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Opinião: por que a criadora do game 'Fifa' é tão odiada?

Como a empresa responsável por franquias como 'Fifa' e 'The Sims' pode passar por momentos tão difíceis e ter a imagem tão ruim. Entenda.

29 mar 2018
10h07
atualizado às 10h09
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As pessoas odeiam a Electronic Arts. Sim, a afirmação pode parecer um pouco exagerada, talvez até maldosa. Mas não existe outra forma mais clara de descrever o sentimento de antipatia que as pessoas parecem sentir pela empresa californiana responsável por games como Fifa, Battlefield,  Star Wars: Battlefront, Need for Speed, The Sims, Rock Band, Titanfall, Dragon Age e tantos outros. E essa antipatia parece aumentar a cada ano.

A EA teve um péssimo ano em 2017 e isso não se estende apenas aos seus lançamentos, pois ele também foi desastroso para a imagem da companhia. Dos quatro grandes lançamentos que chegaram às prateleiras no ano passado, três tiveram uma recepção morna por parte da crítica e público, sendo que todos vieram carregados de polêmicas, o que invariavelmente refletiu em suas vendas.

'Fifa 18': sobrou polêmica com licenciamento de jogadores
'Fifa 18': sobrou polêmica com licenciamento de jogadores
Foto: Reprodução / EA Sports

Mass Effect não foi apenas um jogo medíocre, ele chegou ao público com tantos problemas que a própria EA o tirou de sua lista de prioridades. Need for Speed também não agradou e foi pesadamente criticado por suas microtransações. O mesmo também aconteceu com Star Wars: Battlefront II, porém em uma escala tão maior que criou uma enorme  tensão na relação entre EA e Disney, depois da repercussão negativa que o jogo trouxe para franquia criada por George Lucas.

Nem mesmo popularíssimo Fifa escapou do drama, afinal, embora continue vendendo e faturando muito para a sua produtora, o game gerou uma certa polêmica ao ser acusado de uso indevido de direitos autorais. Lógico que isso acabou em uma montanha de processos jurídicos.

A EA não teve um ano ruim. Ano ruim acontece quando não se ganha aquela promoção tão esperada ou quando a grana que você juntou ainda não foi suficiente para comprar um console novo. A Eletronic Arts teve um péssimo ano, talvez um dos piores de sua história, e olha que estamos considerando inclusive 2012 e 2013, quando ela foi eleita a pior empresa dos Estados Unidos, segundo votação feita no site Consumerist.

É uma zona um tanto paradoxal: a de uma empresa que é repudiada pela mesma comunidade que ama seus jogos.

'Star Wars: Battlefront II' também não escapou da polêmica
'Star Wars: Battlefront II' também não escapou da polêmica
Foto: Divulgação / Electronic Arts

A indústria de games, como tantas outras, é movida pela paixão, seja por parte das pessoas que desenvolvem os jogos ou, principalmente, a das pessoas que amam jogá-los. Mas a questão é que os jogadores desenvolvem um sentimento não apenas aos títulos ou franquias que chegam para os seus consoles, mas também pelas empresas que produzem os jogos.

A própria estrutura da indústria de games contribui para isso, já que ela é uma vertente do entretenimento muito mais impessoal que a do cinema ou a da música, para citar apenas alguns exemplos.

Quando vamos ao cinema ou assistimos uma série, estamos vendo pessoas reais interagindo umas com as outras e, embora saibamos que aquilo é uma representação, afeiçoamo-nos àqueles rostos e às pessoas que estão “por trás” dos personagens. Essa empatia fica muito mais fácil quando consideramos que esses atores estão constantemente aparecendo na mídia, ao lado de diretores e produtores. A indústria de games não funciona desta forma.

Quando jogamos, vemos apenas personagens virtuais em nossas telas e temos um contato mínimo com as pessoas que produzem os títulos, principalmente quando falamos de grandes produções. Embora existam aqueles que sejam mundialmente conhecidos na indústria dos jogos, como monstros sagrados do porte de Shigeru Miyamoto (criador do Mario) e Hideo Kojima (Metal Gear Solid), são pessoas que foram alçadas ao hall de pop stars da indústria e são uma exceção à regra. A infinita maioria dos profissionais responsáveis por criar jogos nunca é conhecida. Pouquíssimas pessoas sabem quem é Neil Druckmann (The Last of  Us) ou David Cage (Heavy Rain, Beyond: Two Souls) e a gigantesca maioria daqueles que reconhecem os seus nomes não saberia reconhecê-los em uma foto.

Quando não se ter a oportunidade de conhecer estas pessoas, no caso dos jogos, o público acaba direcionando este sentimento para as empresas que produzem os títulos. Assim, enquanto os fãs de cinema amam Meryl Streep, Steven Spielberg ou Tom Cruise, no mundo dos games os jogadores amam a Nintendo, a Sony, a Microsoft e as companhias que desenvolvem os jogos favoritos de suas plataformas.

Não é à toa que, ao saber disso, muitas produtoras e desenvolvedoras passaram a trabalhar para criar uma relação muito mais próxima com seus fãs, algo que não acontece com as produtoras e grandes distribuidoras de filmes. A única exceção a esta regra talvez seja a Disney, mas isso ocorre porque a empresa atua em diversos segmentos do entretenimento.

Andrew Wilson, CEO da EA que tem "cara de CEO"...
Andrew Wilson, CEO da EA que tem "cara de CEO"...
Foto: Divulgação / Electronic Arts

UMA  RELAÇÃO DE ALTOS E BAIXOS

Enquanto algumas desenvolvedoras se tornaram experts em criar um vínculo com seus jogadores ― como Rockstar, CD Projekt Red, Ubisoft, Naughty Dog ou Nintendo ―, outras seguem um caminho inverso, como é o caso da EA.

Aqui existe um fator “periférico” que impacta na forma como a Eletronic Arts é vista pelas pessoas: ela não tem um rosto simpático que a represente. Andrew Wilson pode ser um excelente CEO para a empresa, mas não tem a dose de carisma necessária para entreter as pessoas e mostrar que ele é tão apaixonado por games quanto os jogadores para quem ele fala. A recepção morna que ele tem em toda E3 (feira anual de games que  acontece na Califórnia) é uma prova cabal disso, uma receptividade muito semelhante a que Peter Mooer (outro engravatado conhecido da empresa) também recebia.

Quando comparamos estes dois empresários a outros nomes como Reggie Fils-Aimé (Nintendo) e Phil Spencer (Microsoft), a diferença é brutal. Quando Reggie e Phil sobem ao palco, o carisma é palpável e, quando eles falam, você acredita que eles realmente amam trabalhar com games e que a mensagem deles segue uma linha “de jogador para jogador”.

Claro, nem toda companhia tem a sorte de ter um líder carismático, mas outras empresas do segmento driblam o problema colocando outras pessoas para falarem sobre elas, como a Ubisoft, que inclui até atores para serem os porta-vozes da empresa em grandes eventos.

'Need for Speed' deixou de ser "prioriadde" para a empresa
'Need for Speed' deixou de ser "prioriadde" para a empresa
Foto: Reprodução / Electronic Arts

FALEM MAL, MAS FALEM DE MIM

Embora seja realmente um absurdo eleger a EA como a pior empresa dos Estados Unidos por dois anos consecutivos, como ocorreu no passado, isto mostra o nível de “carinho” que as pessoas têm pela companhia e isso se deve principalmente pela forma como a empresa se comporta para com os jogadores. Infelizmente, fazer jogos incríveis não é suficiente quando o gamer não vê a empresa com bons olhos ou desconfia das ações da companhia.

A Eletronic Arts sempre esteve na linha de frente quando falamos sobre formas de aumentar a monetização dos seus jogos. Ela foi uma das primeiras a aderir às DLCs (pacotes de expansão) para seus títulos multiplayer e também estava na vanguarda da implementação de microtransações mais explícitas em seus produtos. O problema é que ela acabou ganhando a fama de ser uma produtora que só quer uma "desculpa para tirar o seu dinheiro".

Mas não sejamos injustos aqui, pois toda companhia quer aumentar seus lucros e está no mercado para fazer dinheiro. O problema é a forma como isto é comunicado e as ações feitas para que isso ocorra.

Muitas empresas chegam a assumir riscos para passar uma imagem positiva. Quando a CD Projekt Red afirma publicamente que seus jogos não têm bloqueio contra a pirataria, isto coloca em risco o número de vendas do jogo, embora também acabe gerando um sentimento de confiança nos jogadores, que se sentem valorizados até mesmo com simples gestos, como a carta da produtora e os pequenos brindes vendidos junto com The Witcher 3, por exemplo.

Agora, quando todos os seus jogos são criticados por um sistema de faturamento inserido em um jogo que já custa em média R$ 250,00, a brincadeira se torna diferente. O que era carinho se torna mágoa, que é exatamente onde a raiva começa. Some isso a uma péssima forma de comunicação e você tem uma receita para o desastre.

A microtransação de 'Battlefield' pegou muito mal com fãs de 'Star Wars'
A microtransação de 'Battlefield' pegou muito mal com fãs de 'Star Wars'
Foto: Reprodução / Electronic Arts

A EA tornou-se perita em piorar uma situação ao tentar explicar algumas de suas ações mais polêmicas. Quando a empresa foi pega com a “boca na botija” por inserir um sistema abusivo de microtransações em Battlefront 2, obrigando os jogadores a pagar ou jogar dezenas de horas para acessarem heróis clássicos da série Star Wars, a empresa simplesmente despertou a ira de seus jogadores ao dizer que o sistema tinha a intenção de proporcionar um sentimento de “orgulho” e “realização”.

Olhando em retrospecto, a forma abusiva de microtransações no jogo foi simplesmente um erro de cálculo inserido em um jogo que ainda nem mesmo tinha chegado às lojas oficialmente, algo que poderia ter sido reparado sem grandes problemas, com uma resposta “padrão” no sentido de que a empresa ainda estava fazendo algumas alterações no game. Ou um simples pedido de desculpas.

A Bungie, por exemplo, tem lidado com um público cada vez mais crítico com os títulos da franquia Destiny, porém, ela é um exemplo de como se pode trabalhar uma recetividade de forma mais positiva e honesta.

No entanto, se em vez disso você tenta convencer seu consumidor que a empresa está fazendo um “favor” a ele ao cobrar mais caro por um sistema do jogo, você está passando uma mensagem muito clara ao seu consumidor: que você o considera incrivelmente ingênuo (para dizer o mínimo).

Sede da EA na Califórnia: tem até campo de futebol real!
Sede da EA na Califórnia: tem até campo de futebol real!
Foto: Divulgação / Electronic Arts

O FATOR ELECTRONIC ARTS

Quando olhamos mais de perto o cancelamento do game Star Wars desenvolvido pela Visceral Games e o fechamento do estúdio, entendemos a parcela de culpa da produtora em todo o processo, porém a responsabilidade também cai em grande parte na equipe que liderava aquele projeto. Em qualquer outra empresa a notícia poderia ter gerado tristeza e um pequeno burburinho por parte dos fãs, mas facilmente seria esquecida com o tempo. Mas quando se passa a notícia pelo “fator EA”, a situação ganha um novo patamar e a companhia é apresentada como a grande vilã que não apenas cancelou um grande jogo e colocou muita gente “no olho da rua”, mas que também planeja acabar com os jogos singleplayer, algo que obviamente não é verdade.

Coloque isso junto com uma comunicação desastrosa por parte da empresa, que chegou a falar que jogos singleplayer não são tão amados quanto antes, e o que temos é mais ódio contra a Eletronic Arts, algo que a companhia parece não entender.

Essa antipatia que também chega à mídia especializada e, assim como acontece com centenas de jogadores, não é difícil encontrar produtores de conteúdo e jornalistas da área de games que claramente têm uma visão negativa da empresa e falam francamente sobre isso, atingindo outras milhares de pessoas. Consegue ver a bola de neve aumentando?

É exatamente por isso que a EA precisa entender. Primeiro porque é preciso admitir que se tem um problema para que se consiga resolvê-lo, afinal o processo de cura de uma doença começa com o seu diagnóstico.

Ao admitir que sua imagem não é bem vista pelos jogadores, a empresa poderá rever seus conceitos e pensar duas vezes sobre as decisões administrativas que possa vir a tomar e principalmente como vai conversar com os jogadores sobre elas. Quando se sabe que tudo que você disser poderá ser usado contra você no “tribunal” da internet, qualquer pessoa ou empresa sensata revisa cinco vezes tudo que irá dizer aos fãs e fica atenta a eventuais críticas.

A EA é uma das maiores no segmento de games, responsável por jogos que marcaram gerações e exatamente por isso é triste ver que sua imagem não condiz com sua história, uma situação que depende apenas da empresa para mudar e é bom que isso aconteça depressa, afinal sua imagem djá começou a influenciar o seu financeiro, com queda nas ações e perdas que chegam à casa de centenas de milhões de dólares.

Geek

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