Irreverente, desfile de Carnaval na Alemanha ridiculariza políticos
Críticas a Trump e à AfD marcam evento, que reforça o papel da festa como espaço de contestação e liberdade de expressão
Em Colônia, capital alemã da folia, tradicional desfile de carros alegóricos trará fortes críticas a Trump e à AfD. Evento reforça o papel da festa como espaço de contestação e liberdade de expressão.O desfile da segunda-feira de Carnaval em Colônia, em 16 de fevereiro, promete ser tão escandaloso quanto de costume. A procissão conta com 120 carros alegóricos, incluindo os tradicionais "Persiflagewagen" — alegorias satíricas e irônicas que são o grande destaque do evento.
Como sempre, é de se esperar que alguns dos principais políticos do mundo sejam ridicularizados em praça pública. Os construtores desses carros, afinal, aproveitam a ocasião para criar obras móveis de arte que combinam humor com críticas sociais e políticas afiadas.
Durante os preparativos para o Carnaval deste ano, o diretor do desfile, Marc Michelske, apresentou alguns dos temas dos carros do Comitê do Festival de Colônia.
Donald Trump exposto
Esboços de quatro carros foram divulgados antecipadamente. Um deles representa o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, olhando para um espelho, sorrindo, com o traseiro exposto e coberto de marcas de batom.
"Nos perguntamos por que tantas pessoas se curvam diante de Donald Trump, e o próprio Trump disse: 'Eles estão beijando minha bunda' (They're kissing my ass - no sentido de "Eles estão me bajulando")", explicou Michelske em entrevista à DW. "Declarações e comportamentos assim são fáceis de converter em imagens."
As marcas de beijo trazem nomes de pessoas e organizações proeminentes, incluindo a União Europeia, a Fifa, as Nações Unidas, o chanceler federal alemão, Friedrich Merz, e o presidente francês, Emmanuel Macron.
"Trump sempre golpeia abaixo da cintura, como faz com todas as questões. É algo muito baixo, especialmente para um presidente dos Estados Unidos, e esta foi a melhor forma que encontramos de representá-lo", afirmou Michelske.
Como diretor do desfile, ele é responsável por planejar os carros satíricos em conjunto com uma equipe criativa. Ele também supervisiona a construção das estruturas com a ajuda de diversos assistentes e cria planos de segurança junto a seu vice.
Carros alegóricos mantidos em segredo
O Comitê do Festival de Colônia é uma das poucas organizações carnavalescas que apresentam seus carros antes do desfile da segunda-feira de Carnaval. Em contraste, os carros de Düsseldorf são mantidos em segredo até o grande dia.
"Isso significa que qualquer coisa desagradável que inventarmos será realmente exibida no desfile, e ninguém pode fazer nada a respeito", justificou recentemente o construtor de carros alegóricos Jacques Tilly à DW. Tal estratégia não é gratuita: diversas vezes, instituições e indivíduos tentaram impedir que seus carros participassem do desfile de Düsseldorf.
Michelske, por sua vez, acredita que apresentar os carros com antecedência é essencial, pois faz parte do processo. "Não é um segredo; as coisas devem ser mostradas e explicadas ao público", defende. "Isso nos dá a oportunidade de falar sobre o que associamos a cada carro — algo que geralmente já não é mais possível na própria segunda-feira de Carnaval."
Um alerta contra a AfD
Enquanto o carro com Donald Trump é autoexplicativo, outro que mostra uma grande cobra azul pode exigir algum contexto. Trata-se de uma crítica direta ao partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD), tema particularmente caro a Michelske.
A serpente Kaa, do Livro da Selva, aparece em azul claro — cor oficial da AfD — enrolando-se em torno de um jovem. "Kaa tentou envolver o menino Mogli e hipnotizá-lo, e vemos isso acontecendo exatamente agora", observou Michelske.
Muitas pessoas estão cegas pelas promessas da AfD, diz ele. "Mas é preciso conversar com essas pessoas, não apenas denunciá-las", ressalta. "Mogli também não conseguiu sozinho. Temos que ajudar as pessoas a sair dessa hipnose; só assim poderemos enfrentar o problema. É disso que se trata a democracia."
Os temas dos carros deste ano são variados: um mostra um garoto com um celular usando um capacete militar enorme — uma alusão à proposta de reinstaurar o serviço militar obrigatório na Alemanha, levando jovens ao recrutamento sem saber o que os espera.
Outro carro apresenta uma guilhotina ensanguentada com as palavras "tarifas dos EUA" e uma bandeira americana fazendo as vezes de lâmina.
Há também um coelho com o rótulo "UE", carregando cargas pesadas sob o olhar vigilante dos EUA (uma águia), da Rússia (um urso) e da China (um panda). O texto que acompanha a cena afirma que a União Europeia irá sobreviver mesmo sem os poderosos.
Sem carro para Putin
Não há, porém, nenhum carro dedicado ao presidente russo, Vladimir Putin, no desfile deste ano em Colônia. Mas não por medo de represálias, como as enfrentadas por Jacques Tilly, processado pelo Estado russo por um de seus carros satíricos sobre Putin.
"Estamos definitivamente solidários com ele; os foliões têm de ser livres", disse Michelske. Ele está convencido de que Tilly encontrará a resposta certa para esses ataques à liberdade de expressão com um novo carro este ano.
"Vamos apoiar sua resposta dizendo simplesmente que ele fez o melhor carro para isso e assim será", disse, acrescentando que Colônia deixará Düsseldorf cuidar do tema Putin.
Foliões de Mainz, outro bastião do Carnaval alemão, também declararam solidariedade a Tilly em sua resistência às autoridades russas. "Não seremos intimidados nem privados do nosso humor. A crítica carnavalesca não conhece limites e não pode ser banida", afirmaram as associações carnavalescas de Mainz em nota.
Homenagem aos voluntários
O lema do desfile deste ano em Colônia é "Mer dun et för Kölle", algo como "Fazemos isso por Colônia". Trata-se de uma homenagem aos voluntários da cidade, especialmente os envolvidos no Carnaval.
Simbolizando isso, um grupo de 250 cantores voluntários de mais de 30 corais de todas as idades e uma orquestra com 50 músicos voluntários liderarão o desfile da segunda-feira de Carnaval. Nada como um pouco de música para acompanhar a sátira.