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América Latina

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Da eleição brasileira aos protestos contra Trump, falta de transparência da Meta preocupa especialistas

As suspeitas de interferência da Meta nas eleições presidenciais brasileiras provocaram reação no Congresso dos Estados Unidos e reacenderam o debate sobre a influência das grandes plataformas digitais nos processos eleitorais. Especialistas ouvidas pela RFI explicam as lacunas na legislação americana que dificultam investigações sobre essa prática.

29 out 2026 - 14h41
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Resumo
Especialistas e parlamentares dos EUA cobram a Meta por falta de transparência após restrições ao alcance da campanha de Lula e o bloqueio de um perfil anti-Trump. A empresa nega interferência deliberada e atribui os casos a falhas técnicas. Críticos apontam que o corte de equipes humanas e a automação por inteligência artificial aumentam erros, impedindo verificar se os problemas decorrem de falhas operacionais ou viés político, o que reacende alertas sobre integridade eleitoral.

Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York

Segundo duas especialistas americanas em integridade eleitoral, a falta de transparência sobre o funcionamento dos algoritmos impede determinar se as restrições enfrentadas pela campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foram resultado de falhas técnicas ou de decisões deliberadas.

"Os algoritmos da Meta estão inteiramente sob o controle da própria empresa e têm um poder enorme sobre o que é visto e quem vê. Sem transparência sobre como esses algoritmos deveriam funcionar, o público não tem como saber o que realmente aconteceu", afirma Laura Edelson, professora de Ciência da Computação da Universidade Northeastern, em Boston, e diretora do Cybersafety Research Center, centro de pesquisas especializado em transparência dos algoritmos, desinformação e integridade eleitoral.

A campanha de Lula acusa a Meta, controladora do Facebook, Instagram e WhatsApp, de restringir sistematicamente o alcance de suas publicações, enquanto conteúdos ligados ao adversário, Flávio Bolsonaro, teriam recebido tratamento privilegiado.

A empresa nega qualquer favorecimento político e atribui os problemas a falhas técnicas, incluindo erros nas ferramentas de publicidade e na aplicação automática de políticas contra fraudes.

Em 22 de outubro, o senador Bernie Sanders e 12 deputados democratas americanos, liderados por Pramila Jayapal, enviaram uma carta ao presidente-executivo da Meta, Mark Zuckerberg, exigindo esclarecimentos sobre o tratamento dado às duas campanhas.

Os parlamentares também solicitaram informações sobre eventuais contatos da empresa com o governo de Donald Trump a respeito das eleições brasileiras e defenderam uma auditoria independente dos sistemas da plataforma.

Menos funcionários, mais inteligência artificial

Para Laura Edelson, o problema vai além dos incidentes registrados na campanha brasileira. A pesquisadora afirma que a Meta vem reduzindo os investimentos nas equipes responsáveis por fiscalizar conteúdos e garantir a integridade das eleições, ao mesmo tempo em que transfere parte dessas tarefas para sistemas automatizados.

"Historicamente, a Meta investiu muito pouco na segurança de suas ferramentas e sistemas de publicidade eleitoral. Isso acontece há muito tempo", afirma.

Segundo ela, essa tendência se intensificou nos últimos anos.

"Nos últimos dois anos, a Meta reduziu sistematicamente os recursos destinados aos sistemas de confiança e segurança e às equipes de integridade eleitoral", diz Edelson.

A especialista considera que a substituição de funcionários por ferramentas de inteligência artificial pode aumentar a frequência de erros na aplicação das regras das plataformas.

"A maneira como estão respondendo a esse problema é praticamente a mais barata possível. Eles reduziram sistematicamente suas equipes de segurança, de modo que há cada vez menos pessoas trabalhando nesses problemas. Isso leva tanto à aplicação excessiva quanto à aplicação insuficiente das regras", explica.

Edelson ressalta que não dispõe de informações suficientes para determinar se os problemas enfrentados por Lula também atingiram outros candidatos na mesma proporção.

Para ela, seria necessário conhecer dados comparativos sobre suspensões de contas, restrições de anúncios e desempenho das publicações, incluindo informações sobre a campanha de Flávio Bolsonaro.

Questionada sobre como distinguir uma falha algorítmica de uma interferência política deliberada, a pesquisadora foi categórica: "Esse é o problema. Não é possível."

Ex-executiva considera improvável interferência deliberada

Katie Harbath, especialista em integridade eleitoral e ex-diretora de Políticas Públicas do Facebook, onde trabalhou por dez anos na relação da plataforma com governos e campanhas eleitorais em diferentes países, apresenta uma avaliação menos crítica sobre as intenções da empresa.

Embora reconheça que observadores externos não conseguem verificar o funcionamento dos sistemas, ela considera improvável que os problemas técnicos enfrentados pela campanha de Lula tenham motivação política.

"Eu acredito na Meta quando diz que não há viés político nos problemas técnicos que a conta de Lula possa ter enfrentado. As equipes são muito cuidadosas para garantir que ofereçam os mesmos tratamentos a todos os partidos e candidatos", afirmou.

Harbath, que deixou a companhia há seis anos, ressalta que sua avaliação se baseia na experiência que teve dentro da empresa, e não no conhecimento de suas operações atuais.

"Nunca vi a empresa colocar intencionalmente o dedo na balança em favor de um candidato ou de outro", declarou.

Segundo ela, diferenças no alcance de publicações não significam necessariamente manipulação. O desempenho dos conteúdos depende de fatores como engajamento dos usuários, interesse do público e investimentos das campanhas.

"Não há como garantir o mesmo alcance para o conteúdo de todos os políticos na plataforma. O conteúdo de alguns candidatos pode ter um desempenho melhor do que o de outros", explicou.

Apesar de sua confiança nas práticas que conheceu dentro do Facebook, Harbath reconhece que a falta de transparência compromete a credibilidade das explicações apresentadas pela empresa.

"Tudo o que temos é a palavra da Meta. E a confiança na empresa está baixa neste momento", afirma.

Caso No Kings amplia questionamentos nos EUA

A controvérsia brasileira coincide com outro episódio que colocou a Meta sob pressão nos Estados Unidos.

Em 17 de outubro, durante uma jornada nacional de protestos contra Donald Trump, o perfil do movimento No Kings no Instagram ficou temporariamente indisponível. A organização, responsável pela mobilização de manifestações em todo o país, perdeu o acesso à conta por várias horas.

A Meta atribuiu o problema ao acionamento de sistemas automáticos de segurança, que teriam interpretado um volume incomum de atividade na conta como comportamento suspeito.

Em 22 de outubro, cinco senadores democratas americanos, liderados por Chris Van Hollen, enviaram outra carta a Zuckerberg cobrando explicações sobre a suspensão. Os parlamentares também mencionaram as restrições enfrentadas pela campanha de Lula e questionaram se a empresa havia mantido contatos com o governo Trump sobre os protestos.

Para Laura Edelson, os episódios não são idênticos, mas revelam uma vulnerabilidade comum: a aplicação automatizada de regras sem revisão humana suficiente.

A pesquisadora observa que, no caso do No Kings, o sistema teria interpretado um aumento na atividade de consulta a conteúdos como possível ação de robôs. Já no Brasil, os problemas envolveram ferramentas de publicidade e mecanismos automáticos de detecção de fraudes.

Embora reconheça que as plataformas precisam se proteger de ataques cibernéticos e tentativas de manipulação, Edelson considera que a redução da supervisão humana aumenta o risco de medidas equivocadas.

O Conselho de Supervisão da Meta, órgão independente que avalia decisões de moderação da empresa, também manifestou preocupação com os dois episódios.

Em comunicado divulgado na terça-feira (20), o colegiado apontou falhas recorrentes nos mecanismos de proteção à integridade eleitoral e afirmou que tanto as restrições à campanha de Lula quanto a suspensão do perfil No Kings deveriam ter sido submetidas à revisão de equipes especializadas.

Dez anos depois da eleição de Trump, riscos continuam

As denúncias envolvendo a Meta nas eleições brasileiras também remetem à eleição presidencial americana de 2016, quando o Facebook esteve no centro de controvérsias envolvendo desinformação, operações de influência estrangeira e o escândalo da Cambridge Analytica, empresa que utilizou indevidamente dados de milhões de usuários.

Katie Harbath considera que houve avanços importantes desde então, como a criação de mecanismos de transparência para anúncios políticos e o fortalecimento das medidas de combate à interferência estrangeira.

"A maior diferença entre 2016 e agora é que a empresa implementou muitas medidas de integridade eleitoral nesse período, desde a transparência dos anúncios políticos até o fortalecimento do trabalho de combate à interferência estrangeira", afirma.

Laura Edelson também reconhece melhorias na última década. A Meta passou a publicar relatórios sobre algumas de suas ações de moderação e criou ferramentas como a Biblioteca de Anúncios, que permite consultar informações sobre publicidade política. No entanto, a pesquisadora ressalta que esses instrumentos ainda oferecem pouca visibilidade sobre o funcionamento interno dos algoritmos e os processos que determinam quais conteúdos são distribuídos, restringidos ou removidos.

Para Edelson, essa falta de transparência representa um desafio especialmente importante diante da possibilidade de novas operações de influência estrangeira em processos eleitorais, inclusive nos Estados Unidos.

"Se a pergunta é se a interferência estrangeira ainda é possível, a resposta é absolutamente sim. Esse problema está muito longe de ter sido resolvido", afirmou à RFI.

A pesquisadora considera que a responsabilização das grandes empresas de tecnologia ainda está em construção. Ela compara esse processo à evolução das regras de segurança e proteção dos consumidores em setores como o farmacêutico e o automobilístico, nos quais foram necessárias décadas para desenvolver mecanismos capazes de reduzir os riscos associados a novas tecnologias.

Para Edelson, o desafio agora é encontrar formas de preservar os benefícios das plataformas digitais sem deixar de enfrentar os danos que elas podem provocar, especialmente em um cenário de crescente dependência das redes sociais para a circulação de informações políticas. 

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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