Itália investiga aposentado de 80 anos por participação em 'safári humano'
Suspeito teria viajado à Bósnia nos anos 1990 para atirar em civis
Um aposentado de 80 anos, ex-caminhoneiro e morador da província de Pordenone, no norte da Itália, tornou-se o primeiro investigado formalmente em um inquérito aberto no país sobre os chamados "safáris humanos" organizados durante o brutal cerco a Sarajevo, capital da atual Bósnia e Herzegovina, na década de 1990.
O homem é suspeito de ter integrado um grupo de supostos "atiradores turistas" formado por civis, muitos deles europeus, que pagavam para praticar tiros de sniper contra a população civil de Sarajevo.
O Ministério Público de Milão notificou o octogenário com uma intimação para interrogatório, marcado para 9 de fevereiro. A acusação é de homicídio voluntário continuado e qualificado por "motivos abjetos". O homem é suspeito de, em "concurso com outras pessoas ainda desconhecidas", ter assassinado "civis indefesos, incluindo mulheres, idosos e crianças", atirando com rifles de precisão a partir das colinas ao redor de Sarajevo entre 1992 e 1995.
O cerco à capital, realizado por forças sérvio-bósnias comandadas por Radovan Karadzic e Ratko Mladic, foi o mais longo da história moderna. Durante quase quatro anos, a população ficou à mercê de snipers e ataques de artilharia, com mais de 10 mil mortos, e agora a investigação italiana tenta iluminar uma das facetas mais perversas desse período: a participação de estrangeiros que viajavam ao conflito não como soldados, mas como turistas do horror.
O inquérito foi aberto a partir de uma denúncia do escritor Ezio Gavazzeni, que reuniu material sobre o caso a partir de informações passadas a ele por um ex-agente de inteligência bosníaco.
O escritor cita uma troca de e-mails em 2024, na qual o ex-agente secreto relatou ter ficado sabendo sobre os "safáris humanos" no fim de 1993, a partir do interrogatório de um sérvio capturado pelas forças da Bósnia.
Esse prisioneiro teria testemunhado que cinco estrangeiros, incluindo pelo menos três italianos, teriam viajado com ele de Belgrado até Sarajevo, cercada pelas forças sérvias, que tentavam evitar o desmantelamento da antiga Iugoslávia.
De acordo com depoimentos colhidos, o ex-caminhoneiro se gabava perante conhecidos de que viajava à ex-Iugoslávia para fazer "caça ao homem". Uma mulher teria escutado essas histórias e as relatou a uma jornalista de uma TV italiana, que as descreveu como "arrepiantes". Ambas foram ouvidas pela polícia.
Elementos da investigação indicam que o homem foi várias vezes para os Bálcãs durante a guerra e, em sua casa, foram encontradas sete armas legalizadas: duas pistolas, uma carabina e quatro rifles. O perfil traçado pelas autoridades é o de um simpatizante e nostálgico da extrema direita, com grande interesse por armamentos.
O Ministério Público de Milão trabalha ainda para identificar outros supostos atiradores, e as apurações caminham em direção a uma cooperação internacional, já que o caso também é investigado na Bósnia, enquanto autoridades de outros países, como Bélgica, França e Suíça, se movimentam para descobrir se cidadãos seus também participaram dos "safáris humanos".
O jornalista Domagoj Margetic, por sua vez, alega que o presidente da Sérvia, Aleksandar Vucic, então um jovem voluntário nas forças sérvio-bósnias, teria estado presente em um dos postos militares de onde cidadãos estrangeiros e milícias ultranacionalistas disparavam contra civis bosníacos em Sarajevo.
Vucic nega as acusações. "Eu jamais fui atirador e jamais tive nas mãos os fuzis dos quais se fala. Tenham vergonha", disse o mandatário em novembro passado.