Super-ricos abocanham fatia recorde da renda sob Lula apesar de agenda voltada aos mais pobres
Apesar da melhora no emprego e de programas sociais sob Lula, o 0,1% mais rico atingiu recorde de 13,1% da renda nacional em 2024. Dados do Imposto de Renda mostram que a alta dos gastos públicos e o avanço da dívida forçaram a manutenção da taxa Selic em níveis elevados. Com títulos públicos indexados aos juros, os rendimentos de aplicações financeiras dispararam, concentrando a renda no topo da pirâmide e contrastando com a queda da desigualdade tradicionalmente medida pelo índice de Gini.
Os brasileiros mais ricos passaram a concentrar uma fatia recorde da renda nacional sob o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo dados extraídos de declarações de Imposto de Renda, oferecendo um contraponto marcante ao esforço do líder de esquerda em convencer os eleitores de que os ganhos econômicos foram amplamente distribuídos durante sua administração, enquanto busca a reeleição em outubro.
Lula tem apontado a queda da desigualdade, medida por um coeficiente de Gini que atingiu o menor nível da série histórica em 2024, e a alta do emprego como evidências de que sua administração prioriza os brasileiros mais pobres.
Os dados tributários, porém, pintam um quadro mais complexo: juros elevados, em parte consequência do aumento dos gastos públicos, alimentaram um boom da renda financeira que beneficiou de forma desproporcional os mais ricos, mesmo enquanto um mercado de trabalho mais forte, ganhos salariais reais e programas sociais robustecidos melhoraram as condições na base da distribuição de renda.
"Se os benefícios concedidos pelo governo, por um lado, forem de fato bem direcionados, eles podem ter um efeito social positivo", disse Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Mundial. "Mas, por outro lado, a aritmética do endividamento não tem como ser contornada: ela joga na outra direção."
Segundo Canuto, a política monetária no Brasil teve de lidar com uma política fiscal "ultraexpansionista", e as preocupações com o aumento da dívida pública elevaram o prêmio exigido pelos investidores para deter títulos brasileiros.
Como resultado, custos mais altos de financiamento do governo geram pagamentos maiores de juros, beneficiando de forma desproporcional famílias de renda elevada, que detêm mais ativos financeiros.
Estimativas do pesquisador de desigualdade Sergio Gobetti com base na abertura de dados de IR pela Receita Federal mostram que o 0,1% dos brasileiros mais ricos elevaram sua participação na renda nacional para um recorde de 13,1% em 2024, ante 10,2% em 2020.
Nesse período, o Banco Central elevou a taxa Selic de uma mínima histórica de 2% para 12,25% para conter a inflação pós-pandemia e desacelerar a atividade econômica em meio aos estímulos fiscais do governo.
Como metade da dívida pública brasileira está atrelada à taxa Selic por meio das chamadas Letras Financeiras do Tesouro Nacional (LFTs), custos mais altos de financiamento rapidamente se traduzem em maiores retornos para investidores, criando um paradoxo no qual os esforços para reduzir a inflação também ajudam os brasileiros mais ricos a ampliar sua fatia da renda nacional.
"Quanto mais eu subo os juros, mais renda o detentor da LFT tem", disse o presidente do BC, Gabriel Galípolo, ao Senado em maio.
O fenômeno antecede Lula, tendo ocorrido também durante o governo de seu rival, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Mas ele ganhou força à medida que a dívida pública acelerou e o Brasil passou a depender mais de títulos pós-fixados para se financiar diante de persistentes preocupações fiscais e um ambiente global mais desafiador.
Desde que Lula assumiu o cargo, a dívida bruta do governo geral aumentou mais de 10 pontos percentuais do PIB, para 82,5%, enquanto o Tesouro projeta que a participação das LFTs na dívida poderá avançar quase 15 pontos percentuais, para um recorde de até 53% neste ano.
Como resultado, juros altos hoje incidem sobre um estoque maior de dívida e sobre uma parcela também mais gorda de papéis indexados diretamente à Selic.
O Palácio do Planalto não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.
O PAPEL DOS GANHOS FINANCEIROS
A análise dos dados tributários oferece mais nuances sobre a distribuição de renda do que o coeficiente de Gini, medida de desigualdade mais amplamente conhecida, ao mostrar como uma parcela crescente dos ganhos econômicos do país está sendo direcionada para um pequeno grupo de super-ricos.
Isso, dizem economistas, limita a capacidade do crescimento econômico de ampliar oportunidades para toda a sociedade.
Marcelo Medeiros, professor de economia da Universidade de Illinois Urbana-Champaign, afirmou que as pesquisas domiciliares usadas para calcular o Gini costumam captar bem a renda do trabalho, mas frequentemente subestimam os ganhos financeiros, mais comuns entre indivíduos de alta renda e registrados de forma mais abrangente em suas declarações de IR.
"O Gini reflete apenas uma parte da sociedade, a parte que não é muito rica", disse Medeiros. "A desigualdade brasileira é determinada principalmente pela desigualdade que existe entre os ricos e entre os ricos e todo o restante da população."
Estimativas baseadas nas declarações de IR compiladas por Gobetti mostram que a renda financeira, advinda principalmente de retornos de investimentos em renda fixa, respondeu por quase um terço do aumento da participação dos 0,1% mais ricos na renda nacional entre 2020 e 2024.
Uma análise da Reuters acerca de dados da Receita Federal sobre o volume de IR retido na fonte também constatou que a arrecadação sobre rendimentos de fundos de investimento e outros ativos de renda fixa disparou 325% entre 2020 e 2024, alcançando R$92,1 bilhões.
O salto superou com folga o avanço da arrecadação sobre rendimentos do trabalho e outras categorias relevantes de tributação da renda também retidas na fonte,
A Receita Federal reconheceu que a explosão na arrecadação com renda fixa ocorreu "principalmente em razão da elevação da taxa Selic".
O Ministério da Fazenda afirmou que juros mais elevados provavelmente contribuíram para esse aumento, mas ponderou que a arrecadação também reflete decisões de alocação de carteira dos investidores e que os dados tributários, por si, não estabelecem uma relação causal definitiva.
A pasta acrescentou que vem adotando desde 2023 medidas voltadas à redução da desigualdade por meio de maior justiça tributária. O Banco Central não comentou o assunto.
SEM SINAIS DE DESACELERAÇÃO
Embora ainda não estejam disponíveis dados detalhados das declarações de IR de 2025 que permitam estimar a concentração de renda, o boom da renda fixa não mostra sinais de arrefecimento.
A arrecadação sobre rendimentos de fundos de investimento e outras aplicações de renda fixa avançou mais 25% em relação a 2024, novamente superando o crescimento da arrecadação sobre rendimentos do trabalho e sobre juros sobre capital próprio (JCP).
Embora o Banco Central tenha iniciado um ciclo de afrouxamento monetário em março, a autarquia tem destacado que a taxa básica de juros precisa permanecer em nível restritivo para levar a inflação anual, atualmente em 4,2%, de volta à meta de 3%.
Analistas veem menos espaço para cortes do que no início do ano, citando um ambiente externo mais adverso e medidas do governo de estímulo ao consumo que podem dificultar o processo de desinflação.
Pesquisa semanal do BC mostra que economistas esperam que a Selic, hoje em 14%, recue apenas para 12% ao fim do próximo ano, indicando que o impulso dado pelos juros aos rendimentos financeiros dos mais ricos não deve desaparecer tão cedo.
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