Rei Charles III aposta em rito do trono, mas futuro do premiê britânico é incerto no Reino Unido

O rei Charles III pronunciou nesta quarta-feira (13) o tradicional discurso do trono em Westminster, apresentando as prioridades legislativas do governo trabalhista em meio a um cenário de forte incerteza sobre o futuro político de Keir Starmer. O ritual, marcado por pompa e repetido há séculos, contrastou com a turbulência que envolve o primeiro-ministro, cuja permanência em Downing Street, sede do governo britânico, é questionada até mesmo no curto prazo.

13 mai 2026 - 15h03

Poucos minutos antes da cerimônia, o jornal The Times publicou que aliados do ministro da Saúde, Wes Streeting, afirmavam que ele pretendia renunciar na quinta-feira (14) para disputar a sucessão de Starmer.

O premiê britânico havia recebido o ministro mais cedo, em uma reunião de menos de 20 minutos, e Streeting deixou o local sem fazer declarações. Ele é visto há meses como um dos principais rivais internos do primeiro-ministro.

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O discurso do trono ocorreu após dias caóticos para Starmer, pressionado a renunciar por 86 deputados trabalhistas - de um total de 403 - depois dos resultados desastrosos das eleições locais da semana passada e de uma série de polêmicas que desgastaram ainda mais sua liderança.

Na terça-feira (12), quatro secretários de Estado deixaram seus cargos em sinal de desafio. Em outro golpe político, sindicatos ligados ao Partido Trabalhista retiraram seu apoio ao premiê britânico, afirmando na plataforma X que "o Labour [sigla trabalhista] não pode continuar nesse caminho" e que será necessário organizar um processo para escolher um novo dirigente.

Starmer, por sua vez, declarou na terça-feira que pretende "continuar governando". Mais de 110 deputados trabalhistas assinaram uma carta em seu apoio, argumentando que "não é o momento de iniciar um processo de contestação da liderança".

Em comunicado divulgado por Downing Street, sede do governo britânico, o premiê afirmou que o Reino Unido vive "um momento decisivo: avançar com um plano para construir um país mais forte e mais justo ou retornar ao caos e à instabilidade do passado".

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O discurso do rei

No discurso escrito pelo governo, Charles III destacou que "um mundo cada vez mais perigoso e instável ameaça o Reino Unido, sendo o conflito no Oriente Médio apenas o exemplo mais recente".

A fala do monarca permite ao governo apresentar os projetos de lei que pretende enviar ao Parlamento nos próximos doze meses. Mais de 35 textos foram anunciados, abrangendo temas como a nacionalização da siderúrgica British Steel, políticas de energia verde e um possível reaproximação com a União Europeia.

Entre as medidas previstas estão a redução da idade mínima para votar para 16 anos e a reforma do sistema de direito de asilo, em um momento em que o número total de migrantes que cruzaram o Canal da Mancha em pequenas embarcações ultrapassou 200 mil desde o início dos registros em 2018. No entanto, quase todas essas iniciativas já haviam sido anunciadas anteriormente pelo governo, e nenhuma novidade relevante surgiu do discurso.

Charles III participou da cerimônia pela terceira vez desde que assumiu o trono em setembro de 2022. Como monarca, está obrigado a manter estrita neutralidade política. Ele discursou sentado em um trono dourado na Câmara dos Lordes, ao lado da rainha Camilla, em uma sessão marcada por tradições preservadas ao longo de séculos.

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Antes da chegada do rei ao Palácio de Westminster, guardas reais vasculharam os porões em busca de explosivos, em referência à fracassada tentativa de católicos de explodir o Parlamento em 1605. Como manda o protocolo, um deputado foi simbolicamente mantido como "refém" no Palácio de Buckingham para garantir o retorno seguro do monarca.

Com AFP

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