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Metaverso: será que estamos mesmo migrando para a Web 3.0?

O mito de origem do Metaverso. E tudo que vem junto com ele.

15 nov 2021 06h00
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O Metaverso é o novo? É excitante? É o futuro? Preciso estar preparado? Vamos todos fugir para lá?
O Metaverso é o novo? É excitante? É o futuro? Preciso estar preparado? Vamos todos fugir para lá?
Foto: Facebook / Reprodução

É muito difícil contar a história da tecnologia. Sempre somos obrigados a lidar com vestígios, versões desencontradas e documentos duvidosos.

Em geral, as ferramentas surgem de modo não linear, obscuro e confuso. Aparecem simultaneamente em diversos lugares, sem conexões entre si. Os criadores procuram por uma coisa, esbarram em outra e nem sempre entendem as consequências do que surge.

É por isso que uma das áreas mais interessantes da antropologia é o estudo dos mitos de origem. Eles ajudam a definir um sentido social e político para as gêneses: “a ferramenta foi criada para, é perigoso devido a, decepcionou ou superou as expectativas de”, etc.

E onde eu quero chegar? No mito de origem que está surgindo para assimilar o chamado Metaverso.

O Metaverso está cada vez mais em moda. Até mesmo o Facebook mudou de nome para Meta, dizendo que agora esse é o foco da companhia: acelerar nossa entrada no Metaverso — em especial os usuários mais jovens. A Microsoft acabou de anunciar que está na cola, correndo com seus meio-avatares.

Em boa parte dos sites que cobrem tecnologia, você observará a construção de um novo mito. Certas empresas tentam nos convencer de que estamos migrando para a Web 3.0, baseada na realidade virtual 3D, nas criptomoedas e em tecnologias como o Blockchain.

Mas o mito aqui se confunde com marketing. O Metaverso é um desenvolvimento bem específico de tecnologias anteriores até à popularização da Internet. Específico porque vem financiado pelo capital financeiro.

Note a diferença com o (também impreciso) mito de criação da Internet Clássica. Ela teria sido baseada no desejo de compartilhar conhecimento acadêmico, comportamentalmente libertária e ingênua em termos comerciais.

Já a Web 3.0 nasce com modelo de negócios. Na verdade, nem sabemos exatamente o que fazer nos ambientes virtuais, mas já partimos da motivação de fazer dinheiro. Assim, aparentemente, serão aplicadas lógicas bem-sucedidas do turismo, do entretenimento cultural, a venda de objetos virtuais e a curadoria.

Até mesmo o criador dos termos avatar e metaverso, o escritor de ficção científica, Neal Stephenson, já trabalhou na Blue Origin, antes da empresa de Jeff Bezos se focar nas viagens espaciais. Ou seja: a Big Tech é a estrutura da nova fase da Web. Natural que ela queira definir sua nova etapa.

Vale prestar atenção nesse novo mito de origem do Metaverso, antes de aceitar certas narrativas como verdadeiras. O Metaverso é o novo? É excitante? É o futuro? Preciso estar preparado? Vamos todos fugir para lá?

Não sei. Será preciso mesmo continuar a acreditar nesse discurso do progresso, de que tudo o que é (supostamente) novo é melhor?

Se você leu o próprio marco-zero do termo metaverso, o livro Snow Crash, já sabe que passar horas num mundo virtual está longe de ser algo simples. Vamos com calma.

(*) Eduf é cientista social, publica na internet desde 1996. Escreve, produz podcasts e desenvolve websites.

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