A mestre de cerimônia começou agradecendo a presença dos presentes e de "todos que nos assistem, onde a internet não foi cortada", em uma crítica aos conflitos atuais. "Boa noite e bem-vindos a todos que tentam resistir", continuou. "Cannes é um lugar que continua a nos unir, o único onde um filme coreano pode emocionar uma espectadora brasileira", disse. "São histórias que desenham e descrevem a humanidade", definiu.
A edição deste ano também é marcada por uma homenagem ao cineasta neozelandês Peter Jackson, diretor da trilogia O Senhor dos Anéis. Ele recebeu a Palma de Ouro honorária na cerimônia de abertura, nesta noite, quando foi aplaudido de pé. "Foi um prêmio inesperado, uma grande surpresa e uma honra", disse em seu discurso de agradecimento.
Peter Jackson também dirigiu a série documental The Beatles: Get Back (2021). O sucesso do quarteto inglês foi lembrado no palco de Cannes pela cantora e rapper franco-congolesa Theodora, de 22 anos, uma das artistas em ascensão da cena musical francesa.
As atrizes Gong Li, da China, e a americana Jane Fonda, de 88 anos, foram convidadas da cerimônia de abertura. "O poder do cinema nos reúne esta noite", disse Fonda. "Acredito que o cinema sempre foi um ato de resistência", acrescentou, antes de as duas abrirem oficialmente o evento.
Doze dias de evento
Até o dia o dia 23 de maio, cinéfilos do mundo inteiro acompanharão as novas tendências e lançamentos do cinema mundial, bem como inovações de linguagem e estética. O filme de abertura, "Vênus Elétrica", do diretor tunisiano Pierre Salvadori, celebra o amor, a magia e as ilusões.
Centenas de filmes serão exibidos até o encerramento do festival, quando o diretor sul-coreano Park Chan-wook, presidente do júri, entregará o prêmio mais cobiçado da sétima arte, a Palma de Ouro de 2026, ao vencedor. "Somos como uma grande família", disse ele na cerimônia de abertura. "Com os membros do júri é a mesma coisa", comparou.
A atriz americana Demi Moore e o roteirista britânico Paul Laverty também integram o júri este ano, entre outros nomes.
Ao todo, 22 longas-metragens de pelo menos 12 países concorrem à Palma de Ouro. Apesar da boa fase do cinema brasileiro, nenhum filme nacional está entre os selecionados para a competição. Mas o Brasil estará representado pelo produtor Rodrigo Teixeira, com Paper Tiger, dirigido pelo norte-americano James Gray na Seleção Oficial.
Sucessos de bilheteira de Hollywood ausentes
Em um contexto de incerteza econômica, Hollywood tem se mostrado mais relutante em submeter suas produções ao júri de Cannes, avaliam os organizadores.
Tradicionalmente marcado por grandes estreias de Hollywood e pela presença de estrelas como Tom Cruise e Harrison Ford em edições precedentes, que ajudam a equilibrar a predominância de filmes autorais na mostra, o festival terá neste ano apenas duas produções norte-americanas, ambas independentes e fora do circuito dos grandes blockbusters.
Quando assumiu o cargo, há 25 anos, o delegado-geral do festival, Thierry Frémaux, fez das produções americanas de grande porte uma prioridade para ampliar a projeção internacional do evento. No entanto, ao anunciar a seleção oficial em abril, precisou justificar a ausência dos grandes estúdios da costa oeste dos Estados Unidos. "À margem do cinema de estúdio, continua existindo um cinema independente, um cinema fora de Los Angeles", afirmou.
Apesar da menor presença de produções hollywoodianas, estrelas americanas ainda devem marcar presença no tapete vermelho. John Travolta apresentará seu primeiro filme como diretor, enquanto Woody Harrelson e Kristen Stewart participam do novo longa do francês Quentin Dupieux.
Nos bastidores, produtores e distribuidores americanos continuam a viajar para a Côte d'Azur para participar do Marché du Film, o mercado cinematográfico do festival — plataforma onde profissionais do setor se reúnem para financiar projetos em desenvolvimento e negociar a distribuição de obras.
Entre os convidados estão nomes consagrados, como o espanhol Pedro Almodóvar, que apresenta o longa Amarga Navidad, e o iraniano Asghar Farhadi, que concorre ao prêmio principal com Histórias Paralelas.
Além da competição principal, 19 filmes integram a seção paralela Un Certain Regard, parte da seleção oficial. Nenhuma dessas produções vem da África, da China ou da Índia — regiões que somam 56 países e cerca de 4,3 bilhões de habitantes —, o que evidencia a persistente desigualdade na representação global do cinema.
Com RFI e agências