Grazi Massafera reflete sobre 'Dona Beja': 'Não aceita padrões'
Quarenta anos após a versão da Manchete, 'Dona Beja' retorna em produção que amplia o olhar sobre julgamentos e convenções sociais
Ana Jacinta de São José entrou para a história antes mesmo de virar personagem. Conhecida como Dona Beja, ela se transformou em lenda no século 19 ao desafiar padrões rígidos de comportamento impostos às mulheres. Independente, mãe solo e alvo constante de julgamentos, sua trajetória atravessou décadas em romances, novelas e versões nem sempre fiéis aos fatos.
Agora, quarenta anos após a adaptação exibida pela Rede Manchete com Maitê Proença, ela retorna em uma nova produção da HBO Max. A série, protagonizada por Grazi Massafera, estreia em 2 de fevereiro e propõe uma releitura que dialoga diretamente com o presente, sem a intenção de refazer a obra original.
"A gente enfia o dedo na ferida da sociedade e vai ter de tudo nesta novela. A personagem abre portas e caminhos. Ela me trouxe muita força. Acho que foi a primeira vez que encarno uma personagem com toda a minha força. Até agora é a personagem que amei fazer", afirmou a atriz ao comentar o tom da produção durante a coletiva de imprensa. Segundo a atriz, a proposta é usar um enredo de época para provocar reflexões contemporâneas, especialmente sobre estruturas que seguem intactas ao longo do tempo.
A nova versão de Dona Beja
A nova Beja continua sendo vista como uma figura transgressora, rotulada como escandalosa por romper convenções morais. Mas, desta vez, a narrativa vai além do romance e da fama de cortesã. "A novela original já mostrava uma mulher à frente do seu tempo. Mas hoje o horizonte dela é muito mais longe. A sociedade mudou menos do que a gente gostaria, mas a nossa consciência sobre essas questões se ampliou", explicou o autor Daniel Berlinsky.
Temas como racismo, machismo, homofobia, transfobia e desigualdade social atravessam a trama sem serem deslocados de seu contexto histórico. Para Berlinsky, o desconforto é intencional, já que ele define a obra como uma "novela incômoda" e reforça o convite ao público. "A única coisa que eu peço é: pense, ache o que você quiser, mas se permita sentir."
Protagonista e autor refletem sobre a obra
Grazi também reconhece que a produção não busca unanimidade. "Os mais conservadores vão dizer que é lacração. E isso é bom também. A gente quer isso. Porque quando você mexe, quando você provoca, você obriga a sociedade a se olhar no espelho", disse ela.
Na interpretação da atriz, Dona Beja deixa de ser apenas um símbolo erótico para assumir o centro como uma mulher potente, autônoma e consciente de si. "A Beja ensina sobre resistência e persistência, a fazer do limão a limonada. Ela é o tipo de mulher que eu quero ser e venho me transformando. Ela rompe barreiras, não aceita padrões, abraça minorias... Sou mulher, solteira, livre, faço o que eu quero, mas sou subjugada em relação à minha beleza, a não poder envelhecer, à minha filha... Esse julgamento [em cima da mulher] continua. Mulheres como Beja abriram e abrem portas, quero ser uma dessas mulheres. Estou sempre me descontraindo e construindo em uma versão melhor. Ela desafia! Eu sou uma mulher assim e educo a minha filha para ser assim."
A reconstrução histórica é outro pilar da série. Durante a pesquisa, Berlinsky se deparou com distorções acumuladas ao longo dos anos sobre a figura real que inspirou a personagem. "O que se sabe de verdade sobre ela cabe em meia página. Ela era uma mulher solteira, com duas filhas, que se sustentava sozinha. Só isso já bastava para virar escândalo", afirmou.
A partir dessa base, a trama amplia o olhar para personagens e experiências apagadas pela narrativa oficial da história brasileira. "Descobri que, em 1872, três em cada quatro negros no Brasil já não estavam mais no cativeiro. Ninguém aprende isso na escola", disse o autor. "Existiram negros com posses, com terras, com poder político. Eles sempre estiveram aqui. A gente só não foi autorizado a ver."
A importância da história
A diversidade atravessa tanto os temas da história quanto a construção dos personagens. David Júnior, que interpreta Antônio, par romântico da protagonista, destaca a importância dessa abordagem. "Me sinto muito honrado de poder representar um personagem que tinha posses, que tinha terras, herança, que tinha o poder de existir, de sonhar e não só de sobreviver."
Ao final, Grazi reforça a dimensão atual da narrativa. "Essa história não é só sobre o passado. É sobre agora. Sobre todas as mulheres e pessoas que foram julgadas, apagadas, silenciadas e que continuam aqui."
Além de David Júnior e Grazi Massafera, Dona Beja reúne grandes nomes como André Luiz Miranda, Deborah Evelyn, Erika Januza e Indira Nascimento, e a diversidade atravessa tanto os temas da história quanto a construção dos personagens.
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