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Ofensiva econômica dos EUA testa economia paralela do Irã

25 ago 2026 - 17h51
Resumo
Os Estados Unidos intensificaram as sanções econômicas contra o Irã, visando intermediários e rotas paralelas usadas por Teerã para movimentar recursos, acessar moeda estrangeira e exportar petróleo. O endurecimento foca em ativos digitais, tecnologia, ouro e transporte. Apesar de agravar a já severa crise inflacionária e prejudicar empresas locais, analistas alertam que a medida dificilmente alterará a postura do regime e pode acabar fortalecendo ainda mais o mercado clandestino.

Washington quer estrangular redes usadas por Teerã para contornar sanções e acessar moeda estrangeira. Mas estratégia pode surtir o efeito contrário, alerta especialista.A nova fase da ofensiva econômica dos Estados Unidos contra o Irã pode atingir também a rede internacional que Teerã utiliza para movimentar recursos financeiros e mercadorias.

O resultado prático é uma possível pressão sobre intermediários, tornando mais difícil e mais caro para Teerã realizar transações internacionais, exportar petróleo e acessar moeda estrangeira. O país já enfrenta uma forte inflação.

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Em discurso nesta segunda-feira (24/08), o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, afirmou que os EUA passarão a mirar cinco "linhas de sustentação" da economia iraniana: ativos digitais, tecnologia, ouro, aviação e transporte marítimo. Ele também advertiu empresas e intermediários estrangeiros que auxiliem o país a transferir recursos de forma considerada ilícita.

"Qualquer entidade que facilite a lavagem de dinheiro para o Irã será excluída do sistema financeiro baseado no dólar. A contagem regressiva começa agora", disse.

A estratégia busca reforçar as chamadas sanções secundárias, pressionando empresas, instituições financeiras e parceiros comerciais fora do Irã, em vez de apenas ampliar restrições sobre uma economia que já enfrenta amplo isolamento.

Washington anunciou medidas contra cerca de 60 indivíduos, empresas e embarcações. No entanto, a iniciativa, propagandeada inicialmente pelo presidente Donald Trump como um "Dia D econômico", evitou atingir bancos chineses e ficou em grande parte no terreno das ameaças.

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Como o Irã contorna as sanções

Há anos, o Irã depende de mecanismos paralelos ao sistema bancário formal para movimentar recursos. Casas de câmbio, ouro, criptomoedas, empresas de fachada e redes marítimas pouco transparentes ajudam o país a reduzir os efeitos das sanções.

A nova estratégia americana pretende dificultar essas operações ao elevar os custos para intermediários estrangeiros. A iniciativa ocorre em um momento de fragilidade econômica para o Irã.

As exportações de petróleo caíram significativamente após os esforços dos EUA para interromper os embarques iranianos. As vendas para a China, principal comprador do petróleo iraniano, recuaram para cerca de 534 mil barris por dia em agosto, ante 823 mil em julho e um pico próximo de 1,58 milhão de barris no início do ano.

O governo chinês disse que "fará o que for necessário" para defender seus direitos e interesses, após a ofensiva americana.

No mercado interno iraniano, os preços dos alimentos registraram alta de aproximadamente 128% em julho na comparação anual, segundo dados oficiais citados pela agência Reuters.

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A desvalorização da moeda iraniana chegou a tal ponto que muitas transações, incluindo a compra e venda de imóveis e veículos, passaram a ser realizadas em dólares. Em alguns casos, anúncios de produtos e serviços também são divulgados na moeda americana.

Inflação pressiona empresas

Os efeitos da crise já são visíveis entre empresários.

Um comerciante de materiais de construção em Teerã afirmou à DW que a inflação se tornou tão intensa que, em alguns casos, armazenar mercadorias gera mais ganhos do que vendê-las.

"Se eu guardar um produto no depósito por um mês, o preço pode subir mais do que o lucro que teria ao vendê-lo hoje", disse.

Ele também administra uma empresa de corte de pedras e relatou dificuldades crescentes para cumprir contratos antigos, já que a reposição dos materiais costuma custar muito mais algumas semanas depois. Ao mesmo tempo, aumentar os preços nem sempre é uma solução.

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"Se elevar o valor além de certo ponto, ninguém consegue comprar", afirmou.

As restrições também afetam a capacidade das empresas de pagar fornecedores, importar insumos e manter empregos.

Um funcionário de uma empresa de comércio exterior disse à DW que mais de 70% dos empregados foram demitidos nos últimos seis meses.

Segundo ele, a companhia importava matérias-primas para produtos de uso pessoal e costumava efetuar pagamentos por meio de casas de câmbio nos Emirados Árabes Unidos.

"Agora nenhuma casa de câmbio aceita trabalhar conosco", relatou.

Impacto sobre empresários iranianos no exterior

As consequências das sanções também atingem empresários iranianos que vivem fora do país.

Um empresário que se mudou para Dubai contou à DW que os negócios nos Emirados Árabes Unidos eram mais simples antes do conflito, mas a situação mudou.

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"Hoje, ter um passaporte iraniano torna quase qualquer transação mais difícil", afirmou.

Segundo ele, muitos empreendedores enfrentam incertezas sobre a manutenção de contas bancárias e possíveis mudanças nas regras de residência.

"Sem estabilidade e com perspectivas pouco claras, é muito difícil administrar um negócio", disse.

As novas sanções podem mudar o comportamento de Teerã?

Para Alireza Salavati, comentarista de economia política radicado em Londres, as novas medidas dificilmente provocarão uma mudança estratégica por parte do governo iraniano.

Segundo ele, praticamente todos os principais setores da economia do país já estão sujeitos a sanções. Assim, a novidade estaria mais relacionada ao reforço da fiscalização de redes existentes do que à criação de novos instrumentos de pressão.

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"Os efeitos tendem a ser principalmente psicológicos, intensificando as expectativas inflacionárias", avaliou.

Salavati também alerta que a pressão econômica pode enfraquecer os grupos de renda média e os profissionais que tradicionalmente oferecem espaço para posições políticas mais moderadas.

Em vez de promover mudanças rápidas, acredita ele, as sanções podem aprofundar a polarização e levar o Estado a reduzir subsídios e programas de assistência social já limitados.

O risco de fortalecimento da economia paralela

Há ainda um efeito colateral potencial. Quanto mais os EUA restringem os canais financeiros formais, maior tende a ser o incentivo para o desenvolvimento de mecanismos informais.

A economia iraniana já conta com redes complexas de intermediários, transferências via criptomoedas, empresas de fachada, operações em dinheiro vivo e mercados cambiais paralelos.

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Fechar uma rota pode tornar as transações mais caras, mas não necessariamente impedi-las.

"A consequência mais ampla provavelmente será corrosiva, e não transformadora", afirmou Salavati, advertindo que o resultado pode ser a expansão de uma economia subterrânea ainda maior e menos controlada.

As novas sanções podem dificultar o financiamento do comércio exterior iraniano, a obtenção de moeda forte e a manutenção das redes econômicas que sustentam parte da atividade do país. No entanto, os impactos imediatos já recaem sobre empresas, trabalhadores e famílias que enfrentam inflação elevada e os efeitos da guerra.

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