América Latina: 25% dos alunos já sofreram bullying nas escolas, diz estudo
Dados recentes mostram aumento na persistência das agressões entre estudantes e reforçam a urgência de ações de prevenção dentro e fora da escola
A violência entre estudantes está longe de ser um problema isolado - e os números mais recentes deixam isso claro. Um levantamento divulgado no começo de 2026 pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) em parceria com o UNICEF mostrou que um em cada quatro adolescentes de 13 a 17 anos sofre bullying na escola na América Latina. Ao mesmo tempo, o estudo revelou outro dado preocupante: seis em cada 10 crianças e adolescentes de até 14 anos enfrentam algum tipo de disciplina violenta dentro de casa.
Quando se observa o cenário brasileiro, o retrato também chama atenção. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do IBGE, indicam que quatro em cada dez adolescentes dizem já ter sido alvo de bullying. Mais do que a frequência, o que preocupa especialistas é a persistência dessas agressões, que têm se tornado mais repetidas e intensas.
Uma violência que afeta o ambiente inteiro
Embora muita gente ainda associe o bullying apenas à relação entre vítima e agressor, educadores alertam que o problema contamina todo o espaço escolar. Ele altera a convivência, fragiliza vínculos e transforma a escola em um ambiente emocionalmente inseguro.
"Muitas vezes, cria-se um senso comum de que o bullying se restringe à vítima e ao agressor, e não é verdade. Quando a gente tem uma situação como essa, estamos falando de um ambiente muito ruim, um ambiente tóxico", afirma Fernanda Lucena, professora de Educação Socioemocional, em entrevista ao Jornal Nacional.
É justamente por isso que algumas escolas brasileiras passaram a tratar o tema como parte da formação dos alunos, e não como uma conversa pontual em momentos de crise. O enfrentamento ao bullying foi incorporado ao próprio projeto pedagógico, com encontros regulares conduzidos pela orientação educacional, escuta ativa, mediação de conflitos e estímulo à autonomia moral dos estudantes. Afinal, não basta apenas proibir comportamentos agressivos. É preciso ajudar crianças e adolescentes a reconhecer limites, valores e responsabilidades diante do outro.
Os números mostram que o problema cresceu
De acordo com o IBGE, 39,8% dos estudantes brasileiros de 13 a 17 anos relataram ter sofrido bullying na escola. Entre as meninas, esse percentual sobe para 43,3%. Já 27,2% afirmaram ter passado por humilhações e provocações duas vezes ou mais, o que reforça o caráter repetitivo da violência.
Na comparação com a edição anterior da pesquisa, feita em 2019, o total de estudantes que disseram já ter sofrido bullying aumentou pouco. O que avançou de forma mais expressiva foi a repetição dos episódios. Esse dado é importante porque mostra que o impacto do bullying não está apenas em sua existência, mas na constância com que ele atravessa a vida escolar de muitos adolescentes.
Aparência, corpo, raça e gênero estão entre os principais alvos
Quando os estudantes explicam por que foram atacados, a aparência aparece como o motivo mais frequente. Em 30,2% dos casos, o alvo do bullying foi o rosto ou o cabelo. Em seguida, surgem a aparência do corpo, com 24,7%, e a cor ou raça, mencionada em 10,6% das situações.
Também chamam atenção os episódios ligados a gênero, orientação sexual e deficiência. Entre os autores de bullying, 12,1% admitiram ter cometido agressões motivadas por gênero ou orientação sexual dos colegas. Já 7,6% reconheceram ter praticado violência por causa de deficiência.
Mas há uma diferença importante entre o que relatam os agressores e o que as vítimas conseguem nomear. Enquanto parte dos autores admite esses motivos, muitos estudantes atacados não associam claramente a agressão a essas características. Para pesquisadores, isso pode estar ligado ao medo, à vergonha ou à dificuldade de falar sobre formas de discriminação que ainda carregam forte estigma. Outro dado que chama atenção é que 26,3% dos alunos afirmaram não saber por que sofreram bullying.
Meninas sofrem mais - e de formas diferentes
Os dados mostram que as meninas aparecem com mais frequência entre as vítimas, tanto no bullying presencial quanto no virtual. No ambiente escolar, elas relatam mais humilhações e provocações recorrentes. Já no cyberbullying, a diferença também é significativa: 15,2% das meninas disseram já ter se sentido humilhadas ou ameaçadas por conteúdos publicados em redes sociais ou aplicativos, contra 10,3% dos meninos.
Embora o percentual geral de bullying virtual tenha recuado levemente, passando de 13,2% para 12,7%, o problema segue grave justamente porque ultrapassa os muros da escola e invade a rotina sem pausa. Esse sofrimento contínuo ajuda a entender outro dado preocupante da pesquisa: quase 29% dos estudantes afirmaram se sentir tristes sempre ou na maior parte do tempo. Mais uma vez, as meninas concentram os índices mais altos.
Redes sociais, autoestima e sofrimento psíquico
A pesquisa também trouxe sinais de piora na relação dos adolescentes com a própria imagem. Desde 2015, a satisfação com o corpo caiu de 70% para 58%, o que sugere um aumento importante do desconforto com a aparência ao longo dos anos. Para especialistas, esse cenário não pode ser desconectado do impacto das redes sociais, dos filtros e dos padrões estéticos inalcançáveis que circulam online o tempo todo.
Quando bullying, comparação constante e vulnerabilidade emocional se encontram, o resultado pode ser devastador. Tristeza persistente, queda da autoestima, isolamento e sofrimento psíquico passam a fazer parte do cotidiano de muitos adolescentes.
Prevenção ainda não chegou a todos
Apesar da gravidade do cenário, as ações de prevenção ainda alcançam uma parcela limitada dos estudantes. Segundo o IBGE, apenas 53,4% dos alunos estavam matriculados em escolas que aderiram ao Programa Saúde na Escola (PSE), voltado à promoção do bem-estar e da saúde no ambiente escolar.
Quando se olha especificamente para medidas de prevenção ao bullying, o alcance é ainda menor: só 43,2% dos estudantes frequentavam unidades que haviam realizado ações nesse sentido. No caso de iniciativas para evitar brigas e conflitos nas dependências escolares, o índice cai para 37,2%. Os dados mostram que o debate avançou, mas ainda de forma desigual.
O que pais e responsáveis precisam observar
Especialistas reforçam que nem sempre o bullying aparece de forma evidente. Muitas vezes, ele se manifesta em mudanças sutis no comportamento: recusa em ir à escola, isolamento, alterações no sono, irritabilidade, queda no rendimento ou tristeza constante.
Nesses casos, o mais importante é abrir espaço para conversa sem julgamento e sem sermão. Ficar atento às mudanças de comportamento e ser um porto seguro para o jovem é fundamental. Mais do que buscar culpados, o desafio é construir redes de proteção. Isso envolve escola, família e sociedade.
Os números deixam claro que o bullying não é um problema secundário da vida escolar. Ele afeta a aprendizagem, a autoestima, a saúde mental e o senso de pertencimento de crianças e adolescentes. Tratar o tema com seriedade significa reconhecer que educação também passa por vínculos, escuta e convivência. Em um tempo em que a agressão pode acontecer no corredor da escola e continuar madrugada adentro na internet, falar sobre o assunto já não é suficiente: é preciso agir de forma consistente, coletiva e contínua.
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