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Divulgação de lipo LAD com permutas no Instagram é prejudicial

Promoção do procedimento estético por influenciadoras digitais é arriscado, principalmente, para autoestima de adolescentes

17 dez 2020
10h10
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Dados da última pesquisa da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS) revelaram que o Brasil é o país que mais realiza cirurgias plásticas no mundo. O silicone é o procedimento mais feito, seguido da lipoaspiração.

A procura pela segunda disparou nos últimos meses. No Google, a busca pelo termo lipo HD aumentou cerca de 350% de agosto até novembro de 2020 e, no Instagram, principal plataforma de divulgação da cirurgia, a hashtag #lipoHD possui quase 90 mil posts.

O procedimento, também conhecido como lipo LAD, tem como diferencial criar "gominhos" na barriga. Porém, o cirurgião membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, Luiz Haroldo Pereira, explica que toda lipoaspiração procura definir o contorno corporal. "No abdômen retiramos o excesso de gordura e evidenciamos os músculos abdominais. Ou seja, fazemos isso há muitos anos (...) Trata-se de um nome fantasia, como foi a 'lipo light' e 'hidrolipo'".

Segundo o cirurgião plástico, o aumento na procura pela cirurgia pode ser atribuído às constantes publicações de personalidades conhecidas na internet que realizam o procedimento em troca de divulgação. Porém, além do aparelho utilizado no procedimento, o Vaser, não ser validado pela Anvisa, esse trabalho de promoção é proibido pelo Conselho Federal de Medicina.

Impactos das permutas de lipo LAD

As permutas feitas por personalidades envolvendo a lipo HD também são tema de debate nas redes sociais. A influenciadora, ativista e fundadora do Movimento Corpo Livre, Alexandra Gurgel publicou um vídeo sobre isso, em outubro, que viralizou nas redes sociais, com mais de 750 mil visualizações.

As críticas giram em torno da falta de informação sobre os riscos e complicações da cirurgia nestas divulgações. Em entrevista ao Estadão, Alexandra contou que "os posts não foram só de blogueiras, cantoras famosas e ex-BBBs, mas também de páginas de fofoca que fizeram uma cobertura da lipo LAD, fazendo com que todo mundo quisesse fazer".

Mas, afinal, qual é o problema de despertar esse desejo? A psicanalista e coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza da Puc Rio, Joana Novaes, explica: "Essas ações individuais podem ser nocivas para o todo social. Quando não mencionam todas as informação, os riscos são banalizados. Cada vez mais cedo, vão surgir intervenções no corpo, sobretudo em adolescentes, para se sentirem aceitos e terem validação".

"Essa superexposição cria nos jovens um incômodo com o próprio corpo que, muitas vezes não tinham antes. Se não tivesse aquele modelo de barriga recorrente, talvez o adolescente estaria satisfeito com a sua. Incitar isso em um grupo que já têm questões muito comprometidas com a própria imagem corporal é muito prejudicial para a autoestima", acrescenta ela.

Alexandra explica que não se trata de proibir as influenciadoras de fazerem a cirurgia, mas sim de terem responsabilidade com o conteúdo compartilhado. "É uma faca de dois gumes, a pessoa quer ser real, desabafar sobre suas insatisfações e não quer esconder que fez uma lipo, mas é preciso questionar 'até que ponto eu compartilhar minhas insatisfações não vai acabar gerando novas insatisfações pros meus seguidores?'".

"Algumas pessoas até divulgam o 'lado difícil', o pós operatório, mas é tudo glamourizado, voltado para um ar de superação. Infelizmente, estão encapsulando aceitação em lipo LAD, envelopando cirurgia plástica em um discurso de autocuidado, enaltecendo dor e sofrimento em prol de um corpo perfeito", afirma a influenciadora.

Cuidados com a lipo LAD e riscos

Além dos impactos na autoestima, Luiz Haroldo reforça que a divulgação "exagerada", sem informações sobre os riscos da cirurgia e dificuldades do pós-operatório, pode causar graves complicações.

"Tem médicos retirando toda a gordura e surgindo graves consequências como necrose extensa da pele do abdômen e flancos. As complicações mais graves são necrose ampla de pele e até infecções graves ou septicemia. A cirurgia tem que ser feita em hospital, jamais em consultório", afirma.

"O pós operatório envolve uso de cintas, drenagem linfática, recuperação em uma semana para trabalho, atividades físicas depois de 15 dias e o bom resultado só depois de 4 meses", explica

Rede social e autoestima

Para uma melhor relação dos usuários com as redes sociais, Joana recomenda acompanhar perfis diversos e "que te mostrem que você tem várias possibilidades de ser e estar no mundo, mais democráticas e inclusivas. Tudo na sociedade de consumo deve ser pensado através do consumo. Como espelhar uma ideologia? A partir das marcas que quero consumir e influenciadores que quero seguir. É assim que podemos atuar politicamente em um mundo digitalizado".

*Estagiária sob supervisão de Charlise Morais

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Estadão
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