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Teoria de que vírus da covid-19 teria sido criado propositalmente não tem apoio científico

SEGUNDO GRUPO DA OMS QUE INVESTIGOU A ORIGEM DO SARS-COV-2, HIPÓTESES DE MANIPULAÇÃO INTENCIONAL DO VÍRUS NÃO TÊM FUNDAMENTO NA CIÊNCIA

12 fev 2026 - 14h47
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O que estão compartilhando: que o vírus causador da covid-19 teria sido criado em Wuhan, na China, com dinheiro americano como uma arma biológica, cuja "munição" seria a proteína Spike.

Vídeo apresenta narrativa baseada em alegações falsas e distorcidas sobre a origem do vírus causador da covid-19 e a segurança das vacinas de RNA mensageiro
Vídeo apresenta narrativa baseada em alegações falsas e distorcidas sobre a origem do vírus causador da covid-19 e a segurança das vacinas de RNA mensageiro
Foto: Reprodução/Instagram / Estadão

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. As hipóteses de manipulação intencional do vírus não têm respaldo científico, nem estão entre as explicações mais prováveis para o início da pandemia, segundo relatório do Grupo Consultivo Científico para Origens de Novos Patógenos (SAGO, na sigla em inglês), da Organização Mundial da Saúde (aqui). Embora o grupo não tenha chegado a uma conclusão definitiva sobre como começou a covid-19, o documento indica que as evidências sugerem a transmissão de origem animal do SARS-CoV-2 a humanos, diretamente de morcegos ou por hospedeiro intermediário. A peça verificada apresenta indícios de criação por meio de inteligência artificial (IA).

Saiba mais: publicado no Instagram, o vídeo apresenta uma narrativa baseada em alegações falsas e distorcidas sobre a origem do vírus causador da covid-19, e a segurança das vacinas de RNA mensageiro (mRNA). Além de afirmar que o SARS-CoV-2 teria sido criado intencionalmente, o vídeo diz que documentos da Pfizer, com mais de 1.200 supostos efeitos colaterais dos imunizantes, só teriam sido divulgados após decisão judicial, o que é enganoso.

O que se sabe sobre a origem do SARS-CoV-2?

Investigada desde 2020 por uma comissão internacional da OMS, a origem do SARS-CoV-2 continua desconhecida. No entanto, teorias conspiratórias sobre a criação intencional do vírus em laboratório tem sido desmentidas desde então por autoridades de saúde. O Verifica, por exemplo, já checou alegações que envolviam a fabricação do vírus em outras ocasiões (aqui e aqui).

Após pouco mais de três anos investigando as possíveis origens da covid-19, o Grupo Consultivo Científico da OMS para as Origens de Novos Patógenos, composto por 27 especialistas internacionais e independentes, não chegou a uma conclusão sobre como a doença teve início. As informações necessárias para avaliar todas as hipóteses não foram fornecidas.

Apesar de todas as hipóteses permanecerem em aberto, incluindo a transmissão de origem animal e o vazamento acidental de laboratório, a mais aceita pelo grupo é a de que o vírus tenha passado de animais para humanos.

De acordo com a OMS, as conclusões foram publicadas com base em artigos e análises revisadas por pares, estudos de campo, entrevistas, conclusões de auditorias, relatórios governamentais e de inteligência.

Na peça verificada, o autor busca reunir indícios que supostamente comprovariam uma criação intencional do vírus e menciona, por exemplo, que o SARS-CoV-2 teria sido desenvolvido a partir de uma pesquisa de ganho de função. Trata-se de um tipo de estudo em que se altera geneticamente um organismo com o objetivo de aprimorá-lo para desempenhar determinada função, como infectar células humanas.

Conforme mostrou o Verifica em checagem sobre a origem da covid-19 (aqui), não há evidências de que o Instituto de Virologia de Wuhan, apontado em uma das hipóteses como possível local de vazamento do vírus, tenha realizado pesquisas com vírus semelhantes ao SARS-CoV-2 e que poderiam ter servido de base para a sua fabricação.

A falta de evidência para a fabricação do vírus é reforçada por artigo publicado na revista Cell em setembro de 2021 (aqui). O texto aponta que "não há dados que sugiram que o Instituto de Virologia de Wuhan — ou qualquer outro laboratório — estivesse trabalhando com o SARS-CoV-2, ou em qualquer vírus suficientemente semelhante para ser o seu progenitor, antes da pandemia de covid-19".

Vírus não tem assinatura digital inexistente na natureza

Para sustentar a ideia de que o vírus causador da covid-19 teria sido criado em laboratório, o vídeo verificado afirma que o SARS-CoV-2 teria uma "assinatura digital" chamada sítio de clivagem de furina, algo que não existiria na natureza. Mas isso é falso.

O sítio de clivagem de furina é uma estrutura que facilita a entrada do vírus nas células. Ele permite que a proteína spike, que funciona como uma espécie de chave usada pelo vírus para "abrir a fechadura" da célula humana, seja ativada. É essa ativação que ajuda o vírus a invadir a célula e iniciar a infecção.

Ao Verifica, a professora Jordana Coelho dos Reis, do Departamento de Microbiologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), explicou que a furina pode ser comparada a uma tesoura que já existe naturalmente dentro das nossas células, chamada de protease. Essa "tesoura" tem a função de cortar pedaços de proteínas do próprio organismo para que elas fiquem ativas e funcionem corretamente.

Segundo Reis, quando o SARS-CoV-2 tenta entrar na célula, o que ocorre é esse corte. "Na verdade, a furina que está dentro da célula não sabe que está ajudando o vírus. Ela está ali cumprindo suas funções essenciais e o vírus acaba utilizando a furina a seu favor", disse.

Ao contrário do que diz o conteúdo, essa estrutura está presente na família dos coronavírus. De acordo com a professora, o sítio de clivagem de furina é uma estratégia que os coronavírus utilizaram ao longo da sua evolução para entrar na célula. "Existem várias maneiras de um vírus entrar na célula, e esse é o registro da família", afirmou.

Reis ressaltou ainda que esse mecanismo não é exclusivo dos coronavírus. O sítio de clivagem de furina está presente em outras famílias virais, como é o caso do vírus da herpes.

"Temos outros vírus que também utilizam esse maquinário, que é a nossa furina de dentro das células, essa tesourinha, para poder se libertar da ligação à membrana e ser liberado dentro da célula, dando início ao seu ciclo de multiplicação viral", explicou.

Decisão judicial não obrigou Pfizer a publicar documentos sobre vacina

O conteúdo engana ao afirmar que documentos da Pfizer, que supostamente indicariam mais de 1.200 efeitos colaterais da vacina contra a covid-19, só teriam sido divulgados após a decisão de um juiz federal do Texas, que teria determinado a liberação imediata dos arquivos.

A alegação sobre os "mais de mil efeitos colaterais da vacina" já foi desmentida pelo Verifica (aqui) e configura uma distorção sobre um documento entregue em 2021 pela Pfizer à Food and Drug Administration (FDA), a agência regulatória americana, sobre o monitoramento da segurança do imunizante após autorização do uso emergencial nos Estados Unidos, em 2020.

O documento (aqui) listava enfermidades de especial interesse para monitoramento após aplicação da vacina, e não efeitos colaterais comprovados do imunizante. A lista com as supostas 1.291 enfermidades provocadas pela vacina aparece nas últimas páginas.

Os efeitos colaterais confirmados da vacina da Pfizer, portanto, não são os que constam nessa lista, mas os que aparecem na bula do medicamento para o paciente. As reações mais comuns, que ocorrem em 10% dos pacientes vacinados, são: dor de cabeça, diarreia, dor nas articulações, dor muscular, dor e inchaço no local de injeção, cansaço, calafrios e febre.

A decisão do juiz federal do Texas não determinou a liberação imediata de arquivos que supostamente comprovariam mais de mil efeitos colaterais. O vídeo tira de contexto um episódio de 2021.

Na ocasião, o grupo Public Health and Medical Professionals for Transparency (Profissionais de Saúde Pública e Medicina pela Transparência, na tradução literal) protocolou um pedido de acesso à informação solicitando os dados usados para licenciar a vacina da Pfizer. À época, a FDA concordou em divulgar os documentos, mas informou que o processamento do material poderia levar décadas.

A agência sanitária norte-americana pediu para entregar 500 páginas por mês de um documento que superava mais de 450 mil páginas sobre a vacina, o que faria a entrega dos papéis demorar 75 anos. Diante disso, o grupo entrou com ação judicial contra a FDA. O juiz do Texas Mark Pittman deu razão ao grupo e determinou que a agência passasse a liberar 55 mil páginas por mês a partir de março de 2022.

Vídeo usa inteligência artificial

O vídeo analisado contém fortes indícios de geração por inteligência artificial. O Verifica submeteu a gravação à ferramenta da plataforma Hive Moderation, que detecta IA em mídias, e o resultado apontou 99,4% de probabilidade de geração por IA ou deepfake.

O cenário do vídeo, que mostra um homem em um ambiente escuro fazendo uma revelação, é uma característica comum a outros conteúdos de desinformação desmentidos recentemente. A mesma tática foi usada em um vídeo que afirmava falsamente que o fone de ouvido sem fio Bluetooth funcionaria como um micro-ondas ligado na cabeça, que causaria Alzheimer precoce.

Estadão
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