Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York
Essa será a primeira visita oficial de um presidente americano à China em quase uma década e deve colocar frente a frente Trump e o líder chinês Xi Jinping, em meio ao agravamento das disputas comerciais, tecnológicas e geopolíticas entre Washington e Pequim.
"A China saúda a visita de Estado do presidente Trump", declarou, nesta manhã, o porta‑voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun. Segundo ele, o país está disposto a trabalhar com os Estados Unidos para "ampliar a cooperação e administrar as divergências, trazendo assim mais estabilidade e previsibilidade a um mundo marcado por mudanças e turbulências", disse, durante uma coletiva de imprensa.
Segundo a Casa Branca, o primeiro compromisso oficial com Xi Jinping acontecerá na quinta-feira (14), quando os dois líderes participarão de uma cerimônia de recepção, seguida de uma reunião bilateral e de um banquete de Estado.
A programação prevê ainda uma visita de Trump ao Templo do Céu, complexo cerimonial construído no século XV e símbolo do poder imperial. Na sexta-feira (15), os presidentes voltam a se reunir para um chá e almoço de trabalho, antes de Trump retornar aos Estados Unidos.
Irã, Taiwan, tarifas e minerais críticos
Antes de embarcar em direção a Pequim, Trump afirmou a jornalistas que espera conversas longas com Xi e indicou que a guerra no Irã será um dos principais temas da viagem. "Vamos conversar bastante sobre isso. Acho que ele foi relativamente bom, para ser honesto", afirmou o presidente americano ao comentar o posicionamento chinês diante do conflito no Oriente Médio.
Washington acusa empresas chinesas de apoiarem o programa militar iraniano. Na semana passada, os Estados Unidos anunciaram sanções contra nove organizações e indivíduos sediados na China continental e em Hong Kong, acusados de colaborar com Teerã. Em resposta, Pequim voltou a criticar as sanções americanas e afirmou que protegerá seus interesses.
Trump, no entanto, está otimista e disse acreditar que a viagem poderá produzir "coisas boas" e classificando-a como "muito empolgante".
Paz e desenvolvimento global
Do lado chinês, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Guo Jiakun, afirmou que Xi terá "trocas aprofundadas de opiniões" com Trump sobre as relações entre a China e os Estados Unidos, além de temas ligados à paz e ao desenvolvimento global.
Além da guerra contra o Irã, os dois líderes devem discutir tarifas comerciais, inteligência artificial, minerais críticos, armamentos nucleares e a situação de Taiwan, ilha governada de forma autônoma e reivindicada por Pequim como parte do território chinês.
Dias antes da visita, a China voltou a elevar o tom sobre Taiwan. O porta-voz da diplomacia chinesa, Lin Jian, afirmou que a questão taiwanesa está "no centro dos interesses fundamentais da China". Segundo ele, os Estados Unidos precisam respeitar o princípio de "uma só China" para manter relações estáveis com Pequim.
A declaração foi interpretada por analistas como um raro endurecimento público da posição chinesa às vésperas de uma reunião bilateral de alto nível. Pequim vem aumentando a pressão militar sobre Taiwan nos últimos meses, com exercícios navais e envio frequente de aviões militares próximos à ilha.
Executivos de BigTechs fazem parte da comitiva americana
A viagem também chama atenção pela composição da delegação americana. O líder republicano embarcou acompanhado pelo secretário de Estado, Marco Rubio, pelo secretário de Defesa, Pete Hegseth, além do filho Eric Trump, e sua esposa, Lara.
Além deles, um grupo de empresários e executivos do setor de tecnologia que acompanha o presidente. Segundo a imprensa americana, 16 líderes empresariais participam da viagem, entre eles Elon Musk, CEO da Tesla, e Tim Cook, CEO da Apple.
A presença do grupo é vista como uma tentativa da Casa Branca de demonstrar força econômica e estreitar canais com Pequim em meio às disputas sobre inteligência artificial, semicondutores e minerais raros.
Outra personalidade intrigante a bordo do avião presidencial Air Force One é o diretor de cinema Brett Ratner, conhecido pela franquia "A Hora do Rush". Segundo assessores, o cineasta americano deve aproveitar a viagem para discutir a produção de um possível quarto filme da série, que conta com o ator hongconguês Jackie Chan no elenco, e poderá ter parte das gravações realizadas na China.
Trump e Xi Jinping se encontraram pessoalmente pela última vez em outubro de 2025, durante a cúpula da Cooperação Econômica Ásia‑Pacífico (APEC) em Busan, na Coreia do Sul. Desde então, as tensões comerciais e tecnológicas entre Washington e Pequim voltaram a se intensificar.