Sentença de prisão contra Sarkozy acentua crise de credibilidade dos políticos franceses
Nicolas Sarkozy, de 70 anos, será o primeiro ex-presidente da história da França a cumprir pena de prisão. A condenação do líder conservador a cinco anos de reclusão, por envolvimento em um esquema de financiamento ilegal de sua campanha eleitoral de 2007 com recursos do regime líbio de Muammar Kadafi, é manchete de capa em todos os jornais franceses nesta sexta-feira (26). O caso também ganhou destaque na imprensa estrangeira.
Nicolas Sarkozy, de 70 anos, será o primeiro ex-presidente da história da França a cumprir pena de prisão. A condenação do líder conservador a cinco anos de reclusão, por envolvimento em um esquema de financiamento ilegal de sua campanha eleitoral de 2007 com recursos do regime líbio de Muammar Kadafi, é manchete de capa em todos os jornais franceses nesta sexta-feira (26). O caso também ganhou destaque na imprensa estrangeira.
A sentença provocou uma verdadeira onda de choque no país. "Momento histórico", "pena severa e inesperada" e "sentença inédita" são algumas das expressões em destaque na imprensa francesa e internacional.
Sarkozy foi condenado pelo crime de associação criminosa - equivalente ao artigo 288 do Código Penal Brasileiro - por ter participado de negociações ilegais com o regime líbio em busca de apoio financeiro para sua campanha. A presidente do Tribunal de Paris determinou a aplicação provisória da pena, o que significa que o ex-presidente deverá iniciar o cumprimento da sentença mesmo que sua defesa apresente recurso.
Segundo o jornal Libération, a magistrada justificou sua decisão afirmando que os fatos são de "gravidade excepcional, capazes de abalar a confiança dos cidadãos nos políticos que os representam", conforme destacou também o Le Monde.
Sarkozy foi convocado a comparecer à Justiça no próximo dia 13 de outubro, quando deverá ser informado sobre a data de início do cumprimento da pena e a unidade prisional onde ficará detido. Como a aplicação provisória já foi determinada, ele deverá começar a cumprir a pena mesmo que recorra da condenação. A possibilidade de cumprir a sentença em regime domiciliar, com uso de tornozeleira eletrônica, ainda será avaliada pela Justiça.
O jornal progressista Libération, que estampou em sua capa uma foto de Sarkozy acompanhada da manchete "Cadeia", afirmou que a Justiça francesa saiu "de cabeça erguida" do julgamento, demonstrando independência institucional e reafirmando os princípios democráticos diante de abusos cometidos por figuras públicas.
A condenação provocou uma forte repercussão na classe política francesa, segundo o Le Parisien.
A direita e a extrema direita reagiram com críticas à decisão judicial, denunciando o que chamam de "justiça politizada", segundo destaca o Le Figaro. A deputada Marine Le Pen, do partido Reunião Nacional, que também enfrenta processos judiciais, criticou a generalização dos pedidos de execução provisória da pena, alertando para o que considera "um grande risco à presunção de inocência na França".
O jornal conservador questiona a severidade da sentença, lembrando que Sarkozy foi absolvido de três das acusações inicialmente apresentadas no processo: corrupção, receptação e financiamento ilegal de campanha, por falta de provas.
Combativo, o ex-presidente mantém sua postura de enfrentamento. Clama por sua inocência, denuncia o julgamento como um "escândalo" e afirma que "dormirá na prisão de cabeça erguida".
Na avaliação de Nicolas Sarkozy, "o julgamento representa uma ameaça extremamente grave ao Estado de Direito", segundo o jornal econômico Les Echos, que vê o caso como mais um episódio de dessacralização do poder na França.
Presidente da França entre 2007 e 2012, Sarkozy é réu em diversos processos judiciais. Em 2024, foi condenado definitivamente a um ano de prisão por corrupção e tráfico de influência no chamado "caso das escutas". Cumpriu parte da pena com tornozeleira eletrônica, de janeiro a maio - medida inédita para um ex-chefe de Estado francês - antes de recorrer à Corte Europeia de Direitos Humanos (CEDH).
Repercussão internacional: 'Fim da ostentação'
O jornal conservador alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ) lista os processos judiciais envolvendo Sarkozy e o classifica como "veneno para a democracia", acusando-o de ter "minado os princípios republicanos" ao propor penas mínimas e tentar abolir os juízes de instrução. "Chega de ostentação", sentencia o diário.
O diário italiano Avvenire, de inspiração católica, afirma que a condenação de Sarkozy "mancha ainda mais a credibilidade da classe política francesa", já em seu "nível mais baixo de todos os tempos", segundo pesquisas.
Na Argentina, o Clarín descreve a sentença como "delicada", em meio a um sentimento crescente entre os eleitores franceses de que o processo democrático do país é "corrupto e pouco confiável".
Segundo a BBC, Sarkozy foi condenado por ser um "político egocêntrico e influente que constantemente extrapolou os limites da lei para atingir seus objetivos". O veículo britânico acrescenta: "Nicolas Sarkozy está de volta onde sempre esteve: dominando o noticiário e dividindo a nação", sublinha a BBC. Na sequência, a emissora pública britânica conclui: "Os debates em torno deste caso ressoam nas ruínas da política francesa".