendado em situações específicas e deve ser feito sob orientação profissional.

Minanni explica que, para algumas pessoas, pular o café da manhã pode ajudar no controle de peso ao reduzir a janela de ingestão calórica. Por outro lado, a mesma prática pode causar, para outros indivíduos, hipoglicemia, perda de massa muscular e até mesmo distúrbios alimentares.

"O jejum intermitente pode ser uma estratégia terapêutica útil em situações específicas, sob supervisão", disse. "Importante destacar que esta estratégia não é superior a outras, e deve ser individualizada para cada paciente", destacou.

Ribas Filho ressalta que, para a maioria dos adultos saudáveis, a literatura médica recente indica que não há benefícios consistentes em pular o café da manhã. Outros grupos não devem fazer jejum.

"Crianças, adolescentes, gestantes e lactantes, pessoas com histórico de transtornos alimentares e indivíduos com baixo peso ou desnutrição não devem excluir o café da manhã sem orientação", afirmou.

O médico nutrólogo ressalta que pular o café da manhã pode resultar em piora da qualidade alimentar. Há maior risco de excesso de fome na próxima refeição e pode haver aumento na ingestão de açúcares, gorduras e ultraprocessados ao longo do dia. A prática pode ainda prejudicar a memória e afetar o humor em algumas pessoas.

Segundo Ribas Filho, o café da manhã deve ser considerado "uma oportunidade para promover hábitos alimentares saudáveis e prevenir doenças cardiometabólicas, especialmente em populações de risco."

Os romanos não comiam de manhã?

Para embasar a alegação de que o café da manhã é uma refeição desnecessária, a postagem verificada afirma que os romanos comiam apenas uma vez por dia. Segundo a publicação, a refeição no começo do dia foi inventada pela indústria alimentícia.

Na verdade, diferentes fontes (veja aqui, aqui, aqui e aqui) apontam que os romanos, em geral, faziam três refeições por dia. Pela manhã, eles faziam uma pequena refeição chamada de jentaculum. Ela era composta principalmente de pão, com consumo também de vinho, queijo e frutas secas.

Como lidar com postagens do tipo: é importante ter cautela com postagens que induzem usuários a adotarem práticas que podem trazer riscos à saúde. Antes de colocar em prática dietas viralizadas na internet, é essencial consultar um profissional da saúde para verificar se essas medidas fazem sentido no contexto individual.

Estadão
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