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Câncer: tratamentos em fase inicial de testes aparecem em postagem viral como 'curas novas'

CONTEÚDO EXAGERA IMPACTO DE SEIS DESCOBERTAS E ALEGA QUE TODAS TERIAM SIDO FEITAS EM FEVEREIRO

13 fev 2026 - 16h26
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O que estão compartilhando: que ao menos seis curas diferentes para o câncer teriam sido anunciadas em fevereiro de 2026. A postagem cita descobertas de supostas curas de câncer de pâncreas, colorretal, no sangue, HPV e até uma vacina russa contra a doença.

Captura de tela da postagem verificada
Captura de tela da postagem verificada
Foto: Reprodução/Instagram / Estadão

O Estadão Verifica apurou e concluiu que: é enganoso. Notícias relacionadas ao tratamento de diferentes tipos de câncer voltaram a circular com grande alcance nas redes sociais. No entanto, especialistas ouvidos pelo Verifica afirmam que as alegações de cura distorcem a realidade. As iniciativas se referem a estudos iniciais promissores ou relatos de casos pontuais com resultado positivo.

Saiba mais: a postagem atribui os supostos anúncios de cura a datas entre os dias 4 e 8 de fevereiro, da seguinte forma:

4 de fevereiro: Câncer de pâncreas5 de fevereiro: Câncer de cólon 7 de fevereiro: Metástases e colorretais7 de fevereiro: HPV (cânceres relacionados)8 de fevereiro: Câncer no sangue8 de fevereiro: Vacina russa contra o câncer

A postagem reproduz o conteúdo de uma outra que alcançou 16 milhões de visualizações no X no exterior. O enunciado diz: "BREAKING: 6 cancer cure claims suddenly went viral after the U.S. left the WHO".

(Em português, "URGENTE: Alegações de cura do câncer viralizaram rapidamente após os EUA deixarem a OMS [Organização Mundial da Saúde]").

Veja na captura de tela abaixo:

A postagem dá a entender que as datas mencionadas se referem ao período em que alegações nas redes sociais sobre as supostas curas das doenças viralizaram, o que teria ocorrido após o anúncio do governo norte-americano sobre o término do processo de saída da OMS, no dia 22 de janeiro. O post adiciona bandeiras de países ao lado das supostas curas, sugerindo que vieram desses países as supostas descobertas.

Nada disso é completamente correto. Especialistas explicaram ao Verifica que não se trata de descobertas de cura, mas sim de avanços científicos no tratamento das doenças ou estudos pontuais com resultado positivo. A postagem estrangeira que viralizou recebeu retificações das "notas da comunidade" no X com esse contexto.

Os estudos foram inicialmente divulgados entre 2023 e 2026, e viralizaram em postagens feitas no início deste mês, no X, em um movimento aparentemente coordenado.

Tratamento para câncer de pâncreas foi observado em camundongos

Um grupo espanhol liderado pelo bioquímico molecular Mariano Barbacid, chefe do Grupo de Oncologia Experimental do Centro Nacional de Pesquisa do Câncer (CNIO), desenvolveu um tratamento que elimina com sucesso tumores pancreáticos em camundongos de forma completa e duradoura. O estudo foi publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). No entanto, Barbacid enfatizou em entrevista que ainda não há condições para a realização de ensaios clínicos em humanos.

O professor de Oncologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) Roger Chammas, membro da Academia Brasileira de Ciências, disse que o estudo é promissor, mas ainda há um longo caminho até se chegar aos testes com humanos. "Isso pode levar de três a cinco anos, no mínimo", disse.

O médico oncologista Gustavo Gössling, especialista em tumores do trato gastrointestinal e pós-graduado em Pesquisa Clínica pela Harvard T. H. Chan School of Public Health, lamentou que a notícia da descoberta tenha sido veiculada como uma cura definitiva, o que não é verdade.

"Embora este achado nos indique um caminho a seguir, é importante saber que a chance de um medicamento contra câncer que começa a ser investigado em seres humanos demonstrar ser eficaz e seguro é de aproximadamente 5%", falou.

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Conversão para células sadias no câncer colorretal

O avanço foi anunciado por um grupo de pesquisadores sul-coreanos liderados pelo professor Kwang-Hyun Cho no Departamento de Bioengenharia e Engenharia Cerebral. Eles desenvolveram uma tecnologia que pode tratar o câncer colorretal convertendo células cancerosas a um estado semelhante a células sadias, sem matá-las, evitando efeitos colaterais.

Segundo publicação no site da universidade da Coreia do Sul, Kaist, à qual Kwang-Hyun Cho é vinculado, "os resultados são bastante promissores para o desenvolvimento de terapias reversíveis contra o câncer, que podem ser aplicadas a diversos tipos da doença".

O estudo, publicado na revista Advanced Science, foi validado em testes in vitro e in vivo. Isto significa que foram realizados testes laboratoriais laboratoriais e em animais - etapas que antecedem os estudos clínicos em humanos.

Câncer colorretal e metástases: relato de um caso na China

O estudo foi publicado por pesquisadores chineses. Trata-se de um relato de caso de uma mulher de meia-idade com câncer colorretal e metástase no pulmão. Ela foi tratada com quatro ciclos de terapia fotodinâmica (PDT) e cinco ciclos de terapia sistêmica, incluindo quimioterapia e imunoterapia. O estudo destaca que a abordagem terapêutica reduziu significativamente o tumor original e provocou alterações na metástase.

No entanto, os pesquisadores apontam que, como relato de um único caso, a evidência de eficácia da intervenção permanece limitada. "Estudos clínicos prospectivos são necessários para gerar evidências mais robustas e melhorar ainda mais os resultados para pacientes com câncer colorretal e metástases pulmonares", concluem os pesquisadores no estudo.

Terapia para tratar HPV com foto dinâmica não tem evidência comprovada

A postagem se refere a um estudo feito no México em que os pesquisadores utilizaram terapia fotodinâmica para tratar carcinoma cervical como resultado de infecção por HPV em 29 mulheres mexicanas. Segundo os pesquisadores, os resultados demonstraram que a estratégia "foi altamente eficaz na erradicação do HPV e de microorganismos patogênicos, sugerindo que a PDT é uma terapia promissora para infecções cervicais".

Mas não se pode falar em descoberta de cura. De acordo o médico oncologista e especialista em Medicina Baseada em Evidências Otavio Clark, a utilização de terapia fotodinâmica para tratar HPV é antiga e não há comprovação de eficácia comprovada.

"Ela nunca se provou realmente efetiva. Tem vários relatos em populações pequenas, mas nunca confirmados. Quando tomados em conjunto, os resultados desses estudos são conflitantes", explica Clark.

Tratamento de leucemia em criança no Vietnã

O que viralizou nas redes sociais sobre o assunto recentemente se refere ao tratamento com células T geneticamente reprogramadas (CAR-T) que ajudam a atacar e destruir células cancerígenas. Ele foi ministrado em uma criança de quatro anos, com leucemia linfoblástica aguda, no Instituto Vinmec de Pesquisa de Células-Tronco e Tecnologia Genética, no Vietnã. Segundo o diretor do instituto, Nguyen Thanh Liem, o paciente alcançou remissão completa do câncer e recebeu alta em agosto de 2023.

Mas remissão não significa cura, explica a biomédica, pesquisadora e professora da Escola de Saúde da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) Mellanie Fontes-Dutra. "Significa que houve uma ausência ou redução dos sinais da doença nos exames de monitoramento e mapeamento. Mas isso não necessariamente significa cura. O paciente precisa ser acompanhado para observar possíveis recidivas da doença", diz Mellanie.

Ela explica que os primeiros passos de tratamento de câncer com CAR-T foram dados no fim dos 1980, e que a técnica vem tendo mais projeção nos últimos anos, inclusive com pesquisas no Brasil.

Faltam dados públicos sobre a vacina russa contra o câncer

As postagens mencionam o desenvolvimento de duas vacinas na Rússia para aplicação contra o câncer: Enteromix e Neoonkovak. Pesquisadores e autoridades russas têm divulgado sucesso nos testes pré-clínicos e anunciam início dos testes em humanos. No entanto, há preocupação da comunidade científica internacional em relação à falta de transparência dos dados.

"Não há publicações que reportem estes dados em revistas científicas", diz Gustavo Gössling. "Neste caso, provavelmente por motivos geopolíticos, os dados não estão sendo compartilhados, de maneira que não é possível determinar se o tratamento realmente é eficaz ou não."

A vacina utiliza a tecnologia de RNA mensageiro (mRNA), a mesma aplicada nas vacinas contra a covid-19. Gössling explica que imunizantes de mRNA para combater o câncer estão sendo desenvolvidos em outras partes do mundo, não apenas na Rússia.

"É importante considerar que há outras vacinas mRNA personalizadas de companhias ocidentais também sendo investigadas em estudos clínicos", diz o médico oncologista.

Estadão
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