França: partido da esquerda radical é apontado por opositores como responsável por morte de estudante em Lyon
O partido França Insubmissa (LFI), da esquerda radical, está na corda bamba, acusado pelo governo francês e opositores de ter alimentado a "violência política" que resultou na morte do estudante Quentin D., de 23 anos. O jovem, filiado a um coletivo da ultradireita, não resistiu aos ferimentos e morreu após confrontos entre grupos rivais na quinta-feira (12), durante um tumulto no Instituto de Estudos Políticos de Lyon.
"Foi a ultraesquerda quem o matou, isso é incontestável", afirmou neste domingo (15) o ministro francês do Interior, Gérald Darmanin em entrevista na TV. "Há discursos políticos — especialmente os da França Insubmissa e da ultraesquerda — que infelizmente resultam em uma violência muito descontrolada nas redes sociais e no mundo real", reiterou.
Segundo o Ministério Público de Lyon, Quentin D. foi gravemente ferido na noite de quinta‑feira, perto do Instituto de Estudos Políticos de Lyon, à margem de uma conferência da deputada europeia Rima Hassan, do partido França Insubmissa. O jovem era membro do serviço de segurança do coletivo ultranacionalista "Némésis" e teria sido espancado no confronto de grupos de extrema direita e da esquerda radical.
Quentin D. foi hospitalizado em estado grave, com o prognóstico vital comprometido, e morreu no sábado (14). Uma investigação foi aberta por homicídio agravado e violência agravada, informou o Ministério Público de Lyon. O advogado da família do jovem, Fabien Rajon, denunciou um "crime" e "uma emboscada metodicamente preparada".
Vários representantes da extrema direita francesa afirmam que entre os agressores de Quentin havia integrantes do grupo antifascista "Jeune Garde" — criado pelo deputado Raphaël Arnault, do LFI, e dissolvido pelo governo em 2025. No entanto, o Ministério Público de Lyon ainda não estabeleceu tal vínculo nesta etapa das investigações.
Macron acusa LFI de antissemitismo
A polêmica em torno da responsabilidade do LFI na morte do estudante aumentou com o envolvimento do presidente Emmanuel Macron no debate. O líder centrista denunciou o surgimento de "expressões antissemitas", dentro da legenda, que "devem ser combatidas".
"Eu acredito que não há muito mistério em dizer que eles [LFI] estão na extrema esquerda", delcarou Macron à Radio J, veículo da comunidade judaica francesa. "Constato que, nas posições que eles adotam — especialmente sobre o antissemitismo — eles contrariam princípios fundamentais da República", prosseguiu.
A França Insubmissa contesta a classificação "extrema esquerda", adotada recentemente pelo Ministério do Interior do país a poucas semanas das próximas eleições municipais. Em entrevista ao canal LCI, o coordenador do partido, Manuel Bompard, afirmou neste domingo que "não cabe ao presidente da República classificar seus opositores políticos".
Para ele, Macron "age como Donald Trump: quando não concordamos com ele, somos chamados de extremistas", disse. Bompard rejeitou as acusações e ressaltou que "nenhum militante da França Insubmissa jamais foi condenado por antissemitismo".
Instrumentalização da morte de Quentin
Várias personalidades políticas da extrema direita e da direita responsabilizaram o LFI pela morte de Quentin. Entre elas, Marine Le Pen, líder do partido Reunião Nacional, e o senador e ex-ministro Bruno Retailleau, presidente da legenda conservadora Os Republicanos.
"A França Insubmissa cria o terreno fértil para essa ultraviolência", afirmou o secretário‑geral dos Republicanos, Othman Nasrou, à emissora Franceinfo.
Até o momento, Rima Hassan não se pronunciou sobre a morte de Quentin D. Já o líder da LFI, Jean-Luc Mélenchon afirmou no X que as sedes e escritórios do partido foram atacados após as declarações de Le Pen e Retallieau, "que sustentaram e repetiram acusações totalmente infundadas".
Vários candidatos à eleição municipal em Lyon anunciaram neste domingo a suspensão temporária de suas campanhas, em respeito à morte do estudante. "Não me vejo fazendo campanha nessas condições. Peço a todos que tirem um tempo para compreender a gravidade do momento que estamos vivendo juntos", declarou à emissora France 3 o candidato Alexandre Dupalais, da coligação de extrema direita UDR‑Reunião Nacional.
O ex-presidente do clube Olympique Lyonnais, Jean‑Michel Aulas, candidato da direita e do centro, e a candidata da LFI, Anaïs Belouassa‑Cherifi, seguiram o mesmo caminho e também anunciaram a suspensão de suas campanhas neste domingo.
O atual prefeito ecologista, Grégory Doucet — candidato à reeleição — lamentou "uma tragédia" e destacou que "um tal surto de violência no coração da cidade é inaceitável". "A cidade de Lyon colocará todos os seus meios à disposição da Justiça para identificar os indivíduos envolvidos", acrescentou em um comunicado.
RFI com AFP