'A pizza foi feita', diz família de brasileiro morto na Austrália
- Liz Lacerda
- Direto de Sydney
A família do estudante brasileiro Roberto Laudisio Curti considerou absurda a decisão da magistrada Mary Jerram, que recomendou apenas punições disciplinares aos policiais envolvidos na morte do jovem. Aos 21 anos, Laudisio morreu em custódia da polícia australiana, no dia 18 de março deste ano, em Sydney, após ter sido atingido por 14 disparos de taser. "Há uma total desconexão entre o arrazoado da juíza e esta conclusão. É uma conclusão absurda. Isto foi absolutamente frustrante e faltou justiça", lamentou Domingos Laudisio, tio do jovem.
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Domingos Laudisio ressalta que existe um grande sentimento de frustração entre os familiares. "Deram migalhas à família para dizer que houve punições aos policiais. Mas a pizza foi feita", acrescentou. Comparando com o caso Jean Charles de Menezes (morto pela polícia de Londres em 2005), Domingos considera que houve um avanço, porque agora poderão ser aplicadas penas disciplinares. "Ainda assim, evitaram as punições para os atos criminosos dos policiais pensando que podiam demonstrar legalmente que haveria justiça", concluiu.
Como a causa exata da morte não foi determinada, a magistrada argumentou que seria impossível acusar individualmente os policiais, mas reconheceu a responsabilidade da polícia. "O próprio arrazoado da juíza fala da violência, brutalidade e falta de sentido nas ações dos policiais, mas não endereça a questão da tortura nem a questão da morte como resultado destas ações", diz.
A família considera que houve tortura e, em função disso, cogita recorrer a tribunais internacionais. Roberto recebeu 14 disparos de armas de choque (taser), e duas latas e meia de spray de pimenta foram aplicadas diretamente sobre seu rosto, depois que já estava algemado. De acordo com um dos policiais, "havia cerca de meia tonelada de peso" sobre o estudante para mantê-lo no chão. "A alegação dos policiais para estes atos (taser e spray de pimenta após imobilização) foi de "pain compliance" (obrigar a cumprir as ordens deles através da imposição de forte dor). A utilização de dor para se obter atitudes de uma pessoa após esta ser imobilizada/presa é considerada tortura pela Convenção das Nações Unidas sobre Tortura. E como resultado desta tortura o Roberto morreu", avaliou Domingos.
Os policiais envolvidos na morte do estudante perderam o direito de usar as armas de choque (taser), até que sejam aprovados em um novo curso de treinamento. A informação foi confirmada nesta quinta-feira por um porta-voz do Departamento de Polícia do Estado de New South Wales, na Austrália. Eles continuam exercendo as atividades normalmente, inclusive carregando armas de fogo, até que a Comissão de Integridade da Polícia apresente suas conclusões sobre a aplicação de penas disciplinares.
A ONG Associação de Justiça Social para os Indígenas (ISJA), que luta pelos direitos dos aborígenes australianos, concorda. "O inquérito comprovou que Roberto foi torturado durante os procedimentos de imobilização. As pessoas vão zombar do meu comentário porque a Austrália não é reconhecida pela tortura (nós fazemos, mas essa é outra história envolvendo os refugiados mantidos em centros de detenção)", declarou o presidente Ray Jackson. Ele lamentou, ainda, que a punição disciplinar dos policiais será avaliada por uma comissão interna. "A juíza colocou a decisão novamente nas mãos da própria polícia. Historicamente, sabemos que não haverá nenhuma mudança real. Estão acobertando", concluiu.