Alta confiança, baixa participação: as contradições da percepção da ciência no Paraná
Pesquisa mostra que muitos paranaenses confiam na ciência, em vacinas e aquecimento global, mas cerca de metade nega teoria da evolução
Confiar na ciência não significa, necessariamente, compreender seus fundamentos, nem incorporá-la de forma ativa na vida cotidiana. É possível valorizar universidades, consumir conteúdos científicos e, ainda assim, rejeitar teorias centrais como a evolução das espécies. Dados inéditos que coletamos recentemente no Paraná ajudam a entender essa contradição e os desafios contemporâneos da divulgação científica.
Ao longo dos últimos meses, desenvolvemos uma Pesquisa de Percepção Pública da Ciência no Paraná. Percorremos o estado para entender como a população enxerga a ciência, suas instituições e seus impactos sociais. O que encontramos revela um cenário ao mesmo tempo estimulante e desafiador, no qual, se por um lado a confiança na ciência e nas universidades públicas é amplamente majoritária, por outro, nem sempre se converte em engajamento ou compreensão aprofundada.
O levantamento faz parte das ações do Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (NAPI) Paraná Faz Ciência, um grupo de divulgadores científicos apoiados pela Fundação Araucária. Embora o estado tenha modernizado seu marco legal e aumentado expressivamente os investimentos em Ciência, Tecnologia e Inovação por meio do Fundo Paraná e dos NAPIs, ainda não sabíamos o grau de percepção e apropriação da população local sobre esses avanços.
A pesquisa ouviu 2.684 pessoas, em 88 municípios, amplitude que nos permitiu observar nuances regionais, geracionais e temáticas. E também revelaram contradições profundas que atravessam a relação entre conhecimento científico e vida pública no século XXI.
Confiança sem engajamento
Um dos resultados mais emblemáticos talvez seja o nível de confiança em cientistas de universidades públicas. O índice, obtido por meio de análises estatísticas, alcança 0,93 entre os paranaenses. Ele mostra que o público confia mais na ciência produzida por essas instituições do que por outros atores como médicos, jornalistas e empresas privadas. É um reconhecimento claro da legitimidade da ciência acadêmica e de suas instituições.
Também é expressivo que 58% considere Ciência e Tecnologia uma área de interesse no consumo midiático. As áreas consideradas mais relevantes são educação (83,4%) medicina e saúde (80,6%) e meio ambiente (70,1%). No movimento inverso, mais da metade dos entrevistados afirma não se interessar por política, chegando a 52,6%. Arte e cultura aparecem (47,2%) e esportes (43,4%) também apresentam índices elevados de desinteresse.
Os números são semelhantes aos do último relatório de Percepção pública da Ciência e Tecnologia no Brasil, publicado em 2023, indicando que o Paraná acompanha algumas tendências observadas no país.
No entanto, essa confiança e esse interesse não se traduzem automaticamente em participação. A maioria dos entrevistados não acompanha atividades de divulgação científica, não interage com pesquisadores e tampouco se percebe como parte do processo de produção ou circulação do conhecimento. A ciência é valorizada, mas permanece distante. Respeitada como autoridade, mais do que vivenciada como prática social.
Também identificamos que a maioria dos entrevistados não recorre à ciência para explicar problemas sociais complexos, como pobreza ou desigualdade. 57,3% discordam que ciência e tecnologia eliminariam a pobreza, e 49,9% discordam que diminuiria desigualdades sociais. Esse ceticismo distancia a ciência de seu impacto político. Porém, ao mesmo tempo, rompe com o mito salvacionista da ciência, reconhecendo seus limites diante de desafios que também são econômicos, culturais e estruturais.
Vacinação
A taxa de vacinação é um importante termômetro que reflete a confiança na ciência. E, desde 2015, o Brasil enfrenta uma grande queda nesse índice, que já foi de 97% em 2015, mas caiu para 75% em 2020. O país voltou recentemente a figurar entre os que concentram o maior número de crianças não vacinadas no mundo.
Um estudo mostrou que a pandemia de Covid-19 parece ter aumentado a confiança na ciência e nos cientistas. Embora não tenha disponibilizado dados separados do Brasil, a tendência foi apontada como sendo global, como resposta às novas vacinas.
No Paraná, nossa pesquisa mostra que uma ampla maioria (70,9%) considera que as vacinas oferecem riscos inexistentes ou pequenos, e apenas 7,4% acreditam que esses riscos sejam grandes. A diferença entre homens e mulheres é mínima, o que reforça a estabilidade dessa percepção.
Ainda assim, a persistência de receios inflados pela desinformação aponta para a necessidade de aprofundar estratégias de comunicação que transcendam campanhas emergenciais e se tornem políticas permanentes de alfabetização científica.
Crenças contraditórias
Alguns resultados interessantes evidenciam que a crença na ciência não necessariamente implica aceitação uniforme de seus conceitos fundamentais. Ela é seletiva, atravessada por valores culturais, crenças religiosas e discursos desinformativos amplificados por fatores como as redes sociais.
Embora 91,5% dos nossos entrevistados afirmem saber que a Terra é redonda, quase metade — 48% — não acredita na teoria da evolução. Essa contradição não é um fenômeno isolado nem é explicada apenas por falta de informação. Crenças científicas não são adotadas de forma puramente racional. Aceitar ou rejeitar uma teoria pode funcionar como uma forma de afirmação identitária. A religião desempenha um papel central nesse contexto, ao oferecer sentido, segurança e pertencimento à uma comunidade.
No entanto, também observamos contradições acerca de temas não-religiosos, como o das mudanças climáticas. Esse têm sido um alvo intenso de campanhas de desinformacão. Uma das táticas comumente usadas é deturpar o conceito de incerteza científica para afirmar que ainda são necessários mais estudos antes de tomar decisões concretas.
Observamos que 86,8% dos entrevistados no Paraná reconhecem que o aquecimento global é causado total ou majoritariamente pela ação humana, um percentual superior ao registrado na média nacional e em países com indicadores educacionais mais elevados. Ainda assim, persiste um núcleo minoritário que atribui o fenômeno apenas a causas naturais (3,2%) ou o nega completamente (0,9%). Essa crença em causas exclusivamente naturais aumenta com a idade, o que indica que estratégias educativas precisam levar em conta aspectos geracionais, não apenas temáticos.
É preciso divulgar mais e melhor
Talvez o dado mais interessante da nossa pesquisa seja sobre o desejo explícito de compreensão. 63% dos entrevistados afirmam que poderiam ser mais bem informados sobre ciência, tecnologia e inovação se os cientistas explicassem os conteúdos com mais detalhes.
Para nós, que atuamos diariamente na interface entre pesquisa e sociedade, esse dado é um chamado claro. Não basta produzir ciência de qualidade, algo que as universidades paranaenses já fazem com excelência, é preciso também comunicá-la, contextualizá-la, torná-la inteligível sem perder seu rigor metodológico.
Esse cenário confirma que a crise contemporânea entre ciência e sociedade não se deve apenas à desinformação, mas também a um distanciamento histórico, no qual a linguagem técnica e o formato tradicional das instituições científicas se tornaram barreiras simbólicas. Superá-las exige esforço mútuo de pesquisadores dispostos a repensar estratégias comunicacionais e de políticas públicas que fortaleçam espaços de circulação do conhecimento, da escola básica aos museus, da imprensa regional aos ambientes digitais.
Esses indicadores oferecem uma ferramenta estratégica para orientar políticas públicas, definir prioridades educacionais e repensar a presença da ciência no território digital. Servirão de base para o planejamento de ações de divulgação mais eficazes, como a criação de clubes de ciência, museus e campanhas de sensibilização. Eles também permitem orientar o alinhamento das agendas de pesquisa às demandas da população.
Assim, o estado poderá avaliar a legitimidade pública de suas ações e fortalecer os vínculos entre a produção acadêmica e o desenvolvimento regional sustentável. Acreditamos que seja uma ação essencial para a consolidação do estado como um polo científico de excelência. Só haverá ciência forte no Paraná se houver, também, uma sociedade que confie nela e também a compreenda, a questione e a incorpore como parte de sua vida cotidiana.
Débora de Mello Sant' Ana é professora da Universidade Estadual de Maringá e Assessora da Fundação Araucária. Ela recebe financiamento da Fundação Araucária para o NAPI Paraná Faz Ciência.
Rodrigo Arantes Reis é Professor da Universidade Federal do Paraná, Articulador do NAPI Paraná Faz Ciência, que recebe financiamento da Fundação Araucária
Tamara Domiciano é Pesquisadora em estágio de pós-doutorado na UFPR, vinculada ao NAPI Paraná Faz Ciência. Bolsista via Fundação Araucária