Negociadora da tropa de elite da polícia francesa revela detalhes decisivos da atuação com terroristas
Há dez anos, a França entrava em uma de suas fases mais traumáticas com o atentado contra o jornal Charlie Hebdo, em 7 de janeiro de 2015. O país passaria por um ano marcado pelo terrorismo islamista, com a tomada de reféns no Hyper Cacher e, em novembro, os ataques contra o Stade de France, bares e restaurantes parisienses e o Bataclan. Naquele período, Tatiana Brillant, então negociadora do RAID — a unidade de elite da polícia francesa —, estava no centro do dispositivo de crise.
Em entrevista à RFI, ela falou sobre seu trabalho e sobre os desafios da negociação em situações extremas. Durante 13 anos, Tatiana Brillant foi a única mulher oficial no RAID. Uma singularidade que, segundo ela, teve impacto direto nas negociações. "Acho que, sobretudo, nossos interlocutores não estavam acostumados a ter mulheres nos grupos de intervenção", conta. "Na maioria das vezes, a presença de uma mulher causava surpresa", ressalta.
Em situações em que os interlocutores buscavam provocar ou desafiar as forças de segurança, a dinâmica mudava.
"Quando a pessoa é muito agressiva e quer se confrontar com a polícia, isso se torna muito mais difícil quando quem está falando é uma mulher." O efeito era imediato: "A tensão caía completamente, acabava a lógica do confronto".
"Tenho uma lembrança muito parecida com a de todos os profissionais que atuaram naquele dia", afirma. As recentes cerimônias de homenagem reacenderam memórias ainda muito vivas. "Dez anos é bastante tempo e, ao mesmo tempo, durante as comemorações, tivemos a sensação de que tudo tinha acontecido ontem".
Segundo ela, o tempo trouxe um pouco mais de serenidade, mas sem apagar a dor. "Não fico necessariamente revisitando essas datas de aniversário o tempo todo, mas é claro que elas continuam presentes", diz a ex-negociadora do RAID.
Segundo ela, relembrar esse período continua sendo difícil para quem esteve na linha de frente "porque foram intervenções muito pesadas para os profissionais envolvidos". "A primeira coisa em que pensamos são, obviamente, todas as vítimas desses atentados. Quando a gente evoca isso, a primeira lembrança vai para as vítimas e para aqueles que ficaram, que perderam pessoas próximas", conta Tatiana Brillant.
"Os terroristas não fogem à regra"
Durante anos, Tatiana Brillant foi uma das principais vozes do RAID em situações de crise, dialogando com sequestradores, foragidos armados e também terroristas. Uma pergunta surge com frequência: é possível negociar com terroristas? Para ela, a resposta é clara. "Costumo dizer que existem perfis muito diferentes. O terrorismo é apenas uma dessas categorias. Sempre que existe uma intenção, uma possibilidade de diálogo, e dependendo também das demandas e reivindicações, existe sim espaço para negociação. Eles não fogem à regra".
Mesmo no caso de jihadistas decididos a morrer, a negociação não é impossível — embora extremamente complexa. "Eles não são os únicos a adotar uma postura de tudo ou nada", explica.
"Existem outros perfis que não têm relação alguma com o terrorismo, como os chamados indivíduos em confronto armado ou indivíduos em situação de desespero extremo, que também não veem outra saída a não ser um fim trágico".
Em todos esses casos, o desafio é semelhante: "Cabe a nós encontrar um ponto de entrada para tentar fazê-los dar um passo de lado e considerar uma alternativa diferente daquela que escolheram".
O que se negocia em uma crise extrema
O conteúdo da negociação varia conforme a situação. "Isso depende muito do contexto", afirma Tatiana Brillant. "Na maioria das vezes, são eles que trazem os elementos da negociação".
Muitas vezes, o que está em jogo é o tempo. "Já tivemos situações terroristas bem diferentes em termos de reivindicações. Nosso trabalho é escutar atentamente o que está sendo pedido, mesmo sabendo que, num primeiro momento, nem sempre temos condições de atender. A ideia é ver como podemos avançar junto com eles e explorar outras possibilidades", explica.
O papel do negociador é bem definido. "Nossa missão principal é estabelecer comunicação para estabilizar os envolvidos, administrar a tensão e, sobretudo, obter uma rendição", detalha. "Entramos em contato com a intenção de alcançar uma resolução pacífica da crise."
Se o caso envolve um indivíduo isolado, o objetivo é convencê-lo a se entregar. Se há reféns, a prioridade passa a ser a libertação dessas pessoas. "Nossa intenção principal é pacificar a situação e ser uma alternativa à intervenção armada".
"O objetivo é salvar vidas", resume. "Exatamente como o grupo de intervenção com o qual atuamos."
"Estou aqui para ajudar"
Ao iniciar uma negociação, Tatiana Brillant costumava usar uma frase simples e direta: "Estou aqui para ajudar". Uma postura que pode surpreender, mas que faz parte da lógica do trabalho. "Nós não somos o elo da cadeia que julga. Outras pessoas fazem isso, esse é o trabalho delas", explica.
"Nosso papel é entender o que está acontecendo naquele momento e ver como podemos intervir para ajudar nosso interlocutor."
Segundo ela, adotar uma postura excessivamente policial ou focada no crime cometido pode bloquear o diálogo. "A ideia é abrir um espaço de comunicação. Se ficarmos presos ao julgamento ou à autoridade, isso nos impede de estar realmente abertos", acrescenta. O foco é compreender as motivações de quem está do outro lado da linha.
Para isso, empatia e capacidade de escuta são fundamentais. "É indispensável", afirma. "Isso permite manter a objetividade e entrar no universo do interlocutor para entender o que o motiva." Sem essa abertura, o risco é grande: "Como os atos são muitas vezes dramáticos, a tendência é olhar para a pessoa sob outro prisma, acusá-la ou assumir uma postura de autoridade. Mas o que queremos é estabilizar a situação e compreendê-la."
Ao longo da carreira, Tatiana Brillant participou de centenas de intervenções, mas nunca fez essa conta. "Eu estava de plantão com muita frequência, e quando estamos de plantão, há intervenções. São mais de cem, com certeza, mas nunca contei." Para ela, o número nunca foi o mais importante.
Algumas operações a marcaram mais do que outras, por razões específicas. Ainda assim, a memória permanece. "Se eu me debruçar sobre esses 13 anos, acredito que conseguiria lembrar de praticamente todas as intervenções." E a primeira nunca se apaga. "Ela fica para sempre na cabeça. É o batismo de fogo, o ponto de partida da carreira." Uma experiência que deixa clara a diferença entre treinamento e realidade: "Existe um abismo entre o treino e o que acontece de fato no terreno", concluiu.