Ciência não encontrou comprovação de que Tylenol cause autismo, ao contrário do que diz Trump
PRESIDENTE DOS ESTADOS UNIDOS FEZ DISCURSO REFUTADO POR ENTIDADES DE SAÚDE E ESPECIALISTAS; MEDICAMENTO E VACINAS SÃO SEGUROS
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, espalhou desinformação sobre as causas do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Em pronunciamento feito nesta segunda-feira, 22, ele afirmou, sem apresentar qualquer evidência científica, que o uso do medicamento Tylenol (paracetamol) durante a gestação e a aplicação de vacinas estariam ligados a um aumento no número de casos de autismo no país.
O pronunciamento foi prontamente contestado por instituições médicas e científicas ao redor do mundo. A Organização Mundial da Saúde (OMS), a Autism Science Foundation (ASF) e entidades brasileiras como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reforçaram que não há comprovação científica que relacione o uso de paracetamol ou a vacinação com o desenvolvimento de TEA.
O uso do medicamento é considerado seguro para grávidas, desde que feito com orientação médica. A vacinação também é segura, e é encorajada por entidades médicas para proteger a mãe e o bebê.
O que dizem entidades médicas e especialistas sobre paracetamol e autismo
Alguns estudos observacionais antigos chegaram a sugerir que o uso de paracetamol na gravidez poderia estar ligado ao autismo, mas esses trabalhos tinham falhas importantes: não controlavam variáveis e confundiam o efeito do medicamento com o de condições como febre e infecções maternas, que podem impactar negativamente o desenvolvimento neurológico do bebê.
O pesquisador Victorio Bambini Junior, professor sênior em Neurociências e Neuroimunologia na Universidade de Lancaster, no Reino Unido explicou que febre e infecções costumam ser tratadas com paracetamol. "Esses fatores confundem os resultados (dos estudos observacionais)", explicou.
Pesquisas mais sólidas, como um grande estudo publicado em 2024 no Journal of the American Medical Association (JAMA), mostraram que, quando fatores familiares e genéticos são considerados, a suposta associação entre paracetamol e autismo desaparece — descartando relação de causa e efeito.
Organização Mundial da Saúde
O porta-voz da OMS Tarik Jašarevic ressaltou que todas as decisões sobre o uso de medicamentos durante a gestação devem ser tomadas junto a profissionais de saúde. Embora alguns estudos observacionais tenham levantado a possibilidade de associação entre a exposição pré-natal ao paracetamol e o autismo, as evidências disponíveis são inconsistentes e carecem de replicação científica.
Por isso, não há base para estabelecer uma relação causal. Jašarevic reforçou que a precaução ao tomar medicamentos é fundamental, sobretudo nos primeiros três meses de gravidez. As gestantes devem sempre seguir acompanhamento médico para garantir a segurança tanto da mãe quanto do bebê.
Autism Science Foundation
A Autism Science Foundation (ASF) também se posicionou com preocupação diante das declarações de Trump e do secretário de Saúde dos EUA, Robert F. Kennedy. Segundo a entidade, qualquer suposta ligação entre o uso de paracetamol na gestação e o autismo se apoia em ciência "limitada, conflitante e inconsistente" e não deve ser tratada como uma evidência consolidada.
Para a diretora científica da fundação, Alycia Halladay, esse tipo de alegação não apenas engana famílias em busca de informações confiáveis, como também ameaça a saúde pública ao difundir desinformação. A ASF ainda lembrou que tanto Trump quanto Kennedy vêm repetindo a crença, já refutada pela ciência, de que vacinas estariam associadas ao autismo, hipótese para a qual não existe nenhuma comprovação.
Mencionada por Trump, pesquisa monitorou autismo em 16 regiões nos EUA, incluindo Porto Rico
Durante o discurso, Trump citou dados da pesquisa Prevalência e identificação precoce do transtorno do espectro do autismo entre crianças de 4 e 8 anos, realizada pela Rede de Monitoramento de Autismo e Deficiências do Desenvolvimento (ADDM).
Na área da saúde, prevalência é o termo usado para indicar quantas pessoas em uma população têm uma determinada doença ou condição em um período específico. Ou seja, a prevalência mostra a proporção de indivíduos afetados em relação ao total, ajudando a compreender a dimensão e o impacto de um problema de saúde em uma comunidade.
O levantamento apontou que, na área analisada, a prevalência foi de 1 caso de autismo para cada 31 crianças, número apresentado corretamente pelo republicano.
No entanto, ao mencionar a Califórnia (estado com maior prevalência registrada no estudo, de 53,1 por 1.000 crianças, equivalente a cerca de 1 em cada 19), o presidente afirmou incorretamente que o índice seria de 1 em cada 12 crianças. Esse dado não corresponde à realidade.
A bula descreve ainda sintomas de intoxicação, como náusea, vômito, perda de apetite, palidez e mal-estar, que exigem atendimento médico imediato. Também há registros raros de reações cutâneas graves e reações alérgicas, o que reforça a necessidade de interromper o uso e buscar auxílio profissional em caso de qualquer sinal adverso.
O documento orienta atenção especial a grupos de risco, como pessoas com doenças no fígado, consumidores frequentes de álcool e pacientes em uso de antibióticos (como flucloxacilina) ou anticoagulantes (como varfarina). O uso em menores de 12 anos é contraindicado.
Outro ponto enfatizado é que não se deve ultrapassar a dose máxima diária de 4.000 mg, já que o excesso não aumenta o efeito analgésico e pode causar sérias complicações. Também é desaconselhado combinar o Tylenol com outros medicamentos que contenham paracetamol ou ingerir bebidas alcoólicas durante o tratamento.
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Em posicionamento enviado ao Verifica, a Kenvue destacou que pesquisas independentes e consistentes comprovam não haver relação entre o uso de paracetamol e o autismo. A farmacêutica afirmou considerar "profundamente preocupante" qualquer sugestão em contrário, ressaltando que o medicamento é a opção mais segura de analgésico para gestantes, quando necessário, em todas as fases da gravidez.
Segundo a empresa, sem o paracetamol, mulheres grávidas ficariam diante de alternativas mais arriscadas ou teriam de suportar condições como febre, que podem trazer riscos tanto para a mãe quanto para o bebê. A Kenvue ressaltou ainda que mais de uma década de estudos rigorosos, revisados por especialistas e endossados por órgãos de saúde globais, reforça a segurança do medicamento.
Vacinação não causa autismo: desinformação sobre o assunto é antiga
Além de culpar o Tylenol, Trump voltou a relacionar as vacinas ao autismo. Desta vez ele sugeriu, sem apresentar provas, que grupos que não utilizam imunizantes ou medicamentos, como os amish (comunidade cristã tradicionalista nos Estados Unidos), não registraram casos de TEA. A afirmação também é falsa.
Um estudo de 2010, conduzido pela International Society for Autism Research (INSAR), identificou que a prevalência de autismo entre os amish era de 1 a cada 271 crianças.
Além disso, um levantamento publicado em 2011 na revista Pediatrics entrevistou cerca de 1.000 pais amish sobre seus hábitos de vacinação. Entre os respondentes, 68% afirmaram que todos os filhos haviam recebido pelo menos uma imunização, enquanto 17% disseram que parte dos filhos havia recebido ao menos uma dose de vacina.
A médica infectologista Ana Paula Veiga, diretora do Centro de Referência em Imunobiológicos Especiais (Crie) do Hospital Emílio Ribas, explicou que não há qualquer evidência científica que associe a vacina tríplice viral ao desenvolvimento do TEA. Pelo contrário: estudos de grande escala comprovam sua segurança.
Um dos mais relevantes foi publicado em 2015 no Journal of the American Medical Association, avaliando quase 96 mil crianças norte-americanas entre 2001 e 2012. O resultado foi categórico: a aplicação de uma ou duas doses da vacina não aumenta o risco de autismo em nenhuma faixa etária.
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Ana Paula lembra ainda que a falsa suspeita de ligação da vacina com o autismo surgiu em 1998, quando o médico britânico Andrew Wakefield publicou um artigo na revista The Lancet sugerindo essa ligação a partir de um estudo com apenas 12 crianças.
Mais tarde, descobriu-se que o trabalho tinha conflito de interesse e manipulação de dados, já que Wakefield havia recebido recursos de escritórios de advocacia interessados em processar indústrias farmacêuticas. O caso foi desmascarado pelo jornalista investigativo Brian Deer, resultando na retração da publicação e na cassação do registro médico de Wakefield no Reino Unido. Posteriormente, o estudo foi retirado pela revista científica.