Líbano apresentará queixa na ONU contra Israel, acusado de pulverizar pesticida em seu território
Beirute anunciou nesta quinta-feira (5) que pretende apresentar uma queixa às Nações Unidas contra Israel, acusado de ter pulverizado substâncias químicas sobre vários vilarejos fronteiriços no sul do Líbano em 1° de fevereiro. A força da ONU que atua no país lamenta uma atividade inaceitável e contrária à resolução que prevê o fim dos conflitos entre as duas nações.
Com informações de Paul Khalifeh, correspondente da RFI em Beirute
Mais de um ano após a conclusão de uma trégua entre Israel e o movimento armado Hezbollah, as áreas fronteiriças do lado libanês continuam vazias, mas a situação ainda continua tensa entre os dois países. Amostras de terra e água coletadas pelo Exército libanês e analisadas em laboratórios especializados mostram uma quantidade elevada de glifosato, herbicida que provoca graves danos à flora e à fauna e é potencialmente cancerígeno.
Em um comunicado, os ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente do Líbano informam que algumas amostras apresentam uma concentração de pesticida entre 20 e 30 vezes superior aos níveis normalmente aceitos pelas normas internacionais. A nota afirma que a substância pode "danificar a cobertura vegetal nas áreas atingidas, com repercussões diretas sobre a produção agrícola, a fertilidade do solo e o equilíbrio ecológico.
As duas pastas denunciam ainda um "ecocídio" e alertam para "os potenciais riscos sanitários e ambientais capazes de afetar a água, o solo e a cadeia alimentar" do Líbano. Já o presidente libanês, Joseph Aoun, aponta "uma violação flagrante da soberania libanesa e um crime ambiental e sanitário". Para ele, o incidente é uma "continuação dos repetidos ataques israelenses contra o Líbano e seu povo". Até o momento, Israel não se pronunciou sobre as acusações.
Finul confirma pulverização
Na segunda-feira (2), a Força Interina das Nações Unidas no Líbano (Finul) informou, por meio de um comunicado, ter sido notificada na véspera pelo Exército israelense sobre uma operação destinada a pulverizar "uma substância química não tóxica" perto da fronteira. Israel recomendou que os capacetes azuis se afastassem da região e buscassem abrigo, "forçando-os a cancelar mais de uma dezena de operações", relatou a Finul.
"Não é a primeira vez que o Exército israelense pulveriza substâncias químicas desconhecidas a partir de aviões sobre o Líbano", denunciou a força da ONU, qualificando a operação israelense como "inaceitável". "Isso levanta preocupações quanto aos efeitos desse produto químico desconhecido sobre as terras agrícolas locais e seu impacto no retorno de longo prazo dos civis e em seus meios de subsistência", reitera a nota.
Zona tampão
As lideranças israelenses não escondem o objetivo de criar uma zona tampão na fronteira entre os dois países. Dentro desta mesma lógica, o Exército israelense utilizou, durante a guerra, bombas de fragmentação e fósforo branco nessas mesmas regiões.
Os vilarejos atingidos pelas pulverizações estão quase totalmente destruídos e foram abandonados pela população, o que é considerado por Israel como o meio mais eficaz de afastar o Hezbollah da fronteira.
Segundo especialistas, o uso de potentes herbicidas também tem como meta romper de forma duradoura o vínculo entre o habitante e sua terra. No entanto, a estratégia não impediu muitos moradores de seguir trabalhando nos campos, na tentativa de continuar cultivando o solo.
Um relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em colaboração com o Ministério da Agricultura e o Conselho Nacional para a Pesquisa Científica do Líbano, apontou recentemente os prejuízos dos ataques israelenses entre outubro de 2023 e novembro de 2024. O balanço afirma que o setor agrícola libanês sofreu danos diretos em suas plantações, pecuária e pesca estimados em cerca de US$ 118 milhões, além de perdas econômicas indiretas de aproximadamente US$ 586 milhões.
Segundo o documento, a reconstrução e a reabilitação do setor agrícola exigirão um financiamento de cerca de US$ 263 milhões até 2026.