Parece inevitável voltarmos ao teto de gastos no próximo mandato, diz economista-chefe do Itaú
Para Mario Mesquita, manutenção do atual arcabouço fiscal tornaria muito lenta a estabilização da dívida pública como proporção do PIB, o que dificultaria a retomada do grau de investimento do País
O economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita, afirmou nesta terça-feira, 1º, que há chances altas de que o teto de gastos seja retomado a partir do próximo mandato presidencial. Segundo ele, a manutenção do atual arcabouço fiscal tornaria muito lenta a estabilização da dívida pública como proporção do PIB, o que dificultaria a retomada do grau de investimento.
"A mim, parece inevitável voltarmos ao teto de gastos no próximo mandato", disse ele durante o 18° Congresso de Meios Eletrônicos de Pagamento, realizado em São Paulo. Segundo Mesquita, a política fiscal do País deveria almejar "no mínimo" uma redução da dívida pública para 60% do PIB.
Segundo ele, países com grau de investimento ou algo próximo disso têm uma dívida pública de cerca de 50% do PIB, e quando o País recebeu o selo de bom pagador, em 2008, esse índice estava em 56%. Por outro lado, no terceiro governo Lula, o índice deve subir de 10 a 12 pontos porcentuais.
De acordo com Mesquita, é possível que o dólar siga enfraquecendo em relação ao real. Fatores como um diferencial de juros "cavalar" ajudam a segurar a moeda, mas o déficit de conta corrente do País tem crescido e não é mais compensado por investimentos diretos.
O economista-chefe do Itaú Unibanco disse que os atuais índices de popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva estão abaixo daquilo que historicamente é necessário para um presidente se reeleger ou fazer o sucessor. No entanto, ele não fez previsões sobre os resultados das eleições de 2026.
"Para um presidente ser reeleito ou eleger um sucessor, ele tem de ter um índice de 40% de ótimo ou bom", afirmou. Em 2014, a ex-presidente Dilma Rousseff tinha 42% de ótimo ou bom e se reelegeu, enquanto o ex-presidente Jair Bolsonaro tinha 38% em 2022 e perdeu a disputa, lembrou ele.
Mesquita disse, por outro lado, que é difícil fazer projeções sobre qual será o resultado da eleição, dada a distância do pleito. "Ainda tem muita água para rolar", afirmou.
Ele disse que o governo Lula exibe uma situação frágil no Congresso, refletida em notícias de que políticos do Centrão têm recusado ministérios. Isso deve se refletir em dificuldades na aprovação de medidas compensatórias à isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais, que incluem tributação de dividendos.
PIB
Mesquita disse que as projeções do banco para o PIB neste ano e no próximo têm viés de alta. Fatores como o consignado privado, que deve ter mais impactos no próximo ano, ajudam a explicar esse viés.
"Nós temos uma projeção de PIB de 2,2% este ano e de 1,5% no ano que vem, com viés de alta", disse. Segundo ele, a desaceleração da economia este ano diante da alta da Selic deve acontecer, mas só no segundo semestre. Antes disso, a retomada do agro deve aquecer a economia.
Mesquita calcula que as concessões do novo consignado devem ter impacto de 0,2 ponto porcentual a 0,6 ponto no PIB do País, com a maior parte desse impacto no próximo ano. "O novo consignado privado deve ter um impacto similar ao do consignado original", disse ele, referindo-se ao crédito criado em 2003, no primeiro governo Lula.
Segundo o economista, fatores como a troca de dívidas mais caras, como o crédito pessoal, por contratações na nova linha devem ajudar a dar impulso ao PIB. Efeito similar aconteceu há 20 anos com as primeiras linhas de consignado, lembrou.
Dólar
Para o economista, o dólar pode voltar a valorizar em todo o mundo se a economia americana enfraquecer a ponto de levar consigo o restante da economia global. Segundo ele, os EUA vivem um "choque de laboratório" com as medidas do presidente americano, Donald Trump.
"Se os Estados Unidos entrarem em uma recessão mais profunda que arraste a economia global, aí o dólar volta a se fortalecer por conta da aversão ao risco", disse.
De acordo com Mesquita, com a imposição de tarifas pela gestão Trump, a economia americana vive um "choque de laboratório" contracionista, dado que há uma reversão forte em relação ao padrão de abertura comercial anterior.
Ele afirmou ainda que o Brasil deve estar na lista de países que terão importações taxadas pelos EUA, porque o próprio Trump mencionou o País como um dos que praticam tributações a produtos americanos sem retribuições.