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Valéria Barcellos é uma personalidade de destaque na comunidade artística  Foto: Terra

'É complicado as pessoas entenderem que uma pessoa trans pode ter câncer', diz atriz Valéria Barcellos

Multiartista de 45 anos conquistou espaço no mainstream por sua dedicação à dramaturgia

Imagem: Terra
  • Redação Terra Redação Terra
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5 fev 2026 - 04h58
Multiartista Valéria Barcellos posa para ensaio fotográfico
Multiartista Valéria Barcellos posa para ensaio fotográfico
Foto: Reprodução | Instagram

A multiartista Valéria Barcellos, de 45 anos, é uma referência dentro do movimento trans brasileiro. Com anos dedicados à carreira, ela acaba de encabeçar um novo desafio: interpretar a audaciosa Geni na Ópera do Malandro, espetáculo dirigido por Jorge Farjalla e que está em curta temporada no Teatro Renault, em São Paulo (SP), desde o mês passado.

  • Essa reportagem faz parte da série Nós Somos Potência, em que pessoas trans de destaque em diversos setores da sociedade contam suas histórias, vivências, dificuldades e conquistas 

Antes de alcançar um local de tanto destaque na arte, onde divide cena com nomes consagrados, como José Loreto e Totia Meireles, Valéria fez de tudo um pouco: estudou teatro, trabalhou como DJ, escritora e performer; foi pioneira do movimento MPBTRANS, fez novela na Globo (Terra e Paixão), criou o Transradioativa e chegou a receber o troféu de “Mulher Cidadã”, no Rio Grande do Sul, por usar seu corpo como palco de resistência.

A doença e o processo de cura

Um dos principais projetos de Valéria durante sua carreira é o Transradioativa, um livro de 2020 no qual ela resolveu fazer do diagnóstico e do tratamento de um câncer raro, chamado Sarcoma de Kapos, um processo de cura. Para ela, é algo que leva com orgulho, quase um portfólio de quem foi, pelo que passou e até onde conseguiu chegar. “O Transradioativa… ele veio num momento em que eu tava passando pelo câncer mesmo, lá em 2020, né? Por isso que ele chama Transradioativa, porque eu falei que ia ser uma trans, que eu queria brilhar no escuro [por ser radioativa]", comentou ela, em tom humorado.

"Era pandemia, câncer, esse livro veio na tentativa de vazar tudo aquilo que eu não tava entendendo, que eu tava sentindo nessa época, porque ainda é complicado pras pessoas entenderem, inclusive esse lugar, sabe? De que uma pessoa trans pode ter câncer” -- Valéria Barcellos em entrevista ao Terra

De acordo com Valéria Barcellos, a sociedade vê as mulheres trans em muitos lugares na modernidade, mas, por causa da marginalidade da classe, vê-las no local de enfermas ainda é algo raro. “Por exemplo, imaginam que a gente vai morrer de qualquer coisa, de morte matada, de não sei o quê, de não sei o quê lá, mas a gente não pode ser a pessoa que precisa do serviço público para uma coisa como todo mundo precisa. A cada sessão de quimioterapia, eu ia lá e anotava o que acontecia, como era a sala, o que eu tava sentindo naquele momento. Tenho certeza de que fez parte da minha cura.”

O afeto na transgeneridade

O projeto, de acordo com a artista, também foi um espaço para falar sobre afeto na transgeneridade. Na época, quem cuidou dela foi seu quinto ex-marido, com quem, apesar de não continuar, ela nutre carinho. Como qualquer um, ela relembra que ao longo da vida, entre uma paixão e outra, teve algumas desiluções.

“Eu fico pensando sempre nas relações de afeto, como são diferentes pra nós, pessoas trans, que é toda uma objetificação, né? Por que é tão difícil pra você dizer pra mim: ‘Não, eu te desejo’? Sempre tem que se dizer: ‘Não, eu tenho uma curiosidade de ficar com uma pessoa’. Curiosidade do quê, gente?” -- Valéria Barcellos

Atualmente, mais madura do que nunca, ela não se permite doar-se por migalhas. Pelo contrário, trabalha muito com a “lei da reciprocidade”. “A gente tem aprendido, na verdade, a sublimar esse campo desse afeto com os nossos pares. Então, acho que a gente acaba se aproximando de quem se aproxima”, refletiu ela.

Racismo e transfobia

Valéria Barcellos durante novela da Globo
Valéria Barcellos durante novela da Globo
Foto: Globo/Leo Rosário

O preconceito é algo que persegue Valéria Barcellos há tempos, não é algo novo para a multiartista. Em novembro de 2025, por exemplo, ela, que interpretou Luana Shine em Terra e Paixão (Globo), usou as redes sociais para contar aos seguidores que foi vítima de abuso sexual dentro do metrô de São Paulo.

De acordo com o relato da época, o ataque ocorreu durante o trajeto pela estação Praça da Sé, no centro da capital. Em vídeo, Valéria relatou que o vagão estava lotado quando começou a sentir algo estranho atrás de si. “Primeiro achei que fosse da minha cabeça, mas aí ficou bem óbvio”, comentou ela, à época.

Representatividade

Para ela, é importante que as pessoas saibam que esses locais, como o que ocupa hoje, não caíram do céu. Pelo contrário, foram cavados com “unhas e dentes”.

Valéria Barcellos conquistou espaço no mainstream por sua dedicação à dramaturgia
Valéria Barcellos conquistou espaço no mainstream por sua dedicação à dramaturgia
Foto: Terra

“Eu acho que, primeiramente, a gente tem que pensar por que eu cheguei nesse lugar [de destaque na cena artística]. E parece muito bonito, né? Eu estou fazendo a Geni na Ópera do Malandro. Divido o papel com Marina Matei, que também faz a Geni. Parece muito poético, eu diria”, disse em entrevista ao Terra.

De acordo com Valéria Barcellos, ela sempre teve que “ralar” bastante para conseguir bons trabalhos e locais de exposição, locais que nem sempre são ocupados por pessoas transgênero. Para exemplificar, ela relembrou uma história em que foi convidada para atuar como curadora sem nem mesmo ter experiência. Na época, ela teve que estudar e entender do ofício em tempo recorde.

“Colocaram uma menina para fazer uma curadoria de artistas trans no meio da visibilidade trans. E aí ia ser o povo da cena contemporânea, museu, chiquérrimo. Mas a menina não era uma pessoa trans, mas era uma pessoa muito conhecida no meio da performance etc. E aí caiu uma luz na cabeça dela e ela tomou uma consciência: ‘Não, eu não sou essa pessoa para fazer isso. Tem que ser uma pessoa trans’", disse.

Em seguida, ela continuou. "Ela me procurou e perguntou: ‘Tu já fez curadoria?’. Eu respondi: ‘Sim’. Depois que eu desliguei o telefone, eu fui correr para procurar o que era e como fazia, porque eu vi que não podia perder essa oportunidade naquele momento. Então, eu transito por todos esses lugares, na verdade, por não me ver nesses lugares. E muitas dessas oportunidades que parecem que caíram do céu, como a chuva, não foram assim. Elas foram galgadas, na verdade, nessa tentativa de me enxergar lá”.

Para ela, é gratificante ser vista como referência e resistência, mas gostaria que pautas tão pertinentes como estas também fossem trabalhadas por pessoas de fora da comunidade. “Eu também não gosto de ficar só no campo dos meus assim, porque foi a branquitude que inventou o racismo, não foi a gente. Então, eles precisam ouvir o que a gente tem a falar, e a gente já falou bastante", comentou ela.

"São essas pessoas que têm que ouvir. Não são pessoas trans que têm que saber sobre transfobia, são outras pessoas, são pessoas cisgêneras que precisam saber. Então, é bom a gente estar com nossos pares para se fortalecer, para se letrar, pra se acarinhar, para se amar, mas é importante que a gente também veja todo esse conhecimento que a gente já dividiu e vem dividindo colocado em prática”.

Fonte: Portal Terra
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