Fim da guerra na Ucrânia: 'Putin não está disposto a fazer concessões', diz analista político

Depois de criticar as forças da Otan em seu discurso de 9 de maio, o presidente russo, Vladimir Putin, evocou a aproximação do fim do conflito na Ucrânia. Ao mesmo tempo, os bombardeios russos contra o país não deram trégua nem mesmo após o anúncio de um cessar-fogo pelos Estados Unidos entre os dois lados. A Rússia estaria mesmo disposta a encerrar o conflito? Em entrevista à RFI, especialista vê a iniciativa com ceticismo.

10 mai 2026 - 13h06

Algumas horas separam discursos e posições divergentes do presidente russo. No sábado, durante as comemorações do "Dia da Vitória" - data em que o país celebra o triunfo da União Soviética sobre a Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial - Putin criticou diretamente a Otan e Kiev e disse estar "convencido" que a causa russa na Ucrânia é "justa". Mas na noite de sábado (9), o chefe do Kremlin declarou que o conflito "está se aproximando do fim" e se disse disposto até mesmo a se reunir com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.

O presidente russo, Vladimir Putin, em coletiva de imprensa em Moscou, em 9 de maio de 2026.
O presidente russo, Vladimir Putin, em coletiva de imprensa em Moscou, em 9 de maio de 2026.
Foto: REUTERS - Ramil Sitdikov / RFI

Para o analista geopolítico Ulrich Bounat, especialista em Europa central e do leste e pesquisador associado do think tank francês Euro Créative, as declarações de Putin não indicam uma mudança radical de posição por parte da Rússia, que parece adotar uma estratégia similar a dos Estados Unidos. "Ele disse que estava disposto a conversar com os europeus. Também afirmou que estava pronto para fazer a paz ou, em todo caso, que a guerra não demoraria a terminar. Um pouco como Donald Trump em relação à população americana, repetindo a cada dois dias que a guerra no Irã está prestes a acabar", observa.

Publicidade

Bounat destaca que a importância da opinião pública russa - monitorada em tempo real pelo Kremlin - é grande. Segundo o analista, Putin se vê diante de uma população que nunca compreendeu totalmente a guerra na Ucrânia e que, por outro lado, começa a sofrer consequências econômicas cada vez mais concretas em seu cotidiano. "O presidente russo precisa oferecer garantias de que a guerra vai terminar em breve", aponta. 

Além disso, o especialista lembra que, para a Rússia, a ideia de fim da guerra é entendida como uma vitória e não como uma disposição para negociar. "Não se deve concluir que Putin está disposto a fazer concessões", sublinha.

Proposta de mediador alemão é desdenhada por Berlim

Putin também propôs que seu amigo e ex‑chanceler alemão Gerhard Schröder seja o mediador de um acordo de paz com a Ucrânia. No poder de 1998 a 2005, o social‑democrata de 82 anos tem sido, há vinte anos, um aliado fiel do chefe do Kremlin.

"Tomamos nota dessas declarações", reagiu o governo alemão neste domingo (10), afirmando que a proposta "se insere em uma série de falsas ofertas" russas. Berlim vê, nas entrelinhas, "a já conhecida estratégia híbrida" do Kremlin e acrescenta que "um primeiro teste de credibilidade seria a Rússia prorrogar a trégua". 

Publicidade

Gerhard Schröder viu sua reputação se degradar na Alemanha após a recusa em condenar a invasão russa em 2022. A atitude provocou uma forte reprovação até mesmo dentro dentro de sua legenda, o Partido Social‑Democrata (SPD), atualmente minoritário da coalizão de Friedrich Merz. 

"Um mediador entre a Rússia e a União Europeia não pode ser o amigo do Putin", declarou Michael Roth, um influente político social‑democrata, em entrevista neste domingo ao jornal Tagesspiegel. "O essencial é que esse mediador seja, antes de tudo, aceito pela Ucrânia. Nem Moscou nem nós podemos decidir isso no lugar de Kiev", acrescentou.

Ataques continuam, apesar de cessar-fogo

O cessar-fogo anunciado na sexta-feira (8) pelo presidente americano, Donald Trump, para ter início no sábado, não vingou. Tanto Kiev quanto Moscou continuaram se acusando mutuamente de ter desrespeitado a trégua, após tentativas unilaterais durante a última semana. 

As autoridades ucranianas relataram neste domingo ataques com 27 drones russos de longa distância e quase 150 confrontos no campo de batalha nas últimas 24 horas. Uma pessoa foi morta e outras três ficaram feridas em ataques russos na região de Zaporíjia, no sudeste da Ucrânia. Cerca de 20 feridos também foram registrados em bombardeios em Kharkiv, no nordeste, Kherson, no sul, e Dnipro, no sudeste.

Publicidade

O governador da região russa de Belgorod, que faz fronteira com a Ucrânia, afirmou que um soldado russo ficou ferido durante um ataque de drone ucraniano em uma área fronteiriça.

Na linha de frente, as hostilidades também não deram trégua. Em seu relatório diário, o Estado‑Maior ucraniano registrou 7.704 ataques de drones e 2.021 bombardeios de artilharia contra posições ucranianas. Já o Exército russo acusou neste domingo as forças de Kiev de terem realizado, nas últimas 24 horas, 676 disparos de artilharia e de tanques, 6.331 ataques de drones e oito ofensivas de infantaria na linha de frente.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se