Novo tarifaço começa a valer nesta quarta; entenda como surgiu, seu impacto e o contexto político
Tarifa de 25% ainda pode ser somada a uma outra, de 12,5%, destinada a países acusados de não atuarem contra trabalho forçado
Passada uma semana do anúncio de que o Brasil seria taxado novamente pelos Estados Unidos, o governo de Donald Trump não recuou. A nova tarifa de 25% sobre produtos exportados brasileiros começa a valer nesta quarta-feira, 22, e deverá gerar um impacto de US$ 7,4 bilhões, segundo estimativa do governo federal.
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A sobretaxa passa a assustar ainda mais quando considerado que ela poderá ser somada a uma outra, de 12,5%, prometida por Trump a 60 países acusados de não atuarem contra o trabalho forçado. Apesar do impacto, a expectativa é de que a situação não seja resolvida rapidamente, tendo em vista o cenário eleitoral em que o Brasil deverá submergir nos próximos meses.
O Terra preparou um guia para destrinchar este novo tarifaço, com a explicação de como ele surgiu, o contexto político em que está inserido e o impacto sobre os setores. Confira:
- Por que Trump resolveu taxar o Brasil novamente?
- Quais setores serão mais impactados pelo novo tarifaço?
- Impacto final para brasileiros deve ser limitado
Por que Trump resolveu taxar o Brasil novamente?
A tarifa adicional de 25% foi proposta no último dia 1º de junho, após o Escritório Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) concluir uma investigação sobre práticas comerciais do Brasil, ordenada pelo presidente Donald Trump.
No relatório, a medida afirma se basear na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 dos EUA, que pode ser usada para "responder a práticas injustificáveis, desarrazoadas ou discriminatórias de governos estrangeiros que oneram ou restringem o comércio dos EUA".
O USTR acusou o Brasil de adotar práticas ilegais em comércio digital, serviços de pagamento eletrônico -- como o Pix --, tarifas preferenciais, proteção de propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e questões ambientais, como o desmatamento ilegal.
Para o governo brasileiro e especialistas ouvidos pelo Terra, porém, a justificativa dada pelos EUA encobriria uma questão política. Flávia Loss, professora de Relações Internacionais do Instituto Mauá de Tecnologia, considera que Trump conseguiu dar um "verniz" comercial ao tarifaço ao utilizar a Seção 301.
“Não dá para a gente ver elementos reais a não ser políticos por trás dessa medida. De fato, continua sendo um ataque direto ao Lula na medida em que tem eleições em vista”, afirma.
Internamente, o governo sente que Trump não está mais disposto a negociar as tarifas até as eleições, porque qualquer concessão feita poderia ser vista como uma vitória para Lula. Da mesma forma, qualquer medida tomada que venha a gerar retaliações dos EUA pode servir como palanque ao senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência. Tanto Lula quanto Flávio têm colocado o novo tarifaço na conta um do outro.
Quais setores serão mais impactados pelo novo tarifaço?
Segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, o novo tarifaço deverá atingir cerca de 18% das exportações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano - o equivalente a US$ 7,4 bilhões, considerando os embarques registrados em 2024.
Entre os setores mais afetados pela medida, ele citou os de madeira, máquinas e equipamentos elétricos, móveis, produtos cerâmicos, calçados e açúcar.
A estimativa é de que 3.000 produtos brasileiros sejam atingidos pela tarifa de 25%, segundo análise da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), considerando que os EUA divulgaram uma lista de outros 2.126 produtos que estão isentos da medida.
"A lista de exceções reduz o impacto sobre segmentos relevantes da pauta exportadora brasileira e preserva parte importante da capacidade de geração de divisas do país. Os setores mais expostos continuam sendo aqueles com elevada dependência do mercado americano e menor flexibilidade para redirecionar suas exportações, como siderurgia, açúcar, madeira, máquinas e equipamentos, etanol, ferro-gusa e tabaco", avalia Valdir Piran Jr., CEO da Intra Asset.
Para o analista, a taxação pode fazer com que empresas desses setores precisem reduzir margens e competitividade, exigir renegociação de contratos e procurar a abertura de novos mercados. Em caso de perda de mercado, uma consequência futura pode ser o aumento do desemprego nessas áreas.
Algumas entidades divulgaram dados de quanto cada setor deve perder com a taxação:
- A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) estima que 36,5% das exportações do agronegócio brasileiro estarão sujeitas ao tarifaço;
- A Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) estima que 58% do que é produzido pelo setor estarão sujeitos à tarifa, com impacto de US$ 66 milhões;
- A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que a taxa vai atingir 26,5% das exportações brasileiras aos EUA.
Ministros do governo Lula têm se reunido com representantes dos setores mais afetados para discutir medidas que possam ser tomadas. Enquanto empresários defendem o uso da Lei da Reciprocidade, a gestão federal prega cautela para que não seja tomada uma medida que possa ser vista como negativa em ano eleitoral.
Impacto final para brasileiros deve ser limitado
Para o cidadão comum brasileiro, o impacto do tarifaço deve ser limitado, segundo analistas ouvidos pelo Terra. Para Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, os danos maiores devem ocorrer nas empresas exportadoras. Com quedas em exportações, esses setores podem sofrer com perda de mercado e uma consequente diminuição de empregos.
Porém, para o consumidor final, não há a expectativa de aumento de preços -- pelo contrário. "A experiência do ano passado sugere o oposto. Quando os produtores brasileiros perderam espaço para exportar aos EUA, muitos passaram a vender mais no mercado interno, o que ajudou a segurar preços por aqui", afirma Kayo.
O cenário pode se reverter caso haja um aumento maior do que o esperado no valor do dólar, que geraria uma inflação em itens que dependem de insumos importados. Até o momento, porém, a moeda apresentou variações modestas após o anúncio da taxação.
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