Quase 70 mil mulheres buscaram proteção judicial no RS em 2025
Levantamento mostra que maioria das vítimas de feminicídio não havia registrado ocorrência nem possuía proteção judicial ativa
O número de mulheres que recorreram à Justiça para se proteger da violência doméstica no Rio Grande do Sul atingiu um patamar expressivo em 2025. Ao longo do ano, a Polícia Civil encaminhou 69.292 solicitações de Medidas Protetivas de Urgência ao Judiciário, envolvendo casos registrados em diferentes regiões do Estado.
A maioria desses pedidos teve origem no atendimento presencial, realizado em delegacias comuns, especializadas no atendimento à mulher, unidades voltadas à proteção de grupos vulneráveis e também nas Delegacias de Pronto Atendimento. Paralelamente, o uso de ferramentas digitais ganhou espaço: mais de cinco mil solicitações foram feitas por meio dos canais online da Polícia Civil, ampliando o acesso das vítimas à rede de proteção.
A expansão do atendimento digital passou a permitir que mulheres solicitem medidas protetivas a qualquer hora do dia, sem a necessidade de deslocamento imediato até uma delegacia. Além disso, permanecem ativos canais telefônicos e aplicativos de mensagens para denúncias e orientações, o que tem contribuído para reduzir barreiras no acesso aos serviços de segurança pública.
Apesar do alto número de pedidos, os dados revelam um contraste preocupante. Em 2025, o Rio Grande do Sul registrou 80 feminicídios, e levantamentos apontam que a maioria dessas vítimas não havia procurado a polícia antes do crime. Aproximadamente três em cada quatro mulheres assassinadas não tinham registro de ocorrência, e quase a totalidade não possuía medida protetiva vigente no momento da morte.
Para a cúpula da Polícia Civil, esse cenário reforça a importância da denúncia precoce. A avaliação interna é de que o acionamento da rede de proteção — que envolve polícia, Judiciário e serviços de acolhimento — aumenta significativamente as chances de interromper situações de violência antes que elas evoluam para casos extremos.
Como parte da estratégia de fortalecimento dessa rede, o Estado ampliou sua estrutura de atendimento especializado. Em 2025, foi inaugurada uma nova Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher em Esteio e implantadas dez Salas das Margaridas em municípios do interior. Esses espaços são preparados para oferecer acolhimento humanizado, com estrutura adequada também para crianças que acompanham as vítimas.
Além do atendimento direto, a Polícia Civil intensificou ações preventivas e educativas, como campanhas de conscientização, participação em projetos voltados ao enfrentamento da violência de gênero e operações focadas na prisão de agressores reincidentes. No início de 2026, uma dessas iniciativas resultou na prisão de quase 30 suspeitos, além da apreensão de armas de fogo.
Entre as medidas protetivas mais concedidas pela Justiça estão o afastamento do agressor do domicílio, a proibição de contato e a restrição de aproximação da vítima. Em casos específicos, o cumprimento dessas ordens pode ser acompanhado por meio do uso de tornozeleiras eletrônicas, instaladas pela Polícia Civil e monitoradas com apoio da Brigada Militar.
A instituição afirma que segue revisando protocolos e ampliando equipes especializadas, com o objetivo de dar respostas mais rápidas às denúncias e reduzir o número de casos graves. O entendimento é de que a denúncia continua sendo a principal ferramenta para salvar vidas e romper ciclos de violência que, muitas vezes, permanecem invisíveis até o desfecho trágico.