Ela namorou um espião russo infiltrado no Brasil por anos sem saber: 'Ferida aberta'
Stephanie Arcanjo descobriu a identidade verdadeira do ex-companheiro ao ser notificada pela Polícia Federal
A brasileira Stephanie Arcanjo namorou um espião russo infiltrado no Brasil sem saber. O homem se apresentava como Eric Fauchere, e eles se conheceram em uma balada na Vila Olímpia, em São Paulo. “Ele era um gentleman”, relembra. No fim, ficaram cinco anos juntos --e apenas no ano passado, quando recebeu uma intimação da Polícia Federal para depor, a mulher descobriu a real identidade do ex-companheiro.
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Eles se conheceram em 2018. Em entrevista à revista GQ Brasil, ela explica que ele dizia ser um investidor brasileiro que foi criado na França pelo pai português e que era filho de uma mulher francesa que morreu após o parto. Sobre sua história, ele contava que aos 20 anos se mudou para a Bélgica e, aos 30, voltou a morar no Brasil.
No início do relacionamento, como relembra, ele parecia “meio perdido” sobre o que fazer na vida, e que focava em atividades de investimentos financeiros. Não se interessava por futebol, nem pela música brasileira. Um de seus poucos interesses era uma coleção de pedras preciosas que tinha, e Stephanie resolveu ajudar o então namorado a empreender na área.
Ela sugeriu a abertura de uma joalheria, ele gostou da ideia e a convidou a iniciar a empresa com ele. Juntos, então, criaram a Esfel Jewelry, joalheria instalada em um prédio ao lado do Masp, na Avenida Paulista. De alto padrão, com peças personalizadas e exclusivas, a loja só recebia clientes com hora marcada e fazia vendas pela internet.
“Era novo para mim: saber que estava construindo uma vida juntos. Eu tinha esperança de ser alguém que ia estar aqui comigo por um bom tempo”, aponta a brasileira à revista.
Antes da pandemia, ele disse que iria para a França aprofundar seus conhecimentos sobre pedras preciosas enquanto a companheira seguia cuidando da empresa no Brasil. Mas, com o isolamento social, ele acabou ficando de vez no Brasil. O estranho é que ele dizia participar de aulas, e falava em chamadas de vídeo com pessoas em francês, mas Stephanie nunca viu nenhum certificado de curso e o assunto se perdeu, relembra.
Depois da pandemia, entre viagens para fora do Brasil, o homem propôs fechar a loja de São Paulo e passar a unidade para Brasília, onde poderiam morar juntos – e Stephanie poderia levar junto a sua filha, fruto de outra relação. Oficialmente, ele ainda não tinha a pedido em namoro, e isso soou como a oficialização que faltava. “Era tipo um sonho para uma pessoa que saiu da periferia tava vivendo um sonho. Eu estava vivendo o meu sonho de fadas”, relembra.
Eles passaram a morar em uma casa grande em Brasília e a frequentar um clube de tênis. Mas o sonho não durou muito e, após alguns meses juntos, o temperamento do companheiro começou a mudar. “Tínhamos um choque: eu falava sobre raça, preconceito, consciência de classe e ele tinha certa resistência. No começo, ele entendia”, conta a mulher.
Quando a Rússia declarou guerra contra a Ucrânia, em fevereiro de 2022, ele também começou a falar mais sobre política e começou um curso de relações exteriores. Ela tinha começado um curso de Ciências Políticas, e foi desencorajada pelo companheiro a continuar.
Enquanto isso, ele passou a viajar cada vez mais para o exterior e ela ficou cada vez mais sozinha. Nesse ponto, Stephanie até alisava o cabelo para agradar o companheiro e deixou de ouvir hip-hop, gênero musical que ele não gostava.
Tudo mudou, realmente, em dezembro de 2022, quando a Polícia Federal prendeu o espião russo Sergey Vladimirovich Cherkasov, que usava um passaporte falso e se passava por Viktor Muller no Brasil. A notícia fez com que Eric mudasse os planos de viagens que tinha com Stephanie e “sumiu”. Na época, sem dar maiores explicações. Ele dizia que explicaria os motivos em outro momento.
Eric reapareceu em 2023, pedindo para que fechassem a joalheria que tinham juntos, que Stephanie devolvesse a casa e entregasse a documentação a um homem desconhecido, que se encontrou com ela em um estacionamento segurando uma maleta.
“Aí, eu desconfiei ainda mais que tinha algo de muito errado acontecendo com ele. Sei lá, como tráfico humano ou contrabando de pedras preciosas. Eu acho que ele já sabia que a gente não ia ter mais nada. Eu acho que ele só queria ter alguém de confiança. Também era uma forma de me manipular para fazer as coisas certas, não fazer alarde, não fazer nada, só fechar a loja, entregar a casa, fazer tudo como ele queria”, diz.
A desculpa que ele deu para sumir de vez foi que viraria monge. “Ainda subestimou meu intelecto”, aponta a brasileira. Eles nunca mais se viram depois disso.
Foi só após ser acionada pela Polícia Federal que ela entendeu o que estava acontecendo e descobriu o nome verdadeiro de Eric: Aleksander Andreyevich, um homem nascido em alguma região desconhecida da Rússia ou do Oriente Médio.
“É uma ferida muito aberta para mim. Eu fico emotiva. Eu consigo ver que estou conseguindo seguir em frente quando consigo falar, mas reviver tudo isso ainda é difícil”, conclui a brasileira à revista. A Polícia Federal afirma não comentar casos em investigação.
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