Vidente fala sobre como alimentar a alma e a sorte
O dicionário nos ensina a escrever "nhoque", abrasileirando a palavra de origem italiana gnocchi. Os mais velhos gostam de usar, como ainda se vê nos cardápios ou tabuletas na porta das cantinas mais tradicionais, a grafia "inhoque". Pouco importa. O interessante mesmo é perceber que até a palavra usada para nomear as pelotinhas é saborosa. Prazerosa de ser pronunciada, evoca o som seco de uma daquelas dentadas que damos para arrancar um bocadinho de algo gostoso.
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É sábio entender que a felicidade começa no estômago. O espírito se sente bem quando o corpo come bem. Regozija com a correta manutenção do automóvel que o transporta. Agradece quando tudo é mantido em dia, equilibradamente: combustíveis, aditivos, lubrificantes, calibragens, ajustes.
Alimentar-se não é apenas um ato nutricional, de costume social ou de atitude cultural. Constitui uma situação de diálogo com a espiritualidade profunda já que nenhum alimento que entra em nossas bocas é neutro. No conjunto das nossas atividades cotidianas, comer é a mais vital, mais íntima das ações. O alimento nos constrói, é incorporado, torna-se nossa substância, forma quem somos.
Ao longo da aventura humana, a força mística de muitos alimentos foi sendo interpretada e compreendida. Acabaram ganhando importantes significados e se transformaram em símbolos de poder por suas características: determinados peixes, por não fecharem os olhos e nadarem apenas para frente; determinados grãos e tipos de pães (Ceres, a divindade grega da germinação, sempre reeditando a potência da vida); determinadas frutas (a romã, entre outras, com sua estrutura orgânica e beleza explosiva); determinadas substâncias psicoativas (pense no chá usado pelos monges budistas como acompanhamento para suas meditações tranqüilas, ou no café aclarando a mente dos longos dias de trabalho); determinadas especiarias (pelo aroma, sabor e calor que conferem aos pratos); e, evidentemente, o álcool, com todos os riscos que representa. Todos eles compõem um repertório de magias alimentares que se espalha pelo planeta.
Entre os paulistanos, ficou estabelecido uma tradição reeditada todo dia 29 do mês: a boa fortuna do "nhoque da sorte". A primeira etapa do ritual é colocar algum dinheiro sob o prato. Certos restaurantes chegam a fornecer uma moedinha ou papel moeda, embora muita gente prefira usar um dólar. Então, antes de saborear o prato, deve-se comer sete bolotinhas. Alguns preferem fazê-lo em pé, enquanto outros garantem ser necessário mastigar sete vezes cada pedaço, fazendo um pedido para cada bocado. O dinheiro precisa ser guardado pelos próximos trinta dias, que serão de sorte.
A origem do costume está ligada a São Pantaleão. Andarilho, vivendo modestamente, chegou a um pequeno vilarejo italiano justamente em um dia 29. Bateu à porta de uma casa bem simples e pediu um pouco de comida. Um casal de velhinhos, mesmo sem saber quem era, dividiu com ele o único alimento disponível, um pequeno prato de nhoque. Agradecido pela hospitalidade, o santo afirmou que todos no povoado deveriam saborear aquele prato naquele dia. A vila prosperou e a fábula se transformou em uma tradição.
Aqui no Brasil, o costume, que nasceu paulistano, vem se espalhando por outras cidades. Veja você se o prato, além de ser delicioso, favorece, com o empurrãozinho de São Pantaleão, a concretizar seu planos.
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