Script = https://s1.trrsf.com/update-1770314720/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

As Principais Notícias da Europa

Memórias de Gisèle Pelicot chegam ao público com relato inédito sobre sua história

"Et la joie de vivre", relato autobiográfico de Gisèle Pelicot, chega às livrarias francesas nesta terça-feira (17), com tiragem inicial de 150 mil exemplares. O livro - já traduzido para 22 línguas - tem lançamento internacional e apresenta o depoimento da autora sobre sua trajetória marcada por adversidades. No Brasil, a edição chega às livrarias em 24 de fevereiro, pela Companhia das Letras, com o título "Um hino à vida: a vergonha precisa mudar de lado".

17 fev 2026 - 12h20
Compartilhar
Exibir comentários

Laurence Théault, da RFI em Paris

Capa do livro "Et la joie de vivre", de Gisèle Pelicot, que será publicado no Brasil com o título "Um hino à vida".
Capa do livro "Et la joie de vivre", de Gisèle Pelicot, que será publicado no Brasil com o título "Um hino à vida".
Foto: © Flammarion / RFI

As memórias de Gisèle Pelicot, escritas junto com a jornalista e romancista Judith Perrignon, chegam ao público um ano e meio após o julgamento em Avignon - um caso que ganhou repercussão mundial pela gravidade dos crimes, pelo número de acusados e pelo pedido de audiência pública feito por ela. Os 51 homens acusados de estuprar a francesa enquanto ela estava sedada foram considerados culpados de todos os crimes.

Com um título que evoca vitalidade e uma foto de capa em que Gisèle encara a câmera sem desviar o olhar, a autora afirma sua presença: seu corpo foi martirizado, mas ela segue de pé. Gisèle Pelicot atravessou o inferno e conseguiu tirar dele alguma luz. É nesse gesto que reside a força do livro.

A obra começa na manhã de 2 de novembro de 2020, quando ela descobriu que havia sido vítima, ao longo de uma década, de estupros cometidos sob submissão química e orquestrados pelo marido, Dominique Pelicot. Seu corpo inconsciente foi abusado por dezenas de homens - entre eles, o próprio marido.

Ela recorda sua reação diante das imagens mostradas pelo policial de Avignon responsável pelo caso, naquele dia que mudou sua vida para sempre.

"O policial mencionou um número. Cinquenta e três homens teriam ido à nossa casa para me estuprar. Pedi água. Minha boca estava paralisada. Uma psicóloga entrou na sala. (...) Não preciso dela. Tenho certeza da minha felicidade, da nossa felicidade. Quase 50 anos de casamento e a visão ainda nítida do nosso encontro. Seu sorriso. Seu olhar tímido. (...) Ele iria me amar." (Trecho do livro de Gisèle Pelicot, em tradução livre) 

Infância marcada pela perda da mãe

Até agora, pouco se sabia sobre Gisèle Pelicot, cujo sobrenome de solteira era Guillou. Ela só havia se expressado publicamente no tribunal. Com este livro, pela primeira vez, Gisèle fala de si própria, de sua história e de suas dores.

Gisèle nasceu na Alemanha, em 1952, em uma família modesta, e passou a infância no interior da França. A morte da mãe, vítima de câncer quando ela tinha apenas 9 anos, tornou-se um luto permanente que atravessou sua vida. Diversas vezes, ao longo do livro, ela fala sobre a mãe com imensa ternura. 

Seu pai, militar, casou-se novamente, mas com uma mulher extremamente violenta. Gisèle cresceu sob a autoridade opressiva de uma madrasta cruel. Naquele período, recorda, o casamento era uma das poucas formas de uma mulher sair de casa e escapar de seu meio social. O encontro com Dominique Pelicot e o amor imediato entre os dois surgiram, para ela, como uma chance de liberdade. Gisèle o amava "por inteiro".

Dominique também teve uma infância difícil, dominado por um pai tirânico. Juntos, os dois jovens acreditavam que iriam se salvar mutuamente. 

História das mulheres de uma época

Gisèle Pelicot deixa claro para os leitores que não deseja apagar todo o seu passado. Ela foi feliz com o marido, que a amava. Recorda momentos de cumplicidade e risos. Dominique, que era um jovem tímido, nem sempre foi o monstro em que se transformou. Gisèle escreve que "se apagar essas lembranças, será como morrer".

O livro, escrito como um romance, retrata também a história de várias gerações de mulheres. Fica claro que Gisèle era, acima de tudo, "uma mulher de sua geração", nascida no pós-guerra e moldada por um modelo familiar distante da sociedade atual.

"Fui aquela mulher que colocava a satisfação do homem antes da minha", ressalta.  

Suas memórias, portanto, compõem uma página da história das mulheres.

"Um hino à vida" é também um exercício de introspecção. Gisèle revisita sua trajetória, fala sem tabus sobre sua vida sexual e afetiva, as insistências do marido e seus fantasmas. Ela revela que recusou certas práticas. Depois dos estupros coletivos que sofreu, afirma no livro que Dominique Pelicot queria "submeter uma mulher insubmissa". 

Ao longo das páginas, Gisèle busca, quase com desespero, os sinais que poderiam ter revelado o criminoso oculto. O leitor compartilha com ela o cataclisma que viveu quando precisou contar aos filhos os abusos e assistir ao desmoronamento da família. A filha do casal, Caroline, suspeita que também teria sido violentada pelo pai. 

Recusa do julgamento a portas fechadas: um marco

Gisèle Pelicot responde na obra a todas as perguntas que o leitor inevitavelmente faz. Como ela não percebeu que o marido a drogava? Ela relata suas perdas de memória, suas inúmeras consultas médicas inconclusivas. Até descobrir a verdade, ela esteve convencida de que, assim como sua mãe, tinha um tumor no cérebro. 

Ela menciona as suspeitas que surgiram quando encontrou manchas inexplicáveis em uma calça: "Dominique, você não estaria me drogando, por acaso?", questiona. Em outro trecho, ela se detém longamente no sentimento de culpa comum a todas as vítimas. E reafirma que "a vergonha precisa mudar de lado". 

O relato também aborda sua decisão de recusar o julgamento a portas fechadas, assim como a humilhação imposta pelos advogados de defesa que duvidaram de sua versão. 

A francesa, agora septuagenária, garante que "não é uma feminista radical". Mas aceita ser "uma bússola, uma referência", especialmente para a nova geração de feministas, que ela começa a descobrir. Acima de tudo, Gisèle agradece a todas as pessoas que apoiaram sua luta. Ela se orgulha de ter ajudado outras mulheres a registrar queixas judiciais e a se separar de companheiros violentos. 

Coescrito com a jornalista Judith Perrignon, o relato nunca recai no sensacionalismo. Em um contexto no qual tantos falaram por ela, é a própria Gisèle Pelicot quem, enfim, faz sua voz ser ouvida - a voz de quem recusa o papel de mulher martirizada e opta pela "alegria de viver".

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Compartilhar
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra












Publicidade