Câmara da Argentina aprova reforma trabalhista, primeira mudança estrutural de Milei
A reforma trabalhista do presidente Javier Milei foi aprovada com 135 votos a favor e 115 contra na madrugada desta sexta-feira (20. O texto sofreu uma alteração na Câmara e precisará voltar ao Senado, onde havia sido aprovado na semana passada. Milei pretende exibir a reforma como um triunfo político no dia 1º de março, quando fará um balanço do seu governo na abertura das sessões legislativas no Congresso.
Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires
Depois de 10 horas de debate, a Câmara de Deputados da Argentina aprovou a reforma trabalhista com 135 votos, seis a mais do que o mínimo necessário.
"Histórico. A Argentina será grande novamente", celebrou Milei numa postagem feita de Washington, onde participou da reunião do Conselho da Paz, de Donald Trump.
"A aprovação desta lei significa a criação de trabalho com carteira assinada, menor formalidade, normas trabalhistas adaptadas ao século XXI, menos burocracia, maior dinamismo nas relações de trabalho e o mais importante de tudo: o fim da 'indústria de processos trabalhistas'", destacou, em nota, o Executivo argentino.
É a primeira vez desde 1943, quando Juan Domingo Perón tornou-se secretário do Trabalho e, posteriormente, presidente da República, que as regras trabalhistas são alteradas por um governo não-peronista.
"É a primeira vez que o trabalhador não está no centro da cena, sendo substituído pela empresa. Esse texto revoga a lei de teletrabalho, não menciona a tecnologia nem a robótica (IA), diminui direitos, dissolve indenizações, limita o direito à greve e restringe a militância do representante sindical", indica à RFI Jorge Sola, secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT).
Choque de visões
A jornada foi tensa também do lado de fora do Congresso. Manifestantes lançaram paus e pedras na polícia que respondeu com jatos de água e gás lacrimogêneo. No total, 16 pessoas foram presas.
Em protesto contra a reforma, uma greve geral de 24 horas paralisou o país. Das quatro greves contra o governo Milei, esta foi a de maior adesão. Ônibus, metrôs, e trens não circularam. A paralisação também atingiu o transporte aéreo. Servidores do Estado, bancários e outros 11 sindicatos cruzaram os braços.
Para conter os ânimos e garantir uma aprovação na Câmara, o governo eliminou o principal ponto de discórdia: o artigo sobre alterações nas licenças médicas. No texto original, as remunerações mensais nas licenças seriam reduzidas em casos de afastamento devido a doenças. Dos atuais 100% , o trabalhador afastado receberia 75% ou mesmo 50% de seu salário, dependendo do motivo da doença.
Mas foi aprovada a criação de um fundo que financia os empregadores na hora de indenizar os demitidos. Esse fundo receberá contribuições patronais que atualmente são destinadas à Previdência. Ou seja: os empregadores terão financiamento para demitir, enquanto a Previdência se desfinancia.
Mudanças nos direitos trabalhistas
O cálculo para a rescisão trabalhista em casos de demissão foi reduzido ao não ser mais considerado o décimo-terceiro salário, as férias e os prêmios.
As jornadas de trabalho podem-se estender por até 12 horas diárias.
As horas extras podem ser compensadas com folgas e não mais com dinheiro.
As férias poderão ser fracionadas com um mínimo de sete dias.
Alguns setores, como a Educação, passam a ser considerados essenciais e, por isso, a ter restrições no direito de greve.
Por tudo isso, especialistas advertem sobre o risco de que, pelo menos num primeiro momento, o mercado de trabalho argentino possa enfrentar uma onda de demissões. Segundo eles, passará a ser mais fácil e mais barato demitir para depois contratar com as novas regras, caso a economia e o consumo voltem a crescer.
O governo intitula a reforma como "lei de modernização trabalhista". Os sindicalistas veem um "retrocesso" e prometem denunciá-la na Justiça como "inconstitucional".