De 'química excelente' e 'cara muito vigoroso' à taxação: como surgiu nova ruptura entre Lula e Trump?
Troca de afagos entre os dois chefes do Executivo não protegeram o Brasil de ser novamente alvo da política tarifária do republicano
Passado o primeiro tarifaço, ocorrido no ano passado, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT), do Brasil, e Donald Trump, dos Estados Unidos, pareciam estar em vias de reconciliação. Foram elogios para lá, elogios para cá, que, paradoxalmente, acabaram terminando em uma nova taxação --agora de 25% e com uma extensa lista de isenções.
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Em setembro de 2025, quando os produtos brasileiros ainda estavam sob a tarifa de 50% imposta pelo republicano, Lula e Trump se encontraram pela primeira vez, na Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. Na ocasião, o republicano disse que eles tiveram "uma química excelente", o que foi confirmado depois pelo petista.
Depois, cada encontro entre os dois era seguido de elogios curtos um ao outro. Em outubro daquele mesmo ano, Trump enviou uma mensagem de feliz aniversário a Lula e o chamou de "cara muito vigoroso".
Mas os afagos não se expandiram muito para a política em si – aliás, mesmo após encontros amigáveis com Trump, Lula manteve o tom crítico ao presidente norte-americano durante seus discursos em eventos no Brasil. Para Flávia Loss, professora de Relações Internacionais do Instituto Mauá de Tecnologia, o novo tarifaço continua sendo "um ataque direto a Lula" mesmo não tão explícito quanto o primeiro e com questões políticas por trás.
No ano passado, Trump chegou a publicar uma carta justificando o tarifaço em que mencionava especificamente o processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no Supremo Tribunal Federal (STF). Naquela ocasião, Flávia aponta que houve uma quebra na ponte de diálogo entre o governo brasileiro e o norte-americano.
"A gente teve um momento, em que os dois chefes de Executivo não tinham um canal de comunicação. Então, foi muito grave o que aconteceu e inédito na história brasileira, e até através do Itamaraty, mesmo entre diplomatas, a situação ficou muito difícil. Aí, depois consegue-se reverter essa situação, a situação melhora", avalia.
Justamente pelos canais diplomáticos permanecerem abertos, a também professora de Relações Internacionais, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Fernanda Nanci Gonçalves, considera que, dessa vez, não houve exatamente uma "ruptura" entre Brasil e Estados Unidos, mas há uma "nova tensão".
Feranda diz que mesmo com a reaproximação de Trump e Lula em eventos globais, a possibilidade de sobretaxas contra o Brasil nunca deixou de existir.
"Porque existe um setor dentro do governo americano que apoia o tarifaço e porque isso faz parte da própria estratégia de política comercial de Trump. O que existiu com a aproximação foi a expectativa de que a partir dali as relações podiam melhorar, mas na sequência já estava ocorrendo a investigação", afirma.
Para ambas as especialistas, o País fez tudo o que estava ao seu alcance em termos diplomáticos para negociar. "No entanto, a disputa ultrapassou o campo comercial tradicional e passou a envolver divergências políticas e ideológicas mais amplas. Nesses casos, mesmo uma atuação diplomática intensa nem sempre é suficiente para evitar a adoção de medidas tarifárias", afirma Fernanda.
"O governo brasileiro chegou a mencionar que o governo americano não apresentou uma lista de demandas que poderia ajudar nas negociações. Isso tudo dificultava as tratativas e mantinha a possibilidade de sobretaxas pelos EUA, que parecem irredutíveis", complementa.
Para Flávia Loss, Trump conseguiu dar um verniz comercial ao tarifaço, que continuaria tendo viés político. Ela explica que a Seção 301 usada pelos EUA como justificativa para tarifar o Brasil foi criada em 1974 com um objetivo protecionista, mas que não vinha sendo utilizada com frequência desde a criação da Organização Mundial do Comércio (OMC), em 1995.
“Foi utilizada poucas vezes, em 2009, 2013, mas para casos muito pontuais, porque essas discussões sempre foram para o âmbito multilateral. Agora, Donald Trump faz um retrocesso em tudo isso."
“Não dá para a gente ver elementos reais a não ser políticos por trás dessa medida. De fato, continua sendo um ataque direto ao Lula na medida em que tem eleições em vista”, complementa, se referindo ao pleito deste ano. O tarifaço seria uma forma de Trump manter certa influência na América Latina ao tentar interferir na imagem do atual candidato à reeleição no Brasil.
Até o momento, porém, o tarifaço parece ter provocado efeito contrário entre os brasileiros. Segundo pesquisa Quaest divulgada na quinta-feira, 16, 49% dos brasileiros concordam com a narrativa de Lula de que a taxação seria uma retaliação ao Pix, enquanto outros 33% concordam com seu oponente, Flávio Bolsonaro (PL), de que são reações às declarações do petista contra os EUA.
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