As cenas de tumulto e caos que marcaram o pré-carnaval de São Paulo na tarde deste sábado, 8, durante o bloco da Skol com o DJ Calvin Harris são reflexo de um processo de falta de compreensão cultural da festa por parte da Prefeitura de São Paulo e do protagonismo cada vez maior de grandes marcas e empresas no evento. A avaliação é do professor da Universidade Federal da Bahia e autor do livro Direito à Folia, Guilherme Varella.
Para o professor, a Prefeitura falhou e sua responsabilidade é evidente. "Quem tinha a necessidade de falar que dois blocos desse tamanho não poderiam sair ao mesmo tempo era a Prefeitura", diz. "Se a prefeitura cedeu para acomodar um bloco de patrocinador é só mais uma prova desse processo."
Varella explica que o carnaval de São Paulo passou por muitas mudanças desde o início da década passada, quando a gestão de Fernando Haddad (PT) passou a estimular políticas públicas para a festa.
O especialista diz que, dali em diante, o carnaval de rua de São Paulo, que era sufocado pelo poder público, passou a contar com medidas centradas na secretaria de Cultura para organizar e fomentar a festa.
Segundo Varella, no entanto, a partir da gestão João Doria (PSDB), organização passou para as subprefeituras, em uma lógica não mais cultural, mas de segurança urbana e zeladoria.
Isso, para o especialista, prejudicou o caráter popular da festa. " A política pública para o carnaval trabalha num ponto ótimo entre regulação e a permissão. Mas é muito difícil de encontrar esse equilíbrio", diz. " A prefeitura usa o carnaval como plataforma para mostrar serviço na segurança pública e para dar atenção aos grandes patrocinadores."
Esses blocos grandes, como o bloco Skol, no entanto, são apenas 10% do total dos blocos da cidade, segundo o especialista.
Ainda de acordo com Varella, o sistema de inscrição dos blocos na cidade prevê que cada bloco escolha a data e o local que vai sair. Quando há conflito de interesses, uma negociação acontece.
"Quando são blocos menores, que estão ali pela folia, a conversa é mais tranquila", diz. "O planejamento da prefeitura falhou porque é possível que os blocos conversem e negociem pra acomodar os interesses. Era possível evitar uma coisa como essa."