Para conter o avanço da extrema direita e o desrespeito à memória do Holocausto entre jovens, a exposição "Nunca mais" estreia na Alemanha. A iniciativa busca conectar a história ao presente diante do desaparecimento dos sobreviventes e de ataques à cultura de memória do país. Patrona do evento, a sobrevivente de Auschwitz Eva Umlauf alerta para a repetição do ódio, reforçando que as novas gerações não têm culpa pelos crimes passados, mas carregam a responsabilidade de defender a democracia.
Curador diz que é preciso lutar contra o esquecimento dos crimes do nazismo diante dos ataques à cultura alemã da memória e do distanciamento temporal dos jovens em relação ao período nazista.Jovens posam dentro do forno crematório do memorial do campo de concentração de Buchenwald, fazem a saudação nazista sorrindo e fotografam uns aos outros: incidentes desse tipo se multiplicaram nos últimos anos, diz Jens-Christian Wagner, diretor da Fundação dos Memoriais de Buchenwald e Mittelbau-Dora, à DW.
"São, por assim dizer, troféus que eles publicam nas redes sociais e dos quais se vangloriam. É a transgressão suprema de um tabu. Temos visto árvores memoriais em homenagem às vítimas dos campos de concentração serem serradas. Quando algo assim acontece, e acontece regularmente, considero isso particularmente perverso, porque, no fim das contas, essas pessoas são mortas uma segunda vez."
Wagner integra a equipe de curadores da exposição "Nunca mais - contra o esquecimento dos crimes nazistas", em exibição no museu Bundeskunsthalle, em Bonn, na Alemanha, até 2 de maio de 2027.
Segundo ele, a cultura alemã da memória está sob pressão e se tornou cada vez mais alvo de ataques agressivos. Fala-se em "culto da culpa" e "masoquismo nacional".
Diante do fortalecimento do populismo de direita e da crescente distorção da história, ele se preocupa tanto com a lembrança das vítimas do regime nazista quanto com a própria democracia.
Em breve, não haverá mais sobreviventes que possam contar a história do Holocausto, e a exposição busca enfrentar esse desafio por meio de numerosas obras de arte e testemunhos históricos.
O dedo em riste da moral
"Gostaria que viesse também um ou outro visitante que não saiba que é importante lidar com os crimes do nazismo", afirma Wagner. Ele diz conhecer esse público dos memoriais. São, em geral, estudantes. "Não nos enganemos. Quando um professor diz que vão visitar o local, no fim das contas trata-se de uma visita obrigatória."
O nazismo está muito distante para essa geração. "Quando se pede a eles que se lembrem de algo que nem seus avós viveram, isso naturalmente pode parecer uma sobrecarga emocional. É como se vissem constantemente um dedo moral apontando para eles, e isso está longe de favorecer o aprendizado."
Não adianta alguém fazer uma palestra expositiva de duas horas se muitos nem sequer prestam atenção. Por isso, em Buchenwald, aposta-se em programas de um dia inteiro nos quais os estudantes trabalham diretamente com fontes históricas e tentam compreender a história por conta própria.
Outra abordagem é mostrar aos jovens que essa não é uma história encerrada e estabelecer conexões com o presente. Um exemplo é o tema da migração. "Há muito tempo ele vem sendo discutido quase exclusivamente sob a ótica dos riscos para a segurança e da criminalidade. Certos grupos são estigmatizados e excluídos de forma generalizada, um mecanismo que também foi usado durante o nazismo."
O número tatuado no braço
Uma pessoa que conheceu essa exclusão em sua forma mais extrema é Eva Umlauf, a patrona da exposição em Bonn.
Em novembro de 1944, aos 2 anos, ela foi deportada com a mãe grávida e o pai do campo de trabalho eslovaco de Nováky para o campo de concentração e extermínio de Auschwitz-Birkenau. Ela escapou das câmaras de gás por apenas alguns dias, porque os nazistas interromperam o extermínio sistemático de suas vítimas com a aproximação do Exército Vermelho.
Em 27 de janeiro de 1945, o campo foi libertado. Três meses depois nasceu sua irmã, Nora. Mas seu pai, os irmãos da mãe e seus avós haviam sido assassinados. A própria vida de Eva esteve por um fio: ela sofria de tuberculose, raquitismo, coqueluche e edema causado pela fome. "Esqueça a criança, ela não vai sobreviver", disse um médico à sua mãe. Mas ele estava errado.
A mãe retornou com as duas filhas para Trenčín, na então Tchecoslováquia. Eva não se lembra do que vivenciou em Auschwitz, mas carrega profundamente o trauma de sua família. Sua mãe não falava sobre o assunto e, ainda assim, desde pequena ela sabia que era uma sobrevivente.
O nome do campo nunca era mencionado, mas uma frase surgia repetidamente: "Eles ficaram lá." Então Eva entendia que "eles" estavam mortos. E havia ainda aquele número tatuado em seu braço.
"Eu não consigo perdoar"
A mãe ensinou às filhas que não deveriam divulgar sua identidade judaica, pois o antissemitismo era amplamente disseminado também na Tchecoslováquia da época.
Eva sonhava em ser pediatra e estudou medicina. Na década de 1960, conheceu Jakob, que mais tarde se tornaria seu marido e que também havia sobrevivido ao Holocausto. Arquiteto, ele era ativo na comunidade judaica de Munique. Os dois se casaram em 1966, e Eva mudou-se para a Alemanha.
Ela jamais imaginou que retornaria para viver no país dos assassinos. "Eu não odeio os alemães, mas não consigo perdoar. Como alguém pode perdoar 6 milhões de mortos?"
Ela só começou a falar publicamente sobre os horrores de sua infância muito tarde. Em 2011, por ocasião do aniversário da libertação de Auschwitz, fez um discurso no local. Desde 2025, é presidente do Comitê Internacional de Auschwitz.
A ideia para seu primeiro livro surgiu após um infarto, em 2014. "Eu estava na unidade de terapia intensiva. Então pensei: se eu sair daqui saudável, vou escrever um livro."
Sua autobiografia, O número em seu antebraço é tão azul quanto seus olhos, foi publicada em 2016. Desde então quase não se passa um dia sem que ela seja convidada para contar sua história.
O comportamento desrespeitoso de alguns jovens nos memoriais dos campos de concentração a assusta, assim como a crescente falta de conhecimento sobre o Holocausto - já perguntaram a ela se não seria velha demais para ter uma tatuagem.
Mas ela também se recorda de um jovem que, ao notar seu número tatuado no metrô de Munique, lhe disse: "Gostaria de pedir desculpas pelo que meus antepassados fizeram com a senhora".
"Cuidem do seu país"
Eva Umlauf jamais imaginou que o antissemitismo voltaria a crescer com tanta força na Europa e nos Estados Unidos. Tampouco esperava o avanço do partido de ultradireita AfD, que as autoridades de proteção da Constituição da Alemanha consideram em parte extremista de direita.
"Eu vou às escolas, recebo tantos convites que mal consigo acompanhar, mas, no fim, a AfD cresce mais rápido do que a minha atuação. Às vezes parece que todo esse trabalho é em vão", afirma à DW.
Nunca mais, dia ela, uma ditadura de direita deve voltar ao poder na Alemanha. "'Nunca mais' soa bem, mas eu só posso dizer: 'Já de novo'. Será que 'Já de novo: nunca mais' não seria um bom título para uma exposição?"
Sua mensagem aos jovens também foi registrada no catálogo da exposição: "Vocês não têm culpa pelos crimes de seus avós e bisavós. Mas são responsáveis pelo futuro. Vocês são a geração que moldará o nosso mundo. Façam dele um lugar onde todos possam crescer em segurança, independentemente de sua origem, religião ou cor da pele."
E acrescenta: "Vocês não precisam ser perfeitos. Só precisam estar atentos. Cuidem do seu país."