É falso que Air France tenha desenvolvido balão inflável para pouso de aviões na água
SISTEMA DEMONSTRADO EM VÍDEO QUE VIRALIZOU NAS REDES NÃO EXISTE, NEM É CONSIDERADO VIÁVEL PARA AERONAVES; COMPANHIA AÉREA DESMENTIU O BOATO
O que estão compartilhando: que a companhia aérea Air France teria desenvolvido um balão inflável capaz de permitir o pouso de aeronaves na água em situações de emergência. Posts compartilham um vídeo que demonstra o funcionamento do dispositivo.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. A Air France não desenvolveu qualquer dispositivo que permita o pouso de aeronaves na água. Ao Verifica, a empresa desmentiu o boato que circula nas redes sociais. Segundo o professor James Rojas Waterhouse, doutor do Departamento de Engenharia Aeronáutica da Universidade de São Paulo (USP), não existe nenhum equipamento que possibilite a flutuação de aviões da maneira apresentada no vídeo.
Saiba mais: o vídeo mostra uma grande bolsa inflável sendo acionada no momento em que o avião se aproxima da superfície do mar. O dispositivo reduziria o impacto da aeronave contra a água. No entanto, o sistema não existe e nem seria viável, diante da alta velocidade em que uma aeronave se desloca durante o voo.
"Se um avião pousar com um colchão daquele, eu te garanto que o impacto não é bonitinho como está no vídeo", disse o professor James Waterhouse. "É muito maior, vai rasgar, causar uma tragédia até maior".
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O especialista explicou que existem, sim, dispositivos de flutuação para aeronaves, mas eles são utilizados em helicópteros que operam em plataformas petrolíferas, por exemplo.
Segundo o professor, esse tipo de equipamento está associado a outra dinâmica de voo. Diferentemente dos aviões, esses helicópteros têm menor velocidade de deslocamento, conseguem realizar uma aproximação mais controlada e tocam a água de forma mais lenta.
O que acontece quando um avião precisa pousar na água?
Nas situações em que um avião de passageiros precisa realizar um pouso de emergência na água, o procedimento, segundo Waterhouse, é reduzir ao máximo a velocidade da aeronave em relação à superfície, manter o trem de pouso recolhido e posicionar o avião contra o vento.
O professor acrescentou ainda que, no momento em que qualquer parte da aeronave toca a água, a força de atrito é muito grande e tende a desacelerar a aeronave bruscamente, o que pode provocar danos à estrutura.
"Aquilo vai frear o avião com tanta força que em muitos casos o avião acaba quebrando em dois, ou quebra uma asa ou algum pedaço, em função da força de frenagem na água", disse.
Apesar desse risco, quando o procedimento é bem-sucedido, a chance de a aeronave permanecer inteira é relativamente alta.
"Pode ser que os motores ou as turbinas se soltem, mas a fuselagem - o corpo da aeronave, estrutura que abriga a tripulação, passageiros e carga - permaneça íntegra", afirmou James.
Nesses casos, o avião tende a flutuar, o que permite a retirada dos passageiros pelas escorregadeiras de emergência, que também funcionam como botes infláveis.
"Também tem os coletes salva-vidas infláveis, que ficam embaixo dos assentos, você sai vestido no colete e vai para o barco. Na pior das hipóteses, você vai ficar na água flutuando no colete", comentou.
De acordo com o professor de engenharia aeronáutica, se as empresas fossem desenvolver um mecanismo para permitir que aviões pousem na água, seria viável criar uma espécie de "esqui", que desceria no lugar do trem de pouso. A ideia é que a aeronave pudesse deslizar sobre a superfície até reduzir a velocidade, e a fuselagem então tocar a água de forma mais controlada. Até o momento, nenhum avião de passageiros foi equipado com um dispositivo desse tipo para situações de emergência.