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Turismo de massa sem planejamento está provocando colapso urbano em João Pessoa

Receitas geradas pelo turismo de massa na cidade não retornam sob a forma de investimentos em saneamento, lixo, mobilidade, preservação ambiental e infraestrutura urbana

16 fev 2026 - 20h53
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Casos recentes de esgoto lançado nas praias da orla misturado à drenagem pluvial são exemplos da contradição entre o marketing sobre o crescimento do turismo na cidade e a poluição ambiental e visual que este aumento desordenado está gerando.
Casos recentes de esgoto lançado nas praias da orla misturado à drenagem pluvial são exemplos da contradição entre o marketing sobre o crescimento do turismo na cidade e a poluição ambiental e visual que este aumento desordenado está gerando.
Foto: Prefeitura de João Pessoa / The Conversation

Nos últimos anos, um conjunto de festas populares vem ganhando grande visibilidade e atraindo milhares de pessoas à João Pessoa, capital da Paraíba. Eventos como o Forró Verão e o Sabadinho Bom, no centro da cidade - além das festas de São João e outros eventos concentrados na orla ao longo do ano -, são frequentemente apresentados como exemplos bem-sucedidos de promoção do lazer, do bem-estar e do fomento cultural na cidade. A isso somam-se intervenções urbanas recentes, como a criação de praças horizontais em meio a vias importantes, ou da forte concentração de parques em bairros nobres da capital.

Essas iniciativas, em si, são importantes. O problema e as críticas surgem quando um conjunto de eventos, sobretudo no verão e na alta temporada turística, não são planejados e organizados de forma integrada ao longo do ano para receber a quantidade de pessoas que é estimulada pelas redes sociais e matérias pagas para virem à cidade.

Mais questionável ainda é o fato de que os benefícios e os custos desse modelo não são distribuídos de maneira equitativa entre os moradores e moradoras da cidade, aqueles que a sustentam com seus impostos. A quem interessa esse modelo de eventos e de turismo de massa sem planejamento estrutural?

Turismo de massa que gera lucro sem retorno

Se os lucros gerados pelo turismo de massa não retornam à cidade sob a forma de investimentos consistentes em saneamento básico, coleta de lixo, mobilidade urbana, preservação ambiental e infraestrutura urbana em sentido amplo ao longo do ano, o que se tem é uma política de espetáculo e urbanismo de fachada desconectada das necessidades do dia a dia da maioria da população que vive em João Pessoa. Não é aceitável promover uma imagem de cidade paradisíaca, com forte propaganda da orla e eventos lotados, sem amplo debate público de como esses empreendimentos funcionam, quem efetivamente lucra com essa situação e qual é o retorno concreto para a maioria da sociedade.

O caso do esgoto lançado nas praias da orla, muitas vezes misturado à drenagem pluvial, e a propaganda de empresas de apostas espalhada por toda a orla (contrariando o Código de Posturas da cidade), é um exemplo eloquente dessa contradição entre marketing urbano, poluição ambiental e visual.

Essas questões têm sido objeto de interpelação ao governo estadual em alguns aspectos, sobretudo a CAGEPA, mas recaem em grande parte sobre o governo municipal, que age sob pressão do ano eleitoral.

Tensões e contradições

Isso se torna ainda mais relevante quando o atual prefeito, Cícero Lucena, se apresenta como candidato ao governo da Paraíba em 2026. Se há deficiências básicas na administração do município, como esse mesmo projeto político pretende administrar a Paraíba? A cidade que é vendida como vitrine turística deve ser um lugar de improvisação, poluição, desigualdade e opacidade administrativa?

Esse conjunto de tensões e contradições em João Pessoa vem se intensificando com os tensionamentos em torno da nova Lei de Uso e Ocupação do Solo (LUOS), sancionada em 2024. Sob justificativas de medição da maré, o polêmico Artigo 62 flexibilizava os limites de altura de edifícios na orla assegurado pela Lei do Gabarito, o que foi considerado por órgãos de controle, no caso o Ministério Público da Paraíba (MPPB) e o Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB), como inconstitucional por flexibilizar limites de altura de edificações na zona costeira.

Prédios como o Edifício Way, empreendimentos da Setai e outros, tornaram-se símbolos desse embate.

Somado a isso, em João Pessoa a mobilidade urbana é marcada pela dependência excessiva do transporte individual, pela precariedade do transporte público e pela falta de planejamento integrado entre crescimento urbano e circulação. O turismo de massa e dos eventos sazonais agravam congestionamentos, pressiona vias já saturadas e expõe a fragilidade da infraestrutura viária - tanto que otrânsitotem sido apontado como a principal crítica ao crescimento turístico da cidade. No que se refere especificamente ao transporte público, a tarifa do transporte coletivo em João Pessoa é a segunda mais cara da região Nordeste e a quinta mais caraentre as capitais do país. O valor de R$ 5,20 (com reajustevindo por aí) não reflete a qualidade do serviço prestado à população (queixas sobre a superlotação, o estado de conservação dos ônibus e veículos que quebram no meio do trajeto, além do tempo de espera). Soma-se a isso a cobrança de um valor diferenciado no serviço com ar-condicionado conhecido como "geladinho", que chega a R$ 6,05, realçando ainda mais a desigualdade ao acesso à mobilidade urbana.

Em João Pessoa, o turismo de massa gera empregos e renda, mas o faz de maneira altamente concentrada e precária, pois afinal é a capital do Brasil com maior desigualdade social. A maior parte das vagas criadas está no setor de serviços, com baixos salários, alta informalidade e pouca proteção social, enquanto os lucros se acumulam em grupos empresariais do setor imobiliário, hoteleiro e de eventos.

Sem políticas públicas redistributivas - e sem que os empreendimentos que exploram o turismo usem parte dos seus lucros em benfeitorias para mitigação dos impactos de suas atividades -, a tendência é essa situação caótica prosseguir, e reforçar a desigualdade social já existente.

Na capital da Paraíba, turismo e economia não precisam ser contraditórios ao desenvolvimento urbano e à preservação das praias. Quando ambos são gestados com responsabilidade social e ambiental, transparência e reinvestimento público podem gerar renda, qualificar a cidade, fortalecer serviços e melhorar a qualidade de vida. Nesse momento, cabe aos grupos empresariais, à prefeitura de João Pessoa e ao governo do estado responderem a essa demanda.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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