Como o Tesla Model S se tornou um dos carros mais importantes da indústria automobilística
Elon Musk anunciou que modelo deixará de ser fabricado. Lançado em 2012, Model S tornou-se um fenômeno comercial e cultural e redefiniu o conceito de carro de luxo
Treze anos atrás, Mike Ramsey, analista da indústria automotiva, fez um test-drive de um carro novo — o Tesla Model S. Ele soube quase imediatamente que aquele carro era diferente de tudo o que já tinha visto. No centro do painel havia algo que ele nunca tinha visto em um carro — uma tela sensível ao toque de 17 polegadas. Como o Model S era elétrico e tinha muito menos peças do que os automóveis convencionais, também era surpreendentemente espaçoso. Então Ramsey, analista da consultoria Gartner, pisou no acelerador.
"Eu já tinha dirigido carros de alto desempenho, mas fui jogado contra o banco por causa de todo aquele torque", disse ele em entrevista na quinta-feira, 29. "E havia essa dissonância cognitiva, porque o carro estava voando pela estrada e, ainda assim, era quase silencioso", acrescentou. "Fiquei impressionado."
Na quarta-feira, o CEO da Tesla, Elon Musk, anunciou que a empresa deixará de fabricar o Model S e o Tesla Model X, um veículo mais espaçoso lançado três anos depois do S, e usará o espaço de uma fábrica na Califórnia para produção de robôs. A decisão veio após vários anos de vendas fracas desses dois modelos. Hoje, quase todos os carros vendidos pela Tesla são o Tesla Model Y ou o Tesla Model 3, menores e mais acessíveis.
Apesar das vendas recentes mais fracas, executivos e analistas consideram amplamente o Model S um dos carros mais importantes produzidos pela indústria em seus 125 anos de história. Ele foi o equivalente moderno do Ford Model T. Ambos mudaram conceitos tradicionais sobre o que é um carro, como ele pode ser feito e quanto pode custar.
Já existiam veículos elétricos antes do Model S, mas eram produtos de nicho vendidos em quantidades muito pequenas. A maioria foi projetada para reduzir emissões e cumprir regulamentações, atraindo apenas um pequeno grupo de motoristas ambientalmente conscientes. Em uma palavra: eram entediantes.
Mais barato que Audi, BMW e Lexus, primeiro a ser configurado por um software
A Tesla projetou o Model S para ser elegante e empolgante. Seu motor elétrico proporcionava uma aceleração antes disponível apenas em carros esportivos especializados — daí a sensação que Ramsey teve. O Model S não era barato quando foi lançado por US$ 57.400 em 2012, mas custava bem menos que os esportivos que conseguia superar. Hoje, parte de US$ 95.000.
O Model S virou um fenômeno comercial e cultural, redefinindo o que era um carro de luxo e abalando um segmento dominado por marcas como Audi, BMW, Mercedes-Benz e Lexus por mais de duas décadas.
Mas seu impacto foi além das vendas. Era um carro configurado por software — um computador central controlava todos os componentes. Hoje, praticamente todas as montadoras tentam colocar o software no centro dos veículos.
Muitos carros já se conectam à internet, mas a Tesla foi a primeira a enviar atualizações de software sem fio. Como um smartphone, o Model S podia ganhar novos recursos da noite para o dia. As atualizações melhoravam os freios ou aumentavam a autonomia.
Dois anos após o lançamento, passou a oferecer o Autopilot, um sistema de assistência ao motorista que mantinha o carro na faixa, acelerava e freava sozinho. Essas inovações forçaram outras montadoras a reagir, acelerando a corrida por carros autônomos.
"O Model S foi um divisor de águas e trouxe várias tecnologias que as pessoas nunca tinham visto", disse Sam Abuelsamid, da Telemetry.
Autonomia de 320 km, contra 130 km do Nissan Leaf
Claro, a indústria já havia sido transformada antes. O Ford Model T, lançado em 1908, tornou o automóvel acessível para muita gente, ajudando a transformá-lo em parte essencial da vida americana. Mas sua revolução foi mais no modo de fabricação — com linha de montagem móvel — do que nas capacidades do carro.
Outros modelos também foram influentes: o Benz Patent-Motorwagen, primeiro carro da história; o Ford Mustang, que popularizou esportivos acessíveis; o Volkswagen Beetle, que abriu espaço para importados como Toyota e Honda no mercado americano; a Dodge Caravan, que criou o segmento de minivans; o Ford Explorer, que popularizou SUVs familiares; e o Toyota Prius, pioneiro nos híbridos.
Ainda assim, o Model S teve um impacto profundo e único. Antes dele, o elétrico mais vendido nos EUA era o Nissan Leaf, com cerca de 130 km de autonomia. O Model S chegava a 320 km — e versões mais caras, a quase 480 km.
Em 2022, Tesla se tornou a marca de luxo mais vendida nos Estados Unidos
A arquitetura de software também ampliou o que um carro podia ser. A Tesla adicionou videogames. O carro gravava vídeos automaticamente em caso de acidentes.
O sucesso levou ao Model X, depois ao Model 3 e ao Model Y. Em 2022, a Tesla ultrapassou BMW, Mercedes e Lexus para se tornar a marca de luxo mais vendida nos Estados Unidos.
O Model S transformou a Tesla, que antes produzia apenas o esportivo Tesla Roadster, em uma montadora séria. Se tivesse fracassado, talvez a empresa não tivesse sobrevivido. Os elétricos poderiam ter demorado muito mais para se popularizar. A Tesla provavelmente não seria a montadora mais valiosa do mundo, e Musk talvez não tivesse se tornado o homem mais rico do planeta.
Seu sucesso também forçou concorrentes a investir centenas de bilhões de dólares em modelos elétricos e contratar programadores para desenvolver carros definidos por software — algo em que ainda não alcançaram a Tesla.
Em certo momento, a ascensão da Tesla parecia tão rápida que alguns executivos previram o fim breve dos motores a combustão. Em 2021, a General Motors disse que pretendia eliminá-los até 2035.
Hoje isso parece menos provável, com o fim de incentivos federais e decisões da Ford Motor Company e outras montadoras de ampliar veículos a gasolina. Ainda assim, analistas acreditam que a transição para elétricos continuará — apenas mais devagar.
"Dá para argumentar que o Model S foi até mais influente que o Model T", concluiu Ramsey.
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