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'Quem faliu fomos nós': moradores afetados pela Braskem em Maceió temem impacto do pedido de recuperação extrajudicial

Empresa petroquímica pediu recuperação extrajudicial na segunda-feira (24/08) e acumula acordos e processos devido a afundamento do solo em bairros de Maceió detectado em 2018.

25 ago 2026 - 19h39
Resumo
O pedido de recuperação extrajudicial da Braskem para reestruturar US$ 10,9 bilhões gerou temor entre moradores e defensores públicos de Maceió, que receiam prejuízos no cumprimento de indenizações e reparações pelo afundamento do solo que desalojou 60 mil pessoas desde 2018. Enquanto a Defensoria Pública cobra cerca de R$ 17 bilhões em ações e alerta para riscos futuros, a petroquímica afirma que o processo é estritamente financeiro e não impactará os compromissos assumidos com as vítimas locais.
Segundo a Defesa Civil de Maceió, mais de 14 mil imóveis são parte da área de risco, dos quais 78% foram demolidos
Segundo a Defesa Civil de Maceió, mais de 14 mil imóveis são parte da área de risco, dos quais 78% foram demolidos
Foto: Secom Maceió / BBC News Brasil

Ao ler sobre o recente pedido de recuperação extrajudicial da Braskem, Jackson Douglas Ferreira de Souza, 45, pensa nos moradores que ainda tentam reconstruir a vida depois de perder suas casas, seus negócios e a vizinhança em Maceió.

Os bairros Pinheiro, Farol, Mutange, Bebedouro e Bom Parto foram afetados pelo afundamento do solo causado pela mineração da petroquímica.

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Desde 2018, cerca de 60 mil pessoas tiveram de deixar suas casas. Segundo a Defesa Civil, mais de 14 mil imóveis estão na região afetada pelo afundamento, dos quais 78% já foram demolidos.

"Quem faliu, quem quebrou e quem sente as consequências são os moradores dos bairros afetados, não a Braskem", afirma Jackson.

Agora, essas pessoas relatam temer que o pedido de recuperação extrajudicial da Braskem acabe deixando em segundo plano a responsabilização da empresa pelo ocorrido em Maceió.

O Movimento Unificado das Vítimas da Braskem (MUVB), do qual Jackson de Souza faz parte, questiona quem garantirá que a empresa terá condições de cumprir integralmente os compromissos assumidos com as vítimas — sejam acordos extrajudiciais em discussão, sejam eventuais condenações em processos judiciais em curso.

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"A recuperação extrajudicial não pode se transformar em instrumento para proteger a empresa enquanto milhares de famílias continuam esperando reparação integral, indenizações justas e, em algumas comunidades, uma solução definitiva para suas vidas", afirma o movimento.

Segundo Ricardo Melro, defensor público que acompanha os processos de várias vítimas, a recuperação extrajudicial traz inseguranças.

"A preocupação é com o futuro, principalmente com a capacidade da empresa de suportar novas condenações e, depois, de pagar os créditos das vítimas", explica o defensor.

A Braskem entrou na segunda-feira (24/08) com pedido de recuperação extrajudicial na Justiça de São Paulo. A empresa pretende reestruturar cerca de US$ 10,9 bilhões (cerca de R$ 56 bilhões) em dívidas financeiras.

À BBC, a empresa afirmou que a medida tem escopo "estritamente financeiro" e não inclui as obrigações assumidas em Maceió. Em nota, disse que a recuperação "não afeta o pagamento das indenizações e os compromissos assumidos em Maceió".

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Feridas abertas

Proprietários de imóveis que tiveram de ser realocados, como no bairro Bebedouro, deixaram mensagens
Foto: Neirevane Nunes/MUVB / BBC News Brasil

O afundamento do solo começou a ser identificado em 2018, quando tremores e rachaduras apareceram no Pinheiro. O problema se espalhou para os outros bairros.

A extração de sal-gema feita pela Braskem na região, iniciada em 1976 e interrompida em 2019, foi apontada como causa do fenômeno após relatório do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), em maio daquele ano.

A empresa decidiu fechar os poços de extração de sal-gema em novembro de 2019.

A previsão era que as atividades fossem encerradas em 2026.Questionada pela reportagem, a Braskem não respondeu sobre o andamento das obras para fechamento dos poços.

Também em 2019, foi iniciado o Programa de Compensação Financeira para indenizar proprietários de imóveis que tiveram de ser desocupados. Desde então, houve questionamentos sobre os valores oferecidos pela petroquímica, considerados baixos por muitos moradores afetados.

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Em dezembro de 2023, uma mina da empresa localizada no bairro do Mutange entrou em colapso parcial. O episódio levou a uma nova retirada de moradores, inclusive daqueles que haviam permanecido nas áreas afetadas apesar de alertas anteriores.

Segundo dados divulgados pela Braskem em agosto, o Programa de Compensação Financeira e Apoio à Realocação havia apresentado 19.205 propostas de indenização até o fim de junho, o equivalente a 100% das solicitações recebidas.

Desse total, 19.144 haviam sido aceitas e 19.132 pagamentos já tinham sido realizados. Dezoito propostas foram recusadas.

Somados os pagamentos de indenizações e aluguéis sociais, a companhia afirma ter pago R$ 4,25 bilhões desde a criação do programa, em 2019.

A Braskem também informou que 14.550 imóveis foram identificados como tendo necessidade de realocação. Segundo a empresa, a área classificada pela Defesa Civil como tendo o maior nível de preocupação já foi completamente desocupada.

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Em outra frente de acusação, a Justiça Federal em Alagoas aceitou parcialmente em junho uma denúncia do Ministério Público Federal contra a Braskem e 13 pessoas ligadas à mineração de sal-gema. A empresa é acusada de crimes ambientais e de apresentar estudos e relatórios ambientais falsos ou enganosos. Parte das acusações foi considerada prescrita, mas o processo seguirá em relação às demais.

Já nas 14 ações civis públicas conduzidas pela Defensoria Pública, as pretensões econômicas solicitadas em favor das vítimas chegam a aproximadamente R$ 17 bilhões, segundo o defensor público Ricardo Melro.

O valor inclui cerca de R$ 5 bilhões em pedidos de danos morais, R$ 4 bilhões pela desvalorização de imóveis no entorno das áreas afetadas, R$ 1,7 bilhão relacionado à comunidade dos Flexais (leia mais abaixo) e aproximadamente R$ 2 bilhões em uma ação que busca revisar o mapa de risco para incluir outras vítimas, além de outras demandas.

Melro afirma que poderá solicitar medidas judiciais, principalmente de caráter cautelar, caso identifique risco concreto para o cumprimento de indenizações e futuras condenações.

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"Tenho cerca de 30 anos de carreira jurídica e considero incomum o que temos visto em determinados processos do caso Braskem", afirma.

Segundo o defensor, o encerramento antecipado impede a análise de fatos novos e de estudos técnicos que surgiram durante o andamento das ações.

"No caso Braskem, surgiram novas evidências, novos estudos, inclusive internacionais, que demonstram erros de metodologia local, provas de captura de órgãos técnicos e novas situações que precisam ser enfrentadas. O que a Defensoria pede é simples: primeiro conheça toda a realidade, permita a produção das provas e, só depois, decida", diz.

A Defesa Civil de Maceió continua monitorando a região.

Os dados mais recentes apontam redução na velocidade do processo de afundamento do solo.

O órgão avalia a possibilidade de reduzir a área de monitoramento, mas afirma que precisa de mais estudos para confirmar a possível redução na velocidade do afundamento.

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O caso dos Flexais

Os Flexais estão localizados em Bebedouro, mas não estão incluídos na área diretamente afetada pelo afundamento.

Os moradores ali permaneceram, mas bairros próximos foram esvaziados. Por isso, o movimento das ruas e o comércio local foram afetados.

Há placas espalhadas pela região lembrando que ainda existem moradores ali.

Por meio de acordos firmados com a Prefeitura de Maceió, a Braskem realiza obras estruturantes nos Flexais. Para Valdemir Alves dos Santos, 55, que vive na região e mantém um comércio, as intervenções não recuperaram a vida que existia antes do esvaziamento do entorno.

"Não teve uma melhoria que trouxesse a alegria que sentíamos antes de tudo isso. A Braskem tenta com paliativos e maquiagem esconder o que fez com as nossas vidas", diz.

Valdemir afirma que o comércio está falido. Para ele, o pedido de recuperação extrajudicial é mais uma forma de a empresa se afastar das consequências do desastre.

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Ele também participa da mobilização por indenizações para moradores que foram afetados indiretamente pelo desastre, por suas consequências econômicas, como é o caso dos Flexais.

Segundo Valdemir, uma ação civil pública movida pela Defensoria Pública de Alagoas é uma das frentes em que os moradores aguardam uma resposta.

"Sem realocação com a indenização justa, a gente não consegue dar seguimento às nossas vidas. [...] Eu preciso de viver minha vida", afirma.

A recuperação extrajudicial

Placa da Braskem ao lado de prédio que precisou ser evacuado em Maceió
Foto: Maira Erlich/Bloomberg via Getty Images / BBC News Brasil

O plano de recuperação extrajudicial solicitado na segunda-feira envolve a Braskem e cinco empresas do grupo no exterior.

O pedido trata exclusivamente de dívidas financeiras, deixando de fora obrigações operacionais com fornecedores, clientes e prestadores de serviços.

O pedido foi apresentado com o apoio de credores que representam 39,6% dos créditos sujeitos à reestruturação. O percentual supera o mínimo de um terço exigido para o protocolo.

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A partir do pedido feito na segunda-feira, a Braskem entrou em um período de 90 dias de proteção, durante o qual os credores incluídos no plano não podem cobrar judicialmente as dívidas abrangidas nem adotar determinadas medidas contra os ativos das empresas.

Nesse período, a companhia terá de negociar com os demais credores para obter apoio suficiente à aprovação do plano definitivo. Até 31 de agosto, deve apresentar uma versão atualizada do plano de negócios e uma proposta comercial detalhada.

As negociações sobre as principais condições comerciais têm prazo até 9 de outubro.

O plano prevê ainda a possibilidade de converter parte dos créditos em ações da companhia, fazendo com que alguns credores se tornem acionistas.

Enquanto isso, em relação ao desastre em Maceió, a Braskem já tem compromissos com indenizações a proprietários de imóveis, além de acordos com a Prefeitura de Maceió e o Governo de Alagoas.

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O acordo com a Prefeitura de Maceió foi fechado em julho de 2023 e estabeleceu R$ 1,7 bilhão em indenização global.

Em novembro de 2025, a Braskem também assinou um termo com o Governo de Alagoas, no valor de R$ 1,2 bilhão, dividido em dez parcelas anuais.

A reportagem questionou a Justiça Federal e o Ministério Público Federal em Alagoas a respeito da recuperação extrajudicial, mas os órgãos informaram que não vão se posicionar neste momento. A Agência Nacional de Mineração (ANM) não respondeu às perguntas enviadas.

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