França: 11 suspeitos são presos no caso da morte de militante de ultradireita espancado em Lyon
Mais dois suspeitos de envolvimento na morte do militante de ultradireita francês Quentin Deranque foram presos nesta quarta-feira (18), totalizando 11 detenções até o momento. A morte do estudante, após ser agredido por um grupo de indivíduos encapuzados em Lyon (sudeste), na semana passada, tem gerado fortes tensões políticas no país.
O espancamento de Deranque, qualificado pelo ministro do Interior, Laurent Nunez, como um "linchamento", ocorreu durante uma manifestação do coletivo Némésis, identificado com a extrema direita, na última quinta-feira. Entre os detidos está Jacques-Elie Favrot, assistente parlamentar do deputado da esquerda radical Raphaël Arnault (LFI). A porta-voz do governo, Maud Bregeon, pediu nesta quarta-feira (18) que o LFI afaste Arnault "temporariamente" de seu grupo parlamentar.
O incidente colocou a LFI na mira direta da oposição, a um mês das eleições municipais. A sede nacional da sigla, localizada no 10º distrito de Paris, foi "evacuada após uma ameaça de bomba" nesta quarta-feira, disse no X o coordenador do movimento, Manuel Bompard. O caso, que domina os noticiários desde a agressão a Deranque, reacendeu o debate sobre violência política na França e sobre a relação entre grupos radicais de esquerda e de direita.
Deranque, de 23 anos, foi agredido perto do Instituto de Estudos Políticos de Lyon, à margem de uma conferência da deputada europeia Rima Hassan, da LFI. O jovem integrava o serviço de segurança do coletivo ultranacionalista Némésis, que se apresenta como defensor dos direitos das mulheres, embora suas posições frequentemente se alinhem a discursos xenófobos e anti-imigração. Segundo o Ministério Público de Lyon, houve confronto no local entre grupos de extrema direita e de esquerda radical.
"Instrumentalização política"
O assassinato de Deranque desencadeou uma forte reação política. O ministro do Interior, Gérald Darmanin, acusou a LFI de manter proximidade com a organização La Jeune Garde (A Jovem Guarda), dissolvida pelo governo por práticas violentas. Para ele, a postura do partido diante desses grupos é um "erro", avaliação compartilhada por outras legendas, como o Partido Socialista (PS), que acusa a LFI de manter uma relação ambígua com movimentos radicais.
O líder da LFI, Jean-Luc Mélenchon, rejeitou as críticas e reafirmou a "condenação intransigente" da violência. Segundo ele, não houve ataque premeditado contra Deranque, mas um confronto entre grupos adversários. Embora tenha classificado a morte do militante como inaceitável, Mélenchon lamentou o que considera uma "instrumentalização política" do caso por seus opositores.
A extrema direita também aproveitou a repercussão para intensificar ataques à LFI e tentar ampliar sua base eleitoral. Jordan Bardella, presidente do Reunião Nacional (RN), acusou Mélenchon de ter "aberto as portas da Assembleia Nacional a presumidos assassinos". Para o RN, historicamente associado ao extremismo, o episódio representa uma oportunidade de reforçar a imagem de partido "normalizado" perante a opinião pública.
Durante uma sessão no Parlamento, o primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, pediu à LFI que realizasse uma revisão interna e assumisse responsabilidades. O debate gerou uma troca acirrada de acusações entre parlamentares da esquerda radical e da extrema direita, com o RN tentando vincular o episódio à postura combativa da LFI. Lecornu apelou para que a "verdade judicial prevaleça", sem interferências políticas, enquanto o partido de Mélenchon continua rejeitando qualquer associação com os agressores.
Contexto ideológico
O coletivo Némésis, criado em 2019 por Alice Cordier - figura próxima à direita radical e ao extinto Génération Identitaire - voltou ao centro do debate político após a morte de Deranque. Apesar de adotar uma estética inspirada no feminismo, o grupo é alvo de críticas de organizações feministas tradicionais, que veem em suas ações uma instrumentalização da pauta das mulheres para sustentar um discurso nacionalista. Suas intervenções costumam destacar crimes atribuídos a imigrantes, estabelecendo uma ligação direta entre segurança feminina e política migratória, argumento recorrente no universo da extrema direita francesa.
Polarização e manipulação política
A morte de Quentin Deranque também expôs a crescente polarização da política francesa e a forma como episódios de violência podem ser rapidamente apropriados para disputa eleitoral. Enquanto a extrema direita tenta capitalizar o desgaste da LFI, acusando o partido de conivência com grupos radicais, o movimento de Jean-Luc Mélenchon tenta se desvincular de qualquer ligação com práticas violentas.
O caso intensificou confrontos entre direita, extrema direita e esquerda radical. De um lado, opositores da LFI usam o episódio para reforçar críticas sobre sua relação com grupos considerados radicais; de outro, parlamentares da LFI insistem que o debate deveria se concentrar na defesa das liberdades democráticas e do direito de manifestação, argumentando que atos de violência não podem ser atribuídos ao conjunto do espectro político.
Com AFP