Por que Trump ignorou Nobel da Paz e decidiu apostar no chavismo para transição após Maduro
Caracas amanheceu em estado de incerteza após a operação militar norte-americana que levou à captura de Nicolás Maduro. Em movimento inesperado, Donald Trump sinaliza disposição para negociar a transição com o chavismo, descartando a oposição liderada pela Nobel da Paz María Corina Machado, considerada frágil para governar, segundo avaliação à RFI do cientista político Fabrice Andréani, da Universidade Lumière Lyon 2.
A manhã seguinte à espetacular operação militar conduzida pelos Estados Unidos encontrou Caracas mergulhada em incerteza política e silêncio cauteloso. A captura de Nicolás Maduro, levado a Nova York para responder a acusações de "narcoterrorismo", abriu um vazio de poder imediato no país e inaugurou um cenário improvável: a ascensão da vice-presidente Delcy Rodríguez ao comando interino da Venezuela, com o aval da Suprema Corte local, e a disposição declarada de Donald Trump de negociar a transição justamente com uma figura central do chavismo.
A escolha surpreendeu tanto aliados quanto críticos do governo norte-americano. Durante anos, Washington sustentou um discurso de apoio explícito à oposição venezuelana, especialmente a María Corina Machado, líder antichavista e vencedora do Prêmio Nobel da Paz. Ainda assim, Trump descartou publicamente a possibilidade de confiar a ela qualquer papel na reorganização política do país.
O gesto foi interpretado por analistas internacionais como um desmentido brutal da estratégia de apostar na oposição civil para conduzir o pós-Maduro.
Ameaça direta à presidente interina
Donald Trump declarou no entanto, neste domingo, que a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, "pagará mais caro do que Maduro" se "não fizer o que é necessário", em entrevista à revista The Atlantic. "Reconstruir o país não é algo ruim", acrescentou o presidente norte-americano, em contato por telefone. "A Venezuela está falida. Este país é uma catástrofe em todos os aspectos", disse.
Segundo o cientista político Fabrice Andréani, professor da Universidade Lumière Lyon 2 e especialista em Venezuela, ouvido pela RFI, a decisão de Trump responde menos a critérios ideológicos e mais a uma avaliação fria da correlação de forças no país.
Para ele, María Corina Machado não conseguiu, ao longo dos últimos meses — e mesmo anos — construir apoio significativo dentro das Forças Armadas, fator considerado decisivo por Washington. A administração Trump, afirma Andréani, questionou repetidamente qual seria o plano concreto da oposição em termos de cadeia de comando e governabilidade, buscando entender quem teria condições reais de manter o controle do território e das instituições.
"Governa quem tem armas"
As respostas, segundo essa leitura, foram vagas e insuficientes. A percepção predominante em Washington é de que a oposição venezuelana, apesar de respaldo internacional e legitimidade simbólica, não dispõe hoje da musculatura política e militar necessária para governar um país profundamente marcado por estruturas de poder armadas e por redes de controle territorial. Para Trump, a equação é direta: "governa quem tem armas, capacidade de coerção e influência real sobre o terreno", diz o especialista.
É nesse contexto, segundo Andréani, que Delcy Rodríguez surge como interlocutora preferencial. Mesmo afirmando publicamente que não pretende cooperar com Trump, em um discurso voltado sobretudo ao público interno, a vice-presidente representa a continuidade de um aparato estatal que ainda mantém algum grau de coesão.
As autoridades norte-americanas parecem compreender essa retórica como parte de um esforço para evitar fissuras internas no chavismo, especialmente entre suas alas mais radicais e entre grupos civis armados que controlam áreas urbanas, rurais e regiões estratégicas da Amazônia.
O argumento do petróleo
Ao longo do último ano, essa lógica pragmática já vinha se impondo. Houve acordos discretos entre Washington e Caracas que permitiram à Chevron retomar a exploração de petróleo no país, em troca da colaboração venezuelana na deportação de migrantes. Mesmo sob sanções e retórica agressiva, o chavismo no poder demonstrou disposição para negociar quando seus interesses estratégicos estavam em jogo. A atual transição parece seguir a mesma trilha.
Para Fabrice Andréani, trata-se de uma "tentativa de preservar o que resta da coesão do movimento chavista, hoje estimado em cerca de 20% a 25% da população, evitando um colapso abrupto que poderia levar o país a um cenário de fragmentação armada". Nesse cálculo, a escolha de Delcy Rodríguez "não representa uma reabilitação política do chavismo, mas uma aposta na estabilidade mínima necessária para conduzir uma transição controlada".
Com AFP