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Influenciadora que sofreu lesão na coluna volta a mexer o braço após receber polilaminina

Uso compassivo de medicamento experimental desenvolvido pela UFRJ reacende debates sobre ciência, esperança e os limites da pesquisa clínica

28 jan 2026 - 17h52
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Um pequeno movimento que carrega um significado imenso. Um vídeo compartilhado pela família da nutricionista e influenciadora Flávia Bueno, de 35 anos, mostrando a jovem mexendo o braço direito, reacendeu a esperança de milhares de pessoas que acompanham sua recuperação. O gesto aconteceu após a aplicação da polilaminina, um medicamento experimental desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para o tratamento de lesões na medula espinhal.

Entenda o que é a polilaminina, medicamento experimental para lesão medular, e como foi utilizado no caso de Flávia Bueno
Entenda o que é a polilaminina, medicamento experimental para lesão medular, e como foi utilizado no caso de Flávia Bueno
Foto: Reprodução/Instagram / Bons Fluidos

Flávia sofreu um grave acidente no dia 3 de janeiro, durante um mergulho na praia de Maresias, no litoral Norte de São Paulo. A lesão atingiu a medula nas vértebras C3, C4 e C5, região responsável por funções motoras e respiratórias importantes. Desde então, ela está internada na UTI do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

O que é a polilaminina e por que ela chama atenção

A polilaminina é resultado de mais de duas décadas de pesquisa científica. Trata-se de uma substância desenvolvida a partir da laminina, uma proteína presente no desenvolvimento embrionário e fundamental para a comunicação entre os neurônios. Quando ocorre uma lesão medular, elas danificam estruturas chamadas axônios - responsáveis por transmitir os sinais entre o cérebro e os músculos. A proposta do medicamento é estimular a regeneração dessas conexões.

Nos estudos preliminares, realizados com cães e um pequeno grupo de oito voluntários humanos tratados na fase aguda da lesão (até 72 horas após o trauma), os resultados foram variados. Alguns pacientes apresentaram recuperação significativa dos movimentos, enquanto outros tiveram melhora parcial.

A aplicação é feita diretamente na medula espinhal, durante cirurgia, e ocorre apenas uma vez. A formulação atual utiliza uma laminina injetável que passa por um processo chamado polimerização, que aumenta sua potência ao unir moléculas menores em uma estrutura maior.

Por que o tratamento ainda é experimental

Apesar dos resultados promissores, a polilaminina ainda não concluiu todas as etapas exigidas para aprovação regulatória. No início deste mês, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início da primeira de três fases dos testes clínicos em humanos.

Essa fase inicial tem como objetivo principal avaliar a segurança da substância e possíveis efeitos colaterais. O estudo contará com apenas cinco voluntários, entre 18 e 72 anos, que tenham lesão completa da medula torácica (entre T2 e T10), com indicação cirúrgica e menos de 72 horas de lesão. Por esses critérios, Flávia não se enquadra no perfil do estudo.

Ainda assim, devido à gravidade do quadro e à ausência de alternativas terapêuticas, a família obteve uma liminar judicial que permitiu o uso compassivo do medicamento - modalidade prevista pela Anvisa para situações excepcionais.

Uso compassivo: o que isso significa na prática

O uso compassivo permite que pacientes fora de estudos clínicos tenham acesso a medicamentos experimentais em casos graves. Estima-se que cerca de 15 pessoas no Brasil já tenham recebido a polilaminina por essa via.

No entanto, os próprios pesquisadores fazem um alerta importante. Esses casos não seguem o protocolo rigoroso de pesquisa clínica e, por isso, não geram dados suficientes para comprovar eficácia ou segurança do tratamento.

"Não conseguimos acompanhar as pessoas, dar o melhor suporte e nem coletar os dados de que a Anvisa precisa. Estávamos usando uma droga experimental sem a proteção do estudo clínico", explicou Tatiana Sampaio, chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular da UFRJ e responsável pelo projeto, em entrevista ao g1.

O que esperar das próximas fases da pesquisa

Segundo Tatiana, a expectativa é que a fase 1 do estudo clínico comece em breve e avance rapidamente, já que envolve poucos participantes. Caso os resultados sejam positivos, o medicamento pode seguir para as fases 2 e 3, que avaliam eficácia em maior escala.

A pesquisadora não descarta, inclusive, uma autorização excepcional antes da conclusão de todas as etapas. Considera-se que se trata de uma condição rara, extremamente grave e sem opções terapêuticas eficazes atualmente.

"Acredito que essa primeira etapa vai começar dentro de um mês e vai ser rápida, porque é para apenas 5 pacientes. E a captação dos pacientes não deve demorar porque está havendo muita divulgação sobre o estudo, então os médicos vão estar atentos para informá-los sobre a possibilidade. Minha expectativa é que vamos começar a fase 2 provavelmente em menos de um ano e, se ela tiver bons resultados, que poderemos ter uma aprovação excepcional para uso antes da fase 3."

Esperança, ciência e cautela caminham juntas

A aplicação em Flávia foi realizada no Hospital Albert Einstein, por médicos e pesquisadores ligados ao laboratório Cristália, responsável pelo desenvolvimento industrial da substância. A família relata que o movimento do braço não existia antes da aplicação, o que trouxe emoção e esperança.

Ainda assim, especialistas reforçam: é cedo para estabelecer uma relação direta entre o medicamento e a melhora observada. O momento pede cautela, acompanhamento rigoroso e respeito ao tempo da ciência. Enquanto isso, o caso de Flávia lança luz sobre o avanço da pesquisa brasileira, a importância dos estudos clínicos e o impacto que a ciência pode ter na vida real - mesmo quando cada pequeno movimento já representa uma grande conquista.

Bons Fluidos
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