Itália de Meloni é peça-chave para assinatura do acordo Mercosul-UE; para França, 'conta não fecha'
Prestes a assinar o acordo comercial entre a União Europeia e os países do Mercosul, Bruxelas tenta ao mesmo tempo conter a forte insatisfação do setor agrícola europeu e garantir o apoio político da Itália, considerada decisiva para o desfecho das negociações. O tema esteve no centro de uma reunião ministerial realizada nesta quarta-feira (7) em Bruxelas, em meio a uma onda de protestos de agricultores, especialmente na França.
Em pleno clima de mobilização agrícola em território francês, os ministros da Agricultura dos 27 países da União Europeia chegaram no início da tarde à sede da Comissão Europeia, no edifício Berlaymont, em Bruxelas, para discutir as reivindicações do setor e os termos do tratado de livre comércio com o Mercosul.
A Itália, governada por Giorgia Meloni, ainda não deu oficialmente seu aval ao acordo, mas um sinal verde parece cada vez mais próximo. Considerada decisiva para a aprovação do tratado, Roma expôs suas exigências ao chegar à capital europeia.
O ministro italiano da Agricultura, Francesco Lollobrigida, listou as principais demandas do governo. Assim como a França, a Itália exige garantias concretas de que os produtos sul-americanos respeitarão as normas sanitárias e ambientais europeias, sobretudo no que diz respeito ao uso de pesticidas proibidos na União Europeia.
Fora do dossiê Mercosul, Roma também espera um gesto da Comissão para reduzir o custo dos fertilizantes, por meio de uma revisão do mecanismo europeu de taxa de carbono nas fronteiras, que impacta diretamente o preço dos insumos agrícolas.
"Se essas garantias forem certificadas, aprovaremos naturalmente, neste estágio, a assinatura do acordo com o Mercosul", afirmou Lollobrigida em Bruxelas. O governo alemão, por sua vez, declarou estar "muito confiante" de que a Itália dará sinal verde ao tratado.
"Conta ainda não fecha"
Para a França, no entanto, "a conta ainda não fecha", reiterou Paris na manhã desta quarta-feira. Apesar da oposição francesa, o país conta apenas com o apoio da Polônia e da Hungria, número insuficiente para barrar o acordo, que é fortemente defendido por Alemanha e Espanha como forma de impulsionar a economia europeia.
Diante desse cenário, o caminho parece se abrir para a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que espera assinar oficialmente o acordo já no dia 12 de janeiro, após mais de 25 anos de negociações com Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai.
Antes disso, a Comissão precisa obter o aval dos Estados-membros por maioria qualificada, em uma votação prevista para ocorrer já nesta sexta-feira.
Para tentar reduzir a resistência ao acordo, Ursula von der Leyen anunciou na terça-feira um gesto em outro front sensível: a Política Agrícola Comum (PAC). A presidente da Comissão propôs um reforço orçamentário para o próximo ciclo da PAC, de 2028 a 2034, com a liberação antecipada de € 45 bilhões a partir de 2028.
Mesmo assim, o tratado com o Mercosul continua sendo visto como um risco pelos agricultores franceses. O principal sindicato do setor, a FNSEA, alerta que o acordo pode provocar mobilizações ainda maiores.
Direita francesa ameaça Macron
Na França, os protestos agrícolas voltaram a ganhar força, com comboios rumo a Paris e manifestações locais. Os agricultores denunciam tanto a concorrência crescente dos produtos latino-americanos quanto a forma como o governo francês tem lidado com a epidemia de dermatose nodular contagiosa (DNC) entre o gado bovino.
O tema também alimenta uma crise política. Embora o presidente Emmanuel Macron apoie o acordo com o Mercosul, o líder da direita francesa, Bruno Retailleau, afirmou que o chefe de Estado "corre o risco de uma moção de censura" contra o governo se insistir na ratificação do tratado.
Pesticidas e protecionismo
A França votará contra o acordo? Politicamente, assinar um tratado desse porte contra a vontade da maior potência agrícola da União Europeia colocaria a Comissão em situação delicada.
Bruxelas insiste que o texto prevê garantias aos agricultores europeus. Segundo a Comissão, as cotas de produtos importados com tarifas reduzidas, como carne bovina e aves, serão limitadas e acompanhadas de mecanismos de salvaguarda para os setores mais sensíveis.
O Executivo europeu promete intervir em caso de desequilíbrio do mercado, com a possibilidade, se necessário, de restabelecer tarifas alfandegárias.
A França ainda espera anúncios adicionais nesta quarta-feira para reforçar a proteção dos agricultores, na esteira de uma votação do Parlamento Europeu realizada em meados de dezembro.
No tema explosivo dos pesticidas, Paris elevou a pressão ao publicar um decreto suspendendo a importação de produtos agrícolas sul-americanos — como abacates, goiabas e mangas — tratados com fungicidas e herbicidas proibidos na União Europeia.
A Comissão Europeia tem dez dias para aprovar ou rejeitar a medida e lembra que já iniciou uma possível revisão das regras sobre resíduos de pesticidas em produtos importados.
O que está em jogo
O acordo de livre comércio permitiria à União Europeia exportar mais automóveis, máquinas, vinhos e bebidas alcoólicas para os países do Mercosul. Em contrapartida, facilitaria a entrada no mercado europeu de carne, açúcar, arroz, mel e soja sul-americanos, o que gera forte preocupação entre os setores agrícolas afetados.
Mesmo após a assinatura, o tratado ainda precisará ser ratificado pelo Parlamento Europeu, onde a votação promete ser apertada.
Com AFP